O complexo de Édipo passou por profundas modificações desde a sua origem. Podemos notar um aumento gradual da importância da fantasia em sua formulação.

Num primeiro momento, o peso maior era dado aos fatores ambientais (Édipo Empírico) e é só mais tarde que os aspectos internos (inconscientes) passam a predominar sobre os externos (Édipo estrutural).

A versão empírica diz respeito à primeira conceituação do complexo de Édipo, sendo a mais popular. Esta versão surge no momento em que Freud abandona a teoria do trauma.

A teoria do trauma foi a primeira formulada pelo autor. Nela, ele afirmava que a causa da neurose era um trauma de natureza sexual, sofrido na infância, recalcado e retornando na puberdade; sendo o sintoma um representante inconsciente deste trauma. Esta teoria era baseada em aspectos ambientais, onde a ênfase do tratamento consistia em se descobrir a causa externa dos sintomas. É importante ressaltar que nesta formulação Freud desconsiderava o desejo da criança, que era vista como uma vítima do desejo de seus pais (sedução).

A partir de sua experiência clínica, Freud começa a suspeitar de que as recordações traumáticas relatadas por seus pacientes não correspondiam a acontecimentos “reais” e sim a fantasias. Há então, uma alteração profunda na sua formulação teórica a respeito das psiconeuroses, onde Freud passa a reconhecer a importância do conflito psíquico na produção dos sintomas (percebe que a criança possui sentimentos ambivalentes com relação a seus pais, que em grande parte são reprimidos).

É a descoberta da fantasia que o permite chegar ao conceito de Édipo. Num primeiro momento, no entanto, as fantasias não ocupam um lugar central, e por isso, podemos chamar esta primeira versão do Édipo de empírica, que foi fortemente influenciada pelos ideais positivistas da época.

Na versão empírica, Freud apoia-se nos aspectos observáveis das vivências das crianças entre os 3 e 6 anos de idade, onde a experiência era fundamental para explicar as fantasias infantis.

No Édipo empírico, a sexualidade e o complexo de Édipo são desenvolvidos separadamente. A sexualidade infantil aparece limitada à fase oral e anal, muito próxima da biologia (necessidade orgânica e prazer). Dessa forma, a sexualidade infantil está desvinculada da fase fálica e é priorizada em seu aspecto autoerótico. A afetividade da criança é o que interessa, afetividade esta desprovida de ligação com os órgãos genitais.

Durante o primeiro momento do Édipo, Freud formula o conceito de identificação, que progressivamente substitui os fatores ambientais na explicação dos conflitos. Este conceito aparece como essencial para entender a afetividade do sujeito, que se estabelece a partir da interação entre o desejo parental e a personalidade da criança.

Com a identificação percebemos que o indivíduo não passa automaticamente para a posição de sujeito (para adquirir esta posição é preciso que ocorra a identificação).

É por meio da identificação, portanto, que se observa, gradativamente, a passagem da criança de posição de objeto para a posição desejante. No entanto, neste primeiro momento, a identificação ainda está ligada ao modelo “real” dos pais (e não aos pais subjetivos) e por isso é dada uma importância exagerada à educação, como se fosse capaz de “impedir” o desenvolvimento de uma neurose conforme o grau maior ou menor de repressão que exercesse sobre a sexualidade infantil.

Esta versão do Édipo abrange apenas a neurose e a perversão, excluindo a psicose. Isto porque, neste momento, Freud não pressupõe a constituição do sujeito (como se este existisse a priori). Além disso, predomina o modelo da sexualidade masculina e por isso, ela não é suficiente para dar conta da sexualidade feminina.

Ao se deparar com a questão das fantasias originárias e das teorias sexuais infantis, Freud abandona uma explicação biológico-ambiental (embora isto não ocorra completamente) e passa a elaborar uma nova versão do Édipo: o Complexo de Édipo Estrutural.

A elaboração do Édipo estrutural é fundamental. É a partir dela que a psicanálise passa a abordar a questão do desejo, onde a ênfase não recai mais na busca das causas (impulsos biológicos x educação) e sim na compreensão do sentido do conflito (fantasia).

Nesta versão há uma mudança radical na concepção da sexualidade infantil. A fase fálica passa a ser considerada fundamental, o momento culminante do complexo de Édipo, onde há uma unificação das pulsões parciais sob a primazia dos órgãos genitais e a criança (tanto a menina como o menino) descobre a existência da função normativa que faz com que se depare com sua castração. Nesta fase, a ênfase recai sobre o pênis, não como órgão anatômico, mas como um representante do falo, garantia do amor incondicional do objeto de desejo (o complexo de castração passa a ser predominante para entender o Édipo).

A versão estrutural representa o momento em que Freud passa a considerar a fantasia como algo proeminente à realidade e que a determina. Nesse sentido, sujeito e objeto não são mais concebidos como a conseqüência de experiências reais, mas sim, como constituídos pela fantasia. Nesta versão, o Édipo passa a ser compreendido como essencial à constituição do sujeito, sendo algo universal.

Cabe ressaltar que Freud nunca abandona totalmente uma concepção ambientalista biológica; ele, por exemplo, concebe a fantasia de castração como algo literal (medo da perda do pênis).

Bibliografia:
Freud, Sigmund. Obras Completas. Ed. Imago.
Goldgrub, Franklin. O Complexo de Édipo. Ed. Atica Ltda, São Paulo, 1989.


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