“Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise” (1912) - Resenha


Neste artigo, Freud reúne algumas recomendações aos analistas que, na época, eram exclusivamente médicos, no exercício da psicanálise. Considero este texto como referência, por ser atual e de grande relevância para os profissionais da área. As regras técnicas que Freud apresenta foram alcançadas por meio de sua própria experiência, após o trabalho de alguns anos. Sua prática foi sofrendo algumas alterações com base no resultados. Afirma que este artigo servirá para poupar os médicos de esforços desnecessários e faz uma ressalva de que essas recomendações são pautadas em sua individualidade.

 A primeira recomendação é que não sejam feitas anotações durante o atendimento de cada paciente, mesmo que seja necessário atender vários durante o dia. Não deve ser dedicada atenção especial para qualquer informação trazida pelo paciente. Deve-se manter “atenção uniformemente suspensa, em face de tudo que se escuta”(p.125).

Assim, o analista é poupado de um esforço muito grande de atenção, selecionando o material apresentado. Sugere que o analista não fixe sua atenção em determinado ponto, pois desta maneira “estará arriscando a nunca descobrir além do que já sabe” (p.126).

Tudo deve ser guardado na memória e a maioria das coisas serão compreendidas em um tempo posterior. Esta regra, de prestar atenção flutuante a tudo o que o paciente lhe comunica, seria a contrapartida à exigência feita ao paciente, que comunique tudo sem crítica ou seleção. A regra para o analista seria:“Ele deve conter todas as influências conscientes da sua capacidade de prestar atenção e abandonar-se inteiramente à memória inconsciente” (p.126). Ou: “Ele deve simplesmente escutar e não se preocupar se está se lembrando de alguma coisa”(p.126). Agindo assim, o analista estará preparado para as exigências do tratamento, pois as informações que se encontram desconexas, rapidamente, virão à lembrança quando algo novo for trazido pelo paciente.

Não se devem escrever notas durante as sessões, pois essas são fruto de uma seleção pessoal. A atividade mental do analista deve estar voltada a escuta e às interpretações deste material. Esses apontamentos devem ser feitos após o término do trabalho e se necessário, pedir para o paciente repetir algum dado ao longo das outras sessões.

Freud recomenda que trabalhos científicos só sejam realizados após a conclusão do tratamento. “Casos que são dedicados, desde o princípio, a propósitos científicos, e assim tratados, sofrem em seu resultado, enquanto os casos mais bem sucedidos são aqueles em que se avança, por assim dizer, sem qualquer intuito em vista, em que se permite ser tomado de surpresa por qualquer nova reviravolta neles” (p.128).

O ideal seria evitar especulações e meditações sobre os casos enquanto estão em análise, pois isso impediria a ampliação de hipóteses, conhecimentos. Outra recomendação é que os psicanalistas deixem de lado sua “ambição terapêutica de alcançar, (...) algo que produza efeito convincente em outras pessoas” (p.128). O analista deve manter certo “distanciamento emocional”, pois esta lhe dará melhores condições de trabalho podendo oferecer maior auxílio ao paciente.

O analista deve utilizar todo seu conhecimento para garantir que seu inconsciente esteja funcionando como um órgão receptor, na direção do inconsciente transmissor do paciente. Assim, sua auto-análise deve ser utilizada para impedir que suas próprias resistências interfiram no material trazido pelo paciente, sem ser crivado por sua crítica ou seleção consciente. Todos aqueles que queiram ser analistas devem se submeter à auto-análise, pois só assim terão acesso à impressões inacessíveis por meio dos livros e palestras. Mas apenas a auto-análise se mostrará insuficiente:

“Quem não se tiver dignado tomar precaução de ser analisado não só será punido por ser incapaz de aprender um pouco mais em relação a seus pacientes, mas correrá também perigo mais sério, que pode ser tornar perigo para os outros. Cairá facilmente na tentação de projetar algumas peculiaridades de sua personalidade (...); levará o método psicanalítico ao descrédito e desencaminhará os inexperientes”(p.131)

Sobre a troca de intimidades com o paciente, Freud recomenda que na psicanálise as coisas acontecem de modo diferente da psicologia da consciência e que experiências deste tipo não são favoráveis. Trocas de confidências não trazem progressos ao paciente, tornando este ainda mais resistente: “O médico deve ser opaco aos seus pacientes e, como um espelho, não mostrar-lhes nada, exceto o que lhe é mostrado” (p.131).

O analista também deve se controlar ao desejar manter com seu paciente uma atividade educativa. Deve ser tolerante e se contentar com o fato do paciente ter recuperado certa capacidade de trabalho e de divertimento moderado. Afirma: “A ambição educativa é de tão pouca utilidade quanto a ambição terapêutica”. (p.132) Freud aconselha cautela aos analistas em relação às recomendações destes para com seus pacientes.

É errado determinar tarefas como orientá-los a determinadas lembranças ou pensamentos em relação a fatos específicos de suas vidas. Esta pedagogia é desnecessária pois a solução de seus enigmas só se dará através da regra psicanalítica.

Bibliografia

Freud, S. (1912) - Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


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