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Dom, 22/04/2007 - 14:14


Entre as especificidades da clínica psicanalítica da infância destacamos uma delas para nos debruçarmos neste trabalho: as crianças são trazidas por alguém – pais ou responsáveis – e são faladas por eles. As crianças são sujeitos, mas não têm meios para sustentarem sozinhas uma análise.

Em vista disso, uma questão se coloca inicialmente de forma mais complexa nesta clínica: a discriminação da demanda. Ela existe? De quem é? Há coincidência entre a demanda dos pais e da criança?

Muitas vezes os pais procuram o analista porque “alguém mandou” (escola, pediatra, outros profissionais da saúde, etc.). Mas para que a análise de uma criança se sustente é fundamental que os pais se sintam implicados neste pedido que é dirigido ao analista. Faz-se necessário então que este os escute, em entrevistas iniciais, tantas vezes quantas forem necessárias, até que se formalize o que eles acham e percebem sobre o filho e sobre esta queixa que motivou o encaminhamento.

Este período de entrevistas é primordial também para outras situações que podem ser colocadas ao analista: a demanda dos pais se caracteriza como um pedido de “normatização” do filho; um dos pais tem demanda para o tratamento do filho, mas o outro não e sustenta um olhar diferente sobre a criança; os pais têm demanda para o atendimento do filho, mas a criança não tem ou vice-versa.

Caso este trabalho inicial da demanda seja negligenciado, tende a resultar em abandono do tratamento. É fundamental criar um espaço para que os pais considerem a respeito do sentido do sintoma da criança.

No texto “Duas notas sobre a criança” Lacan (1986) chama atenção para o fato de que o sintoma da criança pode ser uma resposta a algo sintomático da dinâmica familiar, do casal ou de um dos pais.

Outros autores como Dolto (1996) e Mannoni (1999) também apontam esta relação possível entre o sintoma da criança e a fantasmática dos pais. Nestes casos, sem o trabalho com estes não é possível um deslocamento no sintoma da criança.

Por exemplo, uma menina de 7 anos é levada ao analista porque tem pesadelos e brinca com amigos imaginários. Na entrevista com os pais e a criança, o casal relata uma série de dificuldades no relacionamento deles, a mãe extremamente insatisfeita deseja separar-se. Quando a filha acorda com os pesadelos chama a mãe, que vai para a cama dela e dorme lá, evitando assim a intimidade com o marido. Na medida em que a questão do casal é nomeada, a menina para de ter pesadelos. Porém, permanecem as brincadeiras com os amigos imaginários e a análise da criança é iniciada.

O analista precisa escutar quem traz a criança, não simplesmente para colher informações sobre o desenvolvimento ou a história, mas porque estes são personagens ativos na produção do sintoma.
É comum então surgirem questões relativas às dificuldades de manejo destas situações: quem escutar? Quantas vezes? A criança deve estar junto?

Deparamo-nos assim com uma das grandes dificuldades e ao mesmo tempo riqueza da clínica psicanalítica: não há um “procedimento padrão” a adotar.

Cabe ao analista, a partir da escuta cuidadosa de cada caso, escolher os manejos que propiciem a cada sujeito posicionar-se.

Porém, alguns apontamentos parecem possíveis. Primeiramente, é imprescindível garantir este espaço de escuta, sem cair em precipitações diagnósticas ou em pedidos realizados pelos pais ou pela criança, sem responder às demandas.

Lembrar que o sujeito da análise da criança é a criança e cabe ao analista construir e sustentar esta transferência.

Isso delimita o lugar do atendimento dos pais, que não terão com este analista uma análise pessoal ou uma terapia de casal/familiar. As entrevistas com os pais visam discriminar demanda, gozo e posição subjetiva de cada um, realizando encaminhamentos que se façam necessários e intervindo para esvaziar excessos de gozo, onde o sintoma da criança se sustenta.
A presença da criança nestas entrevistas com os pais, e em todas que se façam necessárias ao longo do tratamento, deve sempre ser considerada. Não há consenso entre autores a este respeito e em geral esta se torna uma questão polêmica.

Comumente questiona-se: “mas a criança vai agüentar ouvir o que os pais têm a dizer?”; “mas é produtivo a criança ouvir coisas que podem ser referentes à sexualidade do casal ou de um dos pais ou mesmo referências a experiências traumáticas destes?”; ou ainda ouvir algo sobre a história da criança, onde esta aparece como odiada ou rejeitada? (por exemplo, que a mãe desejou abortar, que teve depressão pós-parto,etc.).

São questões delicadas, mas caberia colocar que muitos elementos que podem aparecer nas entrevistas com os pais, ainda que não tenham sido verbalmente ditos até então, já incidem sobre os sujeitos, através da fantasmática inconsciente de cada um. Mais ainda, muitas vezes são atuados nas relações e estão intrinsecamente relacionados aos sintomas que a criança apresenta e que motivam a busca por atendimento.
Por exemplo, uma mãe que mantém excessivas manipulações físicas no filho de 9 anos (dá banho, limpa as fezes, passa pomada nos genitais). Há uma obscenidade inconsciente nestes atos, que se relacionam à dinâmica psíquica desta mãe, que tem dificuldade em separar seu lugar de mulher e de mãe. Há um gozo, também inconsciente, em manter esta situação, à qual a criança responde sintomaticamente com uma falta de autonomia e agressividade, que mantém esta mãe “ligada” nele o tempo todo.

Em entrevistas com a dupla mãe/criança aparecem dificuldades no relacionamento da mãe com o pai do menino, o desejo deste de que fosse feito um aborto, levando à separação do casal. A decisão da mãe em ter o filho como forma de oposição a este homem e à sua própria mãe, atitudes de muita hostilidade da mãe com o filho. Pode-se questionar: isso não poderia ser evitado? Mas não são justamente estes os “motores” da situação patológica?

O analista irá conduzir ativamente estas entrevistas, intervindo, e uma função de corte/limite sempre pode ser exercida (por exemplo, “isso já é algo que remete exclusivamente a uma questão pessoal sua. Mas vamos ver, disso que você disse, como você acha que afeta o seu filho?”).

As “inadequações” também podem ser trabalhadas de forma enriquecedora. Por exemplo: “mas como você acha que é para o seu filho ficar escutando coisas tão íntimas suas?”.

Manejos que remetam ao relato da própria história dos pais em geral também são importantes para localizar a posição subjetiva de cada um e até elementos transgeracionais (comumente presentes em casos de autismo e psicose infantil).

Na medida em que estas cenas se desdobram na presença do analista, a intervenção deste torna-se possível. Certamente complexa, convocando-o em sua análise pessoal. Mas possível.

BIBLIOGRAFIA

Dolto, F. (1996) No Jogo do Desejo – Ensaios Clínicos. SP: Ática.

Lacan, J. (1986) “Duas notas sobre a criança” em Ornicar? No. 37, p. 13-14.

Mannoni, M. (1999) A criança, sua “doença” e os Outros. SP: Via Lettera.


*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

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