De acordo com a Psicanálise, a família é considerada como o grande representante da cultura, desempenhando papel fundamental na transmissão das leis, de conceitos de descendência e de parentesco, de herança e de sucessão, que combinadas compõem uma organização que governa os processos fundamentais da linhagem.
Em referência à estrutura, Lacan (1986, p. 13) escreveu, no texto “Duas notas sobre a criança”, que o sintoma da criança, se encontra na situação de responder por aquilo que há de "sintomático na estrutura familiar”. Desse modo, a estrutura familiar conserva o mais intenso valor, constitui o conjunto simbólico que se encontra como material disponível que possibilita a organização do sujeito.
O sujeito para lidar com conteúdos que não têm representação e que estão fora do campo da linguagem, utiliza os recursos simbólicos, para tentar nomear ou significar aquilo que não pára de mobilizá-lo.
Esta estrutura (a familiar) é formada por relações latentes entre os objetos e a singularidade deles, funcionando de acordo com a estrutura discursiva, que é construída pelo sujeito através da composição de fragmentos do mito familiar, que está repleto de elementos descontínuos, podendo cada parte originar infinitas narrativas. À medida que a criança vai extraindo ativamente elementos com os quais se reconhece, pode construir sua própria versão, ressignificando os elementos que estavam à sua disposição.
Deste modo, é considerável mencionar que as sementes da subjetividade vão sendo cultivadas antes mesmo da concepção. O bebê pertence a um projeto familiar, se deparando com a história de seus genitores enquanto homem, como mulher e de sua história como casal (conjugalidade e parentalidade). Assim, o bebê “ao nascer não cai no vazio” (ib.id., p. 26) .
A herança histórica possui propriedades de uma estrutura abstrata, que se concretiza por meio do investimento libidinal. A libido se concretiza na relação, refletindo no modo de interagir dos pais com a criança. Podemos dizer que a história, a herança simbólica, mesmo não sendo palpáveis, têm efeitos de materialidade (SCHILLER, 1991).
O bebê, neste encontro, reativa o material inconsciente que permite ao psicanalista rastrear, no discurso dos pais, o itinerário do conteúdo de gerações que incide sobre o sujeito sob a forma de repetição (ROSA, 1995).
Lacan (1985), portanto, atribuiu muita importância à posição dos pais em sua condição de desejantes, considerando-os responsáveis pelo investimento na criança enquanto um eu ideal, depositário das expectativas. O desejo parental, é parte fundamental no processo de constituição do sujeito, pois recai nas funções que desempenham (não necessariamente pela sua presença concreta). Lacan reforçava a idéia de que são as funções (materna e paterna) que, quando atuantes, proporcionam as diferentes operações em direção à constituição do sujeito.
Bibliografia
LACAN, J. – Duas Notas sobre a criança. In: Ornicar? Revista do Campo freudiano, n.37, abril-junho 1986, p.13-14.
LACAN, J. – Os Complexos Familiares. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
ROSA, M. D. – O não dito e a psicanálise com crianças. Tese de doutorado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, 1995.
SCHILLER, P. – O Médico o Doente e o Inconsciente. São Paulo: Revinter, 1991.
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