"Recalque" (1915) - resenha


O conceito de recalque (verdrängung) é um dos mais fundamentais da teoria freudiana.

Neste texto Freud afirma que a angústia é conseqüente ao recalque. Mais tarde, em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), reformula a noção de angústia asseverando que ela é a força motora que leva ao recalque e não a conseqüência.

Freud relata que o recalque seria uma das vicissitudes da pulsão, uma resistência que visa tornar a pulsão inoperante. Ele ressalta, no entanto, que o recalque só ocorre quando se estabeleceu uma cisão entre a consciência e o inconsciente, uma vez que sua finalidade seria manter alguns conteúdos da mente inconscientes.

O autor descreve que existe um primeiro recalque, que visa negar a entrada na consciência de um representante psíquico da pulsão. Em seguida, existiria o recalque propriamente dito, que atuaria sobre todos os outros representantes ideacionais que tiverem ligações associativas com o primeiro representante recalcado.

Um aspecto relevante é que o representante pulsional, embora inconsciente, continua a existir de forma ainda mais organizada, dando origem a derivados e estabelecendo associações. “Na verdade, o recalque só interfere na relação do representante pulsional com um único sistema psíquico, a saber, o do consciente” (p.154).

A análise, por meio da associação livre, exige do paciente a produção de derivados do recalcado que, por estarem distorcidos ou distantes no tempo, podem passar pela censura do consciente (os sintomas neuróticos também são derivados do recalcado, são formações substitutivas). O recalque atua sobre cada derivado isoladamente.

O recalque também está ligado à produção de prazer e desprazer. Assim, um derivado que produz desprazer pode, através de algumas distorções, produzir prazer e assim vencer a resistência temporariamente (um bom exemplo deste mecanismo é encontrado na formação dos chistes).

O autor afirma que o recalque tem um caráter móvel, exige um gasto de energia constante, uma vez que o recalcado exerce uma pressão contínua para tornar-se consciente. Nesse sentido a eliminação do recalcado significa uma economia energética. Os sonhos exemplificam bem a mobilidade do recalque: enquanto sonhamos, o conteúdo recalcado é absorvido, mas quando acordamos, torna-se novamente inconsciente.

Freud destaca que o fator econômico é fundamental no recalque, já que é a quantidade de catexia que determinará se o derivado deve permanecer inconsciente ou não (o enfraquecimento do que é desprazeroso pode substituir o recalque).

Com relação ao fator quantitativo, o representante da pulsão pode sofrer três destinos possíveis: ou é suprimido, ou aparece como um afeto qualquer ou é modificado em angústia. Neste último caso, Freud diz que o recalque falhou, na medida em que não conseguiu atingir seu objetivo principal: evitar o desprazer.

Ao analisar os três tipos principais de psiconeurose (histeria de angústia, histeria de conversão e neurose obsessiva), chega à conclusão de que nenhuma tentativa de defesa é completamente bem sucedida: sempre resta um excedente de afeto de angústia.

Estas psiconeuroses se diferenciariam conforme a atuação do recalque. Na histeria de angústia, o recalque levaria a um deslocamento do conteúdo ideacional (no caso do homem dos lobos, por exemplo, a exigência de amor feita aos pais foi substituída pelo medo do lobo).

Na histeria de conversão há uma condensação de toda catexia numa inervação somática que leva à formação de sintoma (quando é possível eliminar a quota de afeto, o que aparece é o que Freud chama de ‘la belle indifférence dês hystériques’).

Finalmente, na neurose obsessiva o impulso hostil relacionado ao objeto de amor é recalcado, de forma que a tendência sádica é substituída por uma afetiva. Diferentemente das outras neuroses, não há um afastamento da libido, mas uma intensificação de seu oposto através da formação reativa. No entanto, o recalque também falha: “A ambivalência que permitiu que a repressão ocorresse através da formação de reação, constitui também o ponto em que o reprimido consegue retornar” (p.161).

Bibliografia

Freud, S.(1915) Recalque. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


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