“Totem e Tabu” (1913) - Resenha

Neste trabalho, Freud faz uma contribuição à antropologia social e constrói uma reflexão a respeito do Complexo de Édipo na origem da civilização. Aborda o mito da horda primeva e da morte do pai totêmico que levarão às hipóteses acerca da origem das instituições sociais e culturais, além da religião e da moralidade.

Segundo o autor, este artigo consiste numa tentativa de explicar questões da psicologia social, relacionando o totemismo aos vestígios da infância. Também procura compreender a passagem do clã totêmico para a família.

Escolhe como ilustração, principalmente, as tribos primitivas dos aborígines da Austrália. Nestas tribos, regia o sistema do totemismo (não existiam instituições sociais e religiosas), que teria como característica comum a exogamia (proibição de relações sexuais entre os membros do mesmo clã) conseqüente da proibição do incesto e fundamental para a preservação de toda a comunidade – “esses selvagens têm um horror excepcionalmente intenso ao incesto, ou são sensíveis ao assunto num grau fora do comum, e que aliam isso a uma peculiaridade que permanece obscura para nós: a de substituir o parentesco consangüíneo real pelo parentesco totêmico” (p.25).

O autor ressalta que a necessidade de proibição do incesto está intimamente ligada ao desejo de cometê-lo. “Os tabus, devemos supor, são proibições de antiguidade primeva que foram, em certa época, externamente impostas a uma geração de homens primitivos; devem ter sido calcadas sobre eles, sem a menor dúvida, de forma violenta pela geração anterior. Essas proibições devem ter estado relacionadas com atividades para as quais havia forte inclinação” (p.48).

Freud retoma sua teoria a respeito do Complexo de Édipo na qual afirma que a primeira escolha amorosa da criança é incestuosa, “assim, as fixações incestuosas da libido continuam (ou novamente começam) a desempenhar o papel principal em sua vida mental inconsciente” (p.35).

O autor ressalta a ambivalência presente nos tabus: proíbem algo que é desejado (desejo inconsciente nos membros da tribo, como nos neuróticos). Por este motivo, sua violação precisa ser vingada – os outros ficariam tentados a agir da mesma forma que o transgressor. “As mais antigas e importantes proibições ligadas aos tabus são as duas leis básicas do totemismo: não matar o animal totêmico e evitar relações sexuais com os membros do clã totêmico do sexo oposto. Estes devem ser, então, os mais antigos e poderosos dos desejos humanos” (p.49).

Freud define tabu como um termo que possui dois sentidos contraditórios: por um lado ‘sagrado’e por outro, ‘proibido’, ‘perigoso’. Uma característica comum dos tabus seria o temor de ter contato com ele (significado demoníaco).

O autor salienta que as restrições do tabu se impõem por conta própria, têm origem e fundamentos desconhecidos, não dependendo, por exemplo, de motivos divinos, como as proibições religiosas ou morais. “Wundt (1906,308) descreve o tabu como o código de leis não escrito mais antigo do homem. É suposição geral que o tabu é mais antigo que os deuses e remonta um período anterior à existência de qualquer espécie de religião” (p.37).

Ao analisar os tabus dos povos primitivos, Freud constata que estes não divergem de alguns costumes de nossa sociedade. O autor estabelece, ao longo do trabalho, uma comparação entre a psicologia dos povos primitivos e a psicologia dos neuróticos, apontando diversos pontos de concordância, principalmente, com a neurose obsessiva.

Entre as semelhanças dos tabus com a neurose obsessiva cita: proibições destituídas de motivos, misteriosas em suas origens; principal proibição é contra o tocar (entrar em contato com); restrições sujeitas ao deslocamento (substitutos) e transferência (risco de infecção, qualquer um que viola o tabu se torna ele próprio tabu); o fato de criarem atos cerimoniais e o desejo de violar a proibição persiste no inconsciente - já que existe uma atitude ambivalente frente ao proibido (temido e desejado).

Seleciona o que considera os principais tabus: aqueles que se vinculam aos inimigos (restrições sobre o assassino, punição e atos de purificação, cerimônias), aos chefes (proteger um governante e ser protegido dele; atitude de um selvagem para com seu governante provém da atitude infantil de uma criança para com seu pai) e aos mortos (conseqüência do contato com os mortos e de seu tratamento – analogia da infecção / hostilidade inconsciente é reprimida e projetada, transformando o morto em demônio e a necessidade de cerimoniais para se proteger).

Em todos estes tabus nota a presença de uma ambivalência emocional (dominância de tendências opostas) e afirma que as proibições seriam conseqüências desta ambivalência. “... a probabilidade de que os impulsos psíquicos dos povos primitivos fossem caracterizados por uma quantidade maior de ambivalência que a que se pode encontrar no homem moderno civilizado. É de supor-se que como essa ambivalência diminuiu, o tabu (sintoma da ambivalência e uma acordo entre os dois impulsos conflitantes) lentamente desapareceu” (p.79).

Freud, sem se aprofundar, também cita o que chama de senso de culpa tabu que surgiria toda vez que o tabu fosse violado e o relaciona à angústia e ao caráter do neurótico obsessivo.

Embora compare, em muitos momentos de seu texto, o tabu com a neurose, o autor salienta uma distinção entre eles, afirmando que o primeiro seria uma instituição social (cultural), enquanto que as neuroses teriam uma estrutura associal (as pulsões sexuais predominam sobre as sociais).

Freud destaca três características principais dos tabus: animismo (objetos inanimados são animados por espíritos e demônios – formação da idéia de alma que depois iria influenciar na origem das religiões), magia (decorrente da necessidade de controlar o mundo, como os rituais para produção de chuva e fertilidade – leis da natureza substituídas por leis psicológicas – compara com os atos obsessivos que têm um caráter mágico) e onipotência dos pensamentos (crença nos desejos – semelhante ao bebê que satisfaz seus desejos de uma maneira alucinatória).

 O autor associa estas características com o narcisismo (pulsões sexuais que catexizam o ego como objeto) e compara as diferentes concepções do homem em relação ao universo com as fases do desenvolvimento libidinal: a animista corresponderia à narcisista, a religiosa à escolha de objeto e a científica com a maturidade (renuncia ao princípio de prazer e volta-se para o mundo externo).

No capítulo IV, Freud volta a descrever o totemismo como um sistema que seria a base da organização social de todas as culturas. O totemismo seria assim, um sistema social marcado por relações de respeito e proteção entre os integrantes do clã e o totem a partir de normas de costume.

O autor ressalta a exigência de se respeitar severamente os tabus que protegem o totem, sendo qualquer violação punida por doença grave ou morte. Freud distingue o laço totêmico do familiar, afirmando que o primeiro é mais forte e é herdado pela linhagem feminina (a descendência paterna nem sempre é considerada). “‘Totem’ é, por uma lado, um nome de grupo e, por outro, um nome indicativo de ancestralidade. Sob o último aspecto, possui também uma significação mitológica” (p.114).

Freud retoma a questão da exogamia e a conseqüente proibição do incesto presentes no totemismo e os relaciona à teoria de Darwin, que afirma que a exogamia dos jovens do sexo masculino era a condição reinante da horda primeva (o ciúme do macho mais velho impedia a promiscuidade sexual - este ficaria com todas as fêmeas, expulsando os filhos à medida que cresciam).

O autor também salienta a semelhança entre as relações das crianças e dos homens primitivos para com os animais. Para exemplificar tal semelhança, retoma seu caso clínico, Hans, onde demonstra que os sentimentos ambivalentes para com o pai são deslocados para um animal - o mesmo ocorreria com o totem, que ocuparia o lugar de um ancestral, do pai primevo.

Afirma que tanto as psiconeuroses como o totemismo seriam os produtos das condições em jogo no Complexo de Édipo (ao longo do texto afirma que o início da religião, da moral, da sociedade e da arte também convergem para o Complexo de Édipo). “A psicanálise revelou que o animal totêmico é, na realidade, um substituto do pai (...) a atitude emocional ambivalente, que até hoje caracteriza o complexo-pai em nossos filhos e com tanta freqüência persiste na vida adulta, parece estender-se ao animal totêmico em sua capacidade de substituto do pai” (p.145).

A partir do mito da horda primeva, Freud descreve uma situação mítica em que os filhos expulsos matariam e devorariam o pai tirânico colocando fim à horda patriarcal - o fato de devorarem o pai fazia com que se identificassem com ele (adquiriam parte de sua força).

O autor destaca a presença de sentimentos ambivalentes dos irmãos perante o pai: ao mesmo tempo em que o odiavam (por representar um obstáculo aos seus desejos sexuais), o amavam e o admiravam. Esta ambivalência levaria a um sentimento de culpa: “o pai morto tornou-se mais forte do que o fora vivo... o que até então fora interdito por sua existência real foi doravante proibido pelos próprios filhos” (p.146).

Freud dá grande ênfase à proibição do incesto, afirmando que ela precisou ser instituída para preservar a vida em grupo, uma vez que os desejos sexuais dividiriam os homens, impedindo sua união (todos os irmãos desejavam todas as mulheres para si, desejavam assumir o lugar do pai).

Assim, a proibição do incesto obrigava os irmãos a renunciarem às mulheres que desejavam e que tinha sido o motivo principal para se livrarem do pai, a horda patriarcal era substituída pela horda fraterna (“Não matarás!”).

Baseado no mito, afirma que a religião totêmica teria surgido a partir deste sentimento filial de culpa, “num esforço para mitigar esse sentimento e apaziguar o pai por uma obediência a ele que fora adiada” (p.148) e teria como finalidade impedir a repetição do ato que causara a destruição do pai real.

O autor constata que a ambivalência também persiste nas religiões: remorso e expressões de triunfo sobre o pai (festival rememorativo da refeição totêmica: o sacrifício do animal totêmico repetia o parricídio sempre que os atributos paternos ameaçavam desaparecer – compara com a comunhão dos cristãos).

A morte do pai da horda fez surgir um “ideal que corporificava o poder ilimitado do pai primevo contra quem haviam lutado, assim como a disposição de submeter-se a ele” (p.151). Este ideal seria encontrado nas religiões, em que a idéia de Deus representaria a de um pai glorificado e também afetaria as organizações sociais, de forma que a sociedade voltaria a se organizar numa base patriarcal (famílias).

 

Bibliografia:

Freud, S.(1913) Totem e Tabu. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


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