O uso de atividades como recurso potencialmente terapêutico é bastante difundido em serviços de atendimento a pacientes com quadros mentais graves.
Percorrendo a história da psiquiatria desde o tratamento moral de Pinel, passando pelos autores psicodinâmicos, pelos ateliês de terapia ocupacional de Nise da Silveira e as práticas mais contemporâneas verifica-se uma gama bastante diversificada da importância das atividades e seus benefícios. Desta forma, torna-se necessário tecer explicações, exemplos, conceitos acerca do tema, pois simplesmente dizer que este recurso é utilizado no tratamento não é suficientemente esclarecedor da prática que se realiza.
As atividades podem ser encaradas como ocupação do tempo ocioso do paciente ou ter uma dimensão mais complexa, como um recurso eminentemente transformador. GOLDBERG (1998:130) aponta que é preciso que as atividades sejam abordadas como campo transferencial, que envolve os terapeutas, os pacientes e as relações intra-grupais. A compreensão trazida aqui sobre o uso de atividades opõe-se radicalmente ao objetivo de tempos preenchidos, fazendo valer a colocação de SARACENO aos profissionais da saúde mental que é necessário romper com o entretenimento, o trabalho “não pode ser um pretexto para deixar pessoas entretidas, fazendo de conta que a vida está sendo vivida” (PITTA, 1999:10).
O terapeuta ocupacional entende a atividade como instrumento terapêutico e possui um “setting” específico, isto é, a escuta acontece intermediada pelos materiais os mais diversos possíveis, cria-se um ambiente acolhedor com pulsações advindas das tintas, linhas, argilas e tantos outros. Esse “setting” pode ser ampliado de acordo com os desdobramentos dos atendimentos, isto é, freqüentemente o terapeuta ocupacional sai da sua sala para percorrer outros territórios junto ao paciente, podem tomar um café numa padaria ou passear em um parque. Nesses exemplos, o foco está na construção de um fazer no fora bastante relevante se considerarmos que parte da clientela da Terapia Ocupacional possui seus cotidianos bastante desestruturados.
De acordo com QUARENTEI (1994:26) “a intimidade da Terapia Ocupacional com atividades como instrumento de trabalho construiu uma ampliação do repertório de atividades terapêuticas que inclui, hoje, a diversidade das ações humanas como: compartilhar, ouvir, grupalizar, conhecer, aprender... junto ao cozinhar, escrever, passear, pintar...” O fazer e o fazer junto - são pressupostos básicos da Terapia Ocupacional e para o terapeuta ocupacional – o fazer atividades junto aos pacientes é uma forma mais dinâmica e interativa de acompanhá-los.
O terapeuta ocupacional possui um campo de atuação bastante vasto comportando ações nas aéreas da saúde, educação e social. Na saúde mental, a Terapia Ocupacional pode e deve auxiliar na avaliação do paciente e na condução do tratamento. O diagnóstico situacional se diferencia da avaliação médica presente na “anmnese” e se dá por meio da dinâmica na realização das atividades pelo paciente.
Existem situações bastante ilustrativas como, por exemplo, o caso de um paciente que no momento de crise, ao ser solicitado a representar graficamente seu projeto de vida após a alta hospitalar, desenha um mapa e escreve “vou me dedicar as Américas com felicidade e amor”. Esse desenho falava da sua convicção: o seu papel de cuidar do mundo e protegê-lo de todos os males. Estes conteúdos numa conversa passavam despercebidos, já que o discurso deste paciente mostrava-se bastante coerente e articulado. Nesse sentido, a tarefa é oferecer um suporte para que esta construção delirante tenha um lugar para acontecer, visto que muitas vezes é rechaçada, banalizada e incompreendida.
Percebendo como cada um se coloca na experiência nos atendimentos de Terapia Ocupacional é possível esboçar projetos terapêuticos individualizados que serão construídos junto com o paciente buscando-se, sobretudo, a vitalização da existência. Segundo CASTRO (2000:26), “os projetos terapêuticos elaborados buscam construir e ressignificar relações, ampliar possibilidades de expressão, tecer nexos com a história pessoal, encontrar alternativas às necessidades materiais e simbólicas emergentes, reconstruir sentidos entre a crise e a história pessoal”.
*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

veja a localização