"O narcisismo e a fase do espelho"


O narcisismo é um conceito criado por Freud, que adotou o termo a partir do mito grego de Narciso. A origem da palavra Narciso, em grego Narkissos, vem de narkes, que significa entorpecimento, torpor, inconsciência. A palavra narcótica é derivada e indica qualquer substância que altera os sentidos, produzindo narcose. Faz referência também ao nome de uma flor bonita e solitária, que nasce nas beiras dos rios, cuja vida é bastante efêmera e estéril. (Brandão, 1989).

Nos dias atuais, tem aumentado a ênfase de que vivemos sob a égide do narcisismo. Para a Psicanálise têm surgido crescentemente referências às patologias chamadas narcísicas. Para desenvolver essa afirmação, utilizarei a teoria de Freud a partir da leitura sobre a noção de narcisismo e seu significado unificador junto à organização pulsional na imagem integrada do eu.

O termo apareceu pela primeira vez em 1910, Freud abordou o narcisismo na perspectiva da escolha objetal dos homossexuais, ele mencionou na ocasião que a escolha do objeto libidinal parte do narcisismo, na busca pelo semelhante.

No caso Schereber, Freud propôs a existência de uma fase intermediária entre o auto-erotismo e o amor objetal, que seria o narcisismo. Assim, o termo Narcisismo foi aplicado por Freud antes mesmo de sua formulação teórica que ocorreu em1914 no texto “ Sobre o Narcisismo: Uma Introdução”, quando realizou uma elaboração mais aprofundada sobre o tema.

Freud constatou na análise de pacientes neuróticos, que o componente narcísico não estava restrito à perversão e às patologias ditas narcísicas. Percebeu que as manifestações de seus pacientes eram referentes a algo preexistente, não sendo uma criação atual, portanto, ligadas à uma condição anterior.

Diante dessas questões, Freud percebeu que o narcisismo é um componente inerente ao desenvolvimento libidinal, sendo um complemento da pulsão de auto-preservação, que, em certa medida, pode ser atribuído a toda criatura viva (Freud, 1914).

Antes do momento estrutural do narcisismo predomina o funcionamento chamado por Freud de “perverso polimorfo”, caracterizado pela parcialidade das zonas erógenas. Nessa anterioridade lógica, esse funcionamento é chamado de auto-erotismo, pois a satisfação das pulsões ocorre de modo a não organizado. São atividades das partes do corpo conectadas às suas respectivas satisfações,ou seja, o que acontece em cada zona erógena, encerra em si mesma (como a sucção do polegar – satisfação libidinal oral).

Partindo deste estado em que as pulsões sexuais se satisfaziam de forma anárquica, independente uma das outras, advém um primeiro movimento de organização pulsional, o narcisismo. Neste o ego vem a ser tomado como objeto de amor, em torno de uma imagem integrada, coincide com o surgimento do ego como unidade psíquica e de representação de corpo.

O narcisismo primário é uma posição preparada pelo desejo e pelo ideal dos pais, é uma marca de investimento que o sujeito irá se ocupar. Essa herança do desejo parental é constitutiva do sujeito e formadora de um eu, pois o narcisismo é uma operação que se organiza em torno dele e possibilita a primeira unificação das pulsões sexuais em torno do eu (Freud, 1914).

Para que o narcisismo se instaure é necessário investimento externo, na relação primária estabelecida com a figura materna deve ter havido tanto um investimento pulsional nas zonas parciais, no corpo erógeno, quanto o investimento narcísico, em direção ao eu da criança, futuro indivíduo. A rigor, ambos os investimentos devem coincidir: o eu do bebê e o seu corpo erógeno como simultaneamente investidos pelos pais.

É possível fazer uma correspondência da passagem do auto-erotismo ao narcisismo com o que é denominado por Lacan como fase do espelho. Lacan também enfatizou que o investimento da mãe, o olhar relacionado à imagem do filho que gostaria de ter, antecipa um sujeito que está por se constituir. O sujeito que irá advir é algo formulado anteriormente, o bebê não nasce como eu, se desconhece, ele assume esta imagem antecipada, se identificando a ela, esse movimento se chama suposição de sujeito Assim, Lacan atribuiu muita importância à presença do outro, que participa por meio do investimento nessa imagem da criança como eu ideal (definição de Freud), depositário das expectativas e perspectivas dos sonhos mais antigos de seus pais.

Essa concepção do estádio do espelho introduzida por Lacan traz à luz a questão da imagem adquirida pelo bebê, demonstrada pelos diversos gestos que experimenta ludicamente e a relação que estabelece com sua imagem quando refletida no espelho. Essa imagem é estruturante, pois o eu é antes de tudo um eu corporal, na medida em que organiza um corpo a partir de uma promessa de unidade: o eu pode existir.

O adulto é quem assegura que essa imagem que é semelhante à dos outros, é ´da criança, ou seja, é assim que é reconhecida. Em outras palavras, o adulto é aquele que articula a promessa: dizendo que esta imagem mostra que será Um a mais entre seus semelhantes. A imagem, inicialmente, responde as leis do Outro, que introduz o princípio de alteridade, pois o semelhante é ao mesmo tempo outro, assim como o ego também é outro (Lacan, 1976).

Num primeiro tempo, o sujeito é capturado por esta imago materna e , em seguida, pela sua própria imagem refletida no espelho que o alienará, para sempre nesse outro que é ele mesmo. O estádio do espelho não consiste em uma etapa a ser superada, mas é experiência em que coloca o eu como um outro, onde o eu e tu se confundem.

Por meio desse investimento externo sobre o psiquismo que vai ser instaurado (no narcisismo primário) um estado precoce em que a criança investe toda sua libido em si mesma. O pequeno sujeito vai passar não só a ser alimentado por uma imagem ao mesmo tempo integrada e de perfeição, mas também vai poder, a partir daí, definir-se, identificar-se e reconhecer-se.

Essa imagem de completude como ‘eu ideal’, é uma relação de amor consigo mesmo. À medida que se constitui essa imagem de si mesmo, esta vai ser cultivada e defendida como uma necessidade de satisfação narcísica, que se transformará numa demanda: demanda de ser objeto do amor de um outro.

Posteriormente, o ego ideal se constrói como uma referência perene no psiquismo, uma ilusão e um modelo ao qual o eu sempre buscará ‘retornar’: uma posição na qual se assenta a ilusão de ter sido amado e admirado sem restrições, um estado ideal.

Esse momento narcísico primordial é um tempo ‘mítico’, caracteriza-se pela falta de uma relação de objeto é o tempo da identificação primária, quando sujeito e objeto estão fusionados, indiscriminados. A catexia que o id emite em direção ao objeto é, ao mesmo tempo, uma relação de identificação, visto que o eu está com aquele numa relação de fusão, insuficientemente diferenciado.

É somente a partir da constituição de uma unidade tal como é o eu, de uma imagem de si mesmo, após esse tempo da identificação primária, que é possível pensar a questão da relação com objetos e da escolha objetal. Após a constituição do eu e a renúncia libidinal ao objeto no Édipo, que resultará ao id a possibilidade de reenviar catexias dirigidas a esse novo objeto: o eu.
O abalo dessa imagem narcísica e da ilusão em torno dela será colocado pelo Complexo de Édipo. Nesse momento, o sujeito resistirá em ficar excluído do centro das atenções e do “amor” do casal parental. Diante dessas frustrações narcísicas, o indivíduo será convocado a satisfazer tais ‘necessidades’ encontrando formas mais variadas para isso.

O narcisismo secundário definido por Freud, é um estado de regressão, quando há retorno ao ego da libido retirada dos seus investimentos objetais. Porém, esse estado não se restringe a essa significação, trata-se de uma estrutura permanente no sujeito. No plano econômico, será sempre solicitado um equilíbrio entre investimento narcísico e objetal – através do ideal do eu. No plano tópico, o ideal de eu é uma formação que jamais será abandonada. A satisfação pulsional passará a se dar também através do eu, e portanto ligada à imagem integrada de um corpo (Laplanche e Pontalis, 2000)

Pode-se afirmar que o ideal do eu poderá se constituir o herdeiro, sucessor do eu ideal. O ideal do eu abre o campo da temporalidade no narcisismo. O narcisismo do ego ideal é transferido para os ideais que o sujeito se esforçará para alcançar, através da promessa de restituição, pelo menos em parte, do encanto narcísico perdido.

Freire Costa (1986) afirmou que o sujeito irá se instituir após viver a experiência de apreensão dessa imagem desejada pelo outro. O narcisismo, portanto, surge e permanece dirigido por aquilo que no corpo ou no psiquismo é percebido como objeto de desejo do Outro.

Concluindo, o narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a esse novo ego ideal, que está repleto de toda perfeição de valor. Renunciar à perfeição narcisista de sua infância, não é uma tarefa fácil. O sujeito ao crescer, se tomado pelo despertar de seu próprio julgamento crítico, de modo a não mais poder reter aquela perfeição, procura recuperá-la sob a nova forma de um ideal de ego. O que ele projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua infância na qual ele era o seu próprio ideal (Freud, 1914).

Referências

Brandão, J.S.- “O Mito de Narciso e Eco” in: Mitologia Grega, RJ: Vozes, Vol. 3, 1989.
Freire Costa, J. - Violência e Psicanálise, RJ, Graal, 1986.
Freud, S.- Sobre o Narcisismo: Uma Introdução (1914), S.E., Imago, R.J., 1969.
Lacan, J.- "O estádio do espelho como formador da função do eu." in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor,1998.
Laplanche J. ; Pontalis, J.P.- Vocabulário da Psicanálise (1982), Martins Fontes, São Paulo, 2000.

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