"O Mito de Narciso"


Nesse mito, Narciso é filho da ninfa Liríope, que significa voz macia e de Céfiso, deus fluvial, aquele que banha, inunda, conhecido por sua insaciável energia sexual, em cujas margens nenhuma ninfa poderia chegar e sair intacta.

Liríope passeava quando se aproximou das margens do rio, Céfiso a aprisionou e desse contato a engravidou. Para ela, tal fato foi repugnado, porém deu à luz a um menino de beleza inimaginável. Logo, Liríope atormentou-se, pois para os deuses, a beleza fora do comum é algo condenável e temido, pois possuir a beleza à altura das divindades é algo passível de punição.

A mãe de Narciso, em sua inquietude, decidiu consultar Tirésias, um velho sábio cego, que tinha o poder da adivinhação, para saber sobre o futuro de quem foi concebido em circunstâncias tão peculiares. Tirésias lhe respondeu que Narciso viveria até a idade madura, na condição de jamais ver sua própria imagem (Brandão, 1989).

Condenado a não ver sua própria imagem, os anos se passaram e ele tornou-se um adolescente muito belo, arrogante e desdenhoso por suas qualidades. Começam as paixões pelo filho de Céfiso, muitas o desejavam, capturadas por sua beleza. Porém, Narciso não se rendeu a nenhuma dessas paixões, ficando indiferente.

Dentre elas, havia uma em especial: a Ninfa Eco que havia regressado do Olimpo após a vingança de Hera, esposa de Zeus. Eles viviam em discórdias conjugais, pois Zeus era libertino, promíscuo e infiel.

Em obediência ao grande Zeus, Eco havia enganado Hera, enquanto ele a traía. Ao descobrir isto, Hera ficou extremamente humilhada com as aventuras de Zeus. Ele desonrou o que ela considerava de mais sagrado: o matrimônio. Então, Hera condenou Eco a não mais falar, limitando-a a repetir os últimos sons das palavras que ouvisse. Amaldiçoada, Eco foi compelida a nunca mais se expressar, replicando as vozes que não as suas.

Certo dia, Narciso estava no bosque e Eco, amante das aventuras campestres, o viu, encantou-se com sua beleza e o seguiu. Ele ficou perdido e foi surpreendido pelo barulho dos passos de alguém, gritou e discorreu a seguinte situação:

Narciso: Há alguém por perto?
Eco : Há alguém.
Narciso: Vem!
Eco: Vem!
Narciso: Por que foges de mim?
Eco: Por que foges de mim?
Narciso: Unamo-nos aqui!
Eco: Unamo-nos!

O primeiro encontro foi marcado pela imagem bela de Narciso, que se deixa seduzir pela bela voz de Eco, que na verdade é a sua própria, escutando as palavras de Eco de modo a ouvir o que desejava. Eco, por sua vez, se viu diante da maldição: não ser amada pelo que é, mas como reflexo de Narciso nos sons que repetia. O desencontro e o mal-entendido se instalam.

Tal desencontro culminou na rejeição de Narciso, e Eco, após ter sido repelida tão friamente, se isolou numa imensa solidão e se transformou num rochedo condenada a repetir somente os derradeiros sons do que lhe diziam.

As demais ninfas, revoltadas com a insensibilidade de Narciso, pediram vingança à deusa Nêmesis, Deusa da Justiça. Em certa caçada, ávido por água, ele foi até o lago e observou uma sombra e ao olhá-la, ficou enfeitiçado com sua imagem e dali não saiu mais até sua morte, desgostoso com a impossibilidade de consumir sua paixão.

O mandato cumpriu-se e ele não conseguiu jamais alcançar a união amorosa com o objeto pelo qual se apaixonou. Ali ficou até sua morte e, quando procuraram seu corpo, encontraram apenas uma flor amarela, solitária e estéril - Narciso.

O conteúdo fundamental do mito – o apaixonamento de Narciso por si, pode levar à compreensão de que violou, o amor proibido, pois não dirigiu seu “amor” ao outro. Será que Narciso, impedido de se ver, chegou a se apaixonar por não saber quem é?.

Carvalho (1993) hipotetizou de modo diferente, pois conhecer-se para Narciso, talvez seja a descoberta da violação sexual inicial de onde surgiu, quando Céfiso, seu pai, tomou sua mãe em suas águas. Enfim, quando se olha na fonte, ele vê, aprisionada na água, a figura de uma ninfa, que se parece às demais, mas era Liríope cativa de Céfiso!

É nessa imagem que Narciso se detém para sempre, na cena primordial que é o segredo sobre si mesmo, o qual devia evitar a todo custo, de que não foi concebido pelo desejo.

O Mito de Narciso e Eco permite uma interpretação sobre a estranheza da estrutura narcísica. Trata-se da dialética da morte, Narciso morre na ilusão de ter encontrado a completude.

Referências

Brandão, J.S.- “O Mito de Narciso e Eco” in: Mitologia Grega, RJ: Vozes, Vol. 3, 1989.
Carvalho, J. J. “O encontro impossível entre Eco e Narciso” in: Serie Antropologia. Unb, Brasília, 1993.
Freud, S.- Sobre o Narcisismo: Uma Introdução (1914), S.E., Imago, R.J., 1969.

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