Vários cientistas têm discutido esse tema e devido à construção de minha prática profissional ter sido, em grande parte, desenvolvida em hospital geral, tive a oportunidade de me dedicar ao atendimento de pessoas com diferentes enfermidades, que vinham à instituição a procura de atendimento médico, mas que por algum encaminhamento chegavam ao Setor de saúde mental. Em geral, nos encaminhamentos estava escrito: “sem causas orgânicas”. Então, seria impossível não discutir os desafios que encontrei no trabalho de psicanalista no hospital.
Deparei-me com vários questionamentos, sendo um deles a prevalência do discurso médico nas instituições. Parece existir na instituição a promessa de que a tecnologia, juntamente à ciência médica, possa trazer a esperada cura, assim como preveniria a manifestação de outras enfermidades. Nessa dialética entre causa e cura, o sujeito enfocado pela Medicina fica desvinculado de sua implicação na doença e no tratamento, sendo o médico o responsável. As doenças são o centro da preocupação das equipes de saúde. Esse aspecto ficava mais evidente onde trabalhava, pois, além da assistência médica, a instituição tinha como finalidade a produção de conhecimento, sobre assuntos, muitas vezes, desconhecidos.
Desse modo, eram realizados pesquisas e investigações de doenças e de tratamentos de casos raros, às vezes, os únicos de alguma doença da literatura diagnosticados no país. Havia pouco investimento à prática profissional, no aspecto ligado a relação médico-paciente.
Nossa sociedade tem privilegiado a “cultura da pressa”, as respostas precisam ser rápidas e assertivas. O tratamento funciona de acordo com o imperativo “não há tempo a perder”. Outro dia estava na sala de espera de um consultório médico quando descobri que os pacientes eram agendados de um e um minuto. Perguntei à secretária, a razão disso ocorrer, ela justificou que é para não perder tempo, pois se alguém falta, tem outro na seqüência, assim o médico não fica esperando. Rapidamente ocorreu-me a idéia de linha de produção e do corpo metaforizado como máquina e a mente submetida ao orgânico.
As bases da medicina se fundam nesse paradigma cartesiano em que a doença é compreendida como um fenômeno natural, cujas leis não poderiam ser diferentes, o olhar e o empírico tornaram-se os instrumentos principais de acesso ao funcionamento das doenças.
Indignada perante essa situação, aqui pergunto se há tanto avanço na medicina, por que ainda existe esse sistema que coloca as pessoas nessas condições? Será que a Medicina abandonou o que é fundamental: por trás de toda doença há um sujeito?!
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