O termo saúde mental é um termo que designa um conjunto de práticas assistenciais surgidas num determinado momento da história. Inúmeras denúncias abriam os olhos da população e dos governos que antes silenciavam diante dos maus tratos aos quais os pacientes psiquiátricos eram submetidos. Verdadeiros depósitos de humanos, os hospitais psiquiátricos privavam os doentes de qualquer acesso à vida social. Não havia sequer oportunidade para que os pacientes pudessem dar voz ao seu sofrimento e a sua condição existencial. O tratamento despendido aos pacientes se resumia a suprimir os sintomas mais evidentes, silenciando assim a tentativa de significar aquilo que os pacientes viviam e gerando assim um estado de cronificação e amortecimento da condição daqueles que estavam acometidos por um sofrimento psíquico.

A partir da metade da década de setenta surge o MTSM (Movimento dos trabalhadores de Saúde Mental). Esta entidade se dedicou a ocupar espaço na mídia quando levava ao publico a condição de descaso dos pacientes internados em grandes hospitais. Pouco tempo depois surge o primeiro congresso nacional dos trabalhadores de saúde mental onde as criticas ao modelo assistencial forma consolidadas e reveladas. A proposta era a de romper com o paradigma dos grandes manicômios.

Como solução para o modelo asilar manicomial surgiam as propostas de tratamento extra-hospitalar que visava reinserir os pacientes ao convívio familiar e social. Um projeto de lei realizado pelo deputado Paulo Delgado declarava a urgência do Estado em se posicionar ativamente diante dos abusos que o modelo anterior imputava aos pacientes. Em 1987 surge o primeiro CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), instituição central na instauração de novas políticas de saúde mental.

Este movimento trouxe inúmeras contribuições aos usuários de saúde mental e aos trabalhadores deste campo que identificados à população que atendiam também sofriam enormes prejuízo em seu cotidiano de trabalho.

Vale ressaltar que o movimento de reforma psiquiátrica encontrava respaldo nas inúmeras experiências realizadas na Europa. Enfim, se antes a loucura precisava ser silenciada, ela agora encontrava interlocutores que tentavam traduzir o seu enigma. Muito antes disso, Freud em 1924 já anunciava que o delírio era uma tentativa de cura e que por isso ele não deveria ser abolido. Era preciso escutar.

Se por um lado os avanços da reforma psiquiátrica trouxeram a possibilidade de oferecer um espaço mais adequado às manifestações psicopatológicas, por outro este ofício coloca inúmeras questões aos profissionais, questões estas que são cruciais na medida em que não há um saber único e exclusivo diante do enigma que é o humano e das complexas e particulares condições em que os humanos sofrem.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) considera que a saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social. Evidencia-se assim uma tensão entre o campo da política e o campo da clínica, tensão que se presentifica no cotidiano da assistência na saúde mental. O campo da política coloca um ideal a ser alcançado: saúde e bem estar total.

Em Junho deste ano escutei uma senhora que vivia em condições muito precárias. Ela se encontrava em angustia, pois havia sido convocada a depor já que seu filho adolescente não estava freqüentando a escola. Este rapaz era quem conseguia trazer algum sustento a esta família e pretendia voltar aos estudos assim que a situação familiar se regularizasse. Esta situação revela que há uma forçagem em fazer existir uma situação familiar ideal que não existe na nossa realidade - o que só faz mostrar que a necessidade de se levar em conta a particularidade de cada situação é tarefa constante de quem se encontra com um ser humano, que nunca é generalizável.


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