“O Mal-Estar na Civilização” (1930) - Resenha


No presente texto, Freud não distingue civilização de cultura, define civilização como tudo aquilo que difere o homem da vida animal, que o afasta de sua natureza. Assim, a civilização englobaria tanto o controle do homem perante a Natureza como o conjunto de regulamentos que regem os relacionamentos humanos.

O autor retoma seu artigo “Totem e Tabu” (1921) onde descreve a passagem da natureza à cultura. Segundo o mito da “horda primeva”, inicialmente existiria um pai onipotente, possuidor de todas as mulheres e de uma vontade arbitrária e absoluta. Esse pai seria assassinado pelos filhos e a partir disso se estabeleceria um contrato social para garantir que nenhum deles tomasse o lugar do pai. Assim, a partir do parricídio se constituiria uma organização social que marcaria a origem da civilização. O tabu do incesto surge aí como a primeira lei que fundamenta uma sociedade, uma vez que o incesto é de natureza anti-social.

Em o “O Mal-Estar da Civilização” (1930) Freud apresenta como tese o fato da cultura produzir um mal-estar nos seres humanos, visto que existe um antagonismo intransponível entre as exigências da pulsão e as da civilização. Assim, para o bem da sociedade o indivíduo é sacrificado: para que a civilização possa se desenvolver o homem tem que pagar o preço da renúncia da satisfação pulsional (a vida sexual do homem e sua agressividade são severamente prejudicadas).

O autor salienta que todo indivíduo é inimigo da civilização, já que em todos os homens existem tendências destrutivas, anti-sociais e anti-culturais. A civilização, portanto, trava uma luta constante contra o homem isolado e sua liberdade, substituindo o poder do indivíduo pelo poder da comunidade.

“Uma satisfação irrestrita de todas as necessidades apresenta-se como o método mais tentador de conduzir nossas vidas; isso, porém, significa colocar o gozo antes da cautela, acarretando logo o seu próprio castigo”.

Em “O futuro de uma ilusão” (1927) Freud afirma que, apesar dos esforços da sociedade, sempre existirá uma parte da humanidade que, em função de alguma patologia ou do excesso de pulsão, permanecerá associal.

Neste mesmo texto, Freud destaca a função da religião como conservadora da sociedade humana. O autor fundamenta que a raiz de toda religião deve-se a uma defesa do homem contra o estado de desamparo infantil que persiste até a vida adulta. A religião, assim, responderia ao anseio por um pai poderoso que oferecesse segurança, proteção (poupa os homens de uma neurose individual ao preço de deixá-los num estado de infantilismo psicológico, submetidos ao que chama de um delírio de massa).

Freud afirma que a natureza do homem exige este tipo de controle para que ele possa viver em sociedade. Dessa forma, se a religião fosse extinta, inevitavelmente, o homem criaria outro sistema de doutrinas com as mesmas características para se defender.

Freud assevera que a civilização tem como tarefa evitar o sofrimento e oferecer segurança, colocando o prazer a segundo plano. Em função do fato da satisfação pulsional ser sempre parcial (episódica) as possibilidades de felicidade tornam-se restritas (o autor desenvolve o conceito de felicidade como algo subjetivo: “A felicidade constitui um problema da economia da libido do indivíduo”).

“O programa de tornar-se feliz, que o princípio de prazer nos impõe não pode ser realizado; contudo, não devemos – na verdade, não podemos – abandonar nossos esforços de aproximá-lo da consecução, de uma maneira ou de outra”.

Para Freud, o sofrimento humano provém de três fatores principais: do corpo, do mundo externo e dos relacionamentos.

Em seu texto, aponta para alguns métodos existentes na sociedade humana para evitar o sofrimento e buscar a felicidade (mesmo que parcial).

Entre os métodos menciona o uso de drogas, a sublimação das pulsões, o trabalho, as fantasias, o remodelamento delirante da realidade, o amor e a enfermidade neurótica (sintomas são satisfações substitutivas para desejos não realizados).

Freud destaca a sublimação como um método com diferentes qualidades metapsicológicas, embora não seja acessível a todas as pessoas e falhe quando a fonte do sofrimento provém do próprio corpo. Para ele a sublimação da pulsão é fundamental para o desenvolvimento cultural, é o que torna possível as atividades psíquicas superiores.

O autor também enfatiza o amor como um dos fundamentos da comunidade (“Amar o próximo como a si mesmo”). No entanto, assevera que a relação do amor com a civilização é ambígua: por um lado se coloca em oposição aos interesses da sociedade e por outro, a civilização o ameaça com suas restrições às satisfações pulsionais.

Freud trata de três aspectos fundamentais que estão entrelaçados à noção de civilização: a angústia, agressividade e o sentimento de culpa.

Ele retoma seu texto “Mais Além do Princípio do Prazer” (1920), onde afirma a existência da pulsão de morte em todos as pessoas. Descreve essa pulsão como apresentando um caráter conservador e uma tendência à repetição, que busca reconduzir o indivíduo a seu estado inorgânico. Para o autor, a pulsão de morte seria um grande impedimento para a civilização.

"...essa tendência à agressão, que podemos perceber em nós mesmos e cuja existência supomos também nos outros, constitui o fator principal da perturbação em nossas relações com o próximo; é ela que impõe tantos esforços à civilização".

As pulsões agressivas do homem encontrariam limites, por exemplo, no que Freud denomina de “Narcisismo das pequenas diferenças”, onde um grupo se uniria no amor, manifestando sua agressividade para fora.

Freud afirma que quando a agressividade não pode ser externalizada ela é introjetada, dirigida ao próprio ego. Assim, uma parte do ego se coloca contra o resto do ego, na forma de superego.

É a partir do conceito de superego que o autor passa a desenvolver o termo sentimento de culpa, apontado por ele como um aspecto central da relação do indivíduo com a cultura.

O autor denomina como sentimento de culpa a tensão entre o ego e o superego, onde existiria uma necessidade de punição. Freud distingue duas origens do sentimento de culpa: o medo de uma autoridade exterior (anterior à formação do superego) e o medo do superego. No primeiro caso, a renúncia pulsional seria suficiente para evitar o sentimento de culpa, no entanto, no segundo caso esta renúncia não bastaria, já que se o desejo persiste a culpa aparece (ações e intenções não são distintas).

Para Freud, há uma estreita relação entre a civilização e o sentimento de culpa. A civilização só alcança o objetivo de manter os seres humanos ligados através de um crescente fortalecimento do sentimento de culpa, desenvolvendo um superego cuja influência produz a evolução cultural.

No fim do texto o autor, em tom pessimista, nos deixa valiosas questões: Haveria uma patologia das comunidades? Estas se tornariam neuróticas? Até que ponto o desenvolvimento cultural conseguirá dominar a pulsão de morte?

Bibliografia:
Freud, S.(1927) Obras psicológicas completas da ed Standard Brasileira. O Futuro de uma ilsuão. Rio de Janeiro: Imago Editora.
Freud, S.(1930) Obras psicológicas completas da ed Standard Brasileira. O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago Editora


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