A cria infantil humana, desde o momento do seu nascimento, vai passar por muitas peripécias para constituir-se, partindo do corpo materno, o espelho, até o momento da representação gráfica na folha de papel. Estes lugares são constituídos pelo biológico da criança, somados pelo mito familiar através da função materna, paterna, fraterna, etc. Vai então produzindo, ao se aninhar nestes lugares, sua própria corporeidade subjetiva.

É um percurso que a criança faz, jamais linearmente, nem numa única vez, nem sempre do mesmo jeito, por isso, somos diferentes. É um percurso sem fim, sempre que aparece uma nova aventura.

Assim, as primeiras palavras, os primeiros passos, um degrau de cada vez. E, num dia, os primeiros desenhos. Se constata uma diferença qualitativa importante em relação a antes. Espaço em branco que se povoará de marcas, traços, letras. Fatos simples do crescimento? Acontecimento vital. O que antes era uma caixa de lápis de cor como brinquedo, agora passa a ser fonte de representação. O que se joga então com a experiência de dar à luz seus primeiros balbucios do traço?

A criança começa com figurações ainda não figurativas, que correspondem às sensações mais arcaicas que desembocam na representação gráfica. Compõem-se por traços que em sua futura geometrização se transformarão em linhas e círculos, tendendo ao oval, mas sem diferenciação interna. Estas produções sem argumento são “corpo transposto” e servem para nos dar a idéia das primeiríssimas vivências do recém nascido. Então estes traçados tormentosos estão ainda longe de constituir-se numa imagem de corpo, reconhecida pela criança como tal, são especulações. Eles correspondem bem ao conceito Winnicottiano de movimentos selvagens, fragmentos em curso de diferenciação.

F. Dolto também valoriza estes rabiscos iniciais e os conceitualiza como as primeiras e mais precoces representações plásticas do sentimento de viver.

Aparecem os primeiros traços, insinuando figuras geométricas. Segundo Dolto, a primeira forma de representação de processos intelectuais em curso aparece nos grafismos como uma linha enroscada em si mesmo. Começa aí, a capacidade do eu da criança para reconhecer-se com seu autor. Mas, passado o momento da execução a criança ainda não se vê neles, não há reconhecimento especular. Começa a nomear-se como autor de seus desenhos, mas não pode sustentar o tempo todo a continuidade de uma significação.

Não se trata de déficit ou insuficiência, se trata de estabilizar em mil repetições uma continuidade e em seguida, a continuidade das primeiras formas. Passa da descontinuidade, depois se propaga em desenhos com formas mais definidas e discretas.

As garatujas e os rabiscos parecem tratar-se de bobagens sem sentido, de coisas que não vale a pena guardar. Mas aqui se expressa o ganho narcísico, mais fundamental que se pode receber, o sentimento de viver respira através dele. A folha de papel funcionará como a expressão de sua continuidade existencial.

Em relação às crianças afetadas com patologias graves: psicose precoce, há um desequilíbrio do encontro da mãe e da criança. A criança está enredada no corpo da mãe, não existe o Não-eu, o Outro, a imagem corporal.

F. Tustin considera que nestas crianças que no começo ela designa como “o próprio ser sentido”, este é vivenciado como enredo de fluídos e gases, fato que a autora fundamenta em que o meio aquoso é o originário da espécie. Tustin sustenta como hipótese que “cabe esperar que as sensações associadas a flutuar em um elemento líquido se prolonguem até converter-se em parte da imagem corporal inicial”.

Nas psicoses precoces, a permanência de rabiscos predomina na representação do líquido e gasoso, o que trás como conseqüência a não metaforização e a produções delirantes como vivenciar sensações: girar objetos, bater ininterruptamente, andar na ponta dos pés, etc.

Se tudo se desenvolve razoavelmente bem na história da constituição subjetiva da criança, estas sensações são sepultadas, formando a base pela continuidade existencial.

A espacialidade se inaugura na obra. Os desenhos aparecem constituídos em um espaço exterior. O corpo da criança passa a ocupar outro espaço, não mais o da mãe. Isto corresponde a um processo central da estruturação subjetiva que é inerente à separação primordial do Outro. Estabelece-se uma comunicação virtual com o mundo, o que permite contatos primordiais de forma conjunta com os canais do corpo. Disso desenvolve-se para o pensar como função que vai se diferenciar na passagem da escrita gráfica para a escrita fonética.

BIBLIOGRAFIA:
-Winnicott, D. W., Tudo começa em casa , Ed. Matins Fontes, 1999
-Rodulfo, M., El nino del dibujo , Ed. Piados, 1992
-Rocha, P. S., Autismos , Ed. Escuta Ltda.


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