O conceito de transferência é fundamental, é a partir dele que se dá o tratamento analítico. Lacan afirma que, conforme a estrutura do paciente, o analista assume uma determinada posição.

Para Freud, a transferência seria a repetição de protótipos infantis, onde haveria um deslocamento de afeto de uma representação para outra. Neste sentido, a relação do sujeito com as figuras parentais seria revivida na relação com o analista, marcada pelas ambivalências pulsionais, ódio e amor.

A partir daí, o autor distingue duas modalidades de transferência: a positiva, que seria a transferência de sentimentos ternos e a negativa, marcada por sentimentos hostis.

Podemos dizer então, que a transferência é uma substituição do que não pode ser dito, onde no lugar de recordar se opõe a repetição.

Lacan afirma que a transferência é um fenômeno que atualiza a realidade inconsciente, modificando as relações do sujeito com seu inconsciente. O autor situa a transferência como uma experiência dialética do desejo: “um discurso onde o assujeitamento do sujeito ao significante de sua demanda se transfere em subjetivação disto que causa seu desejo”. (Dicionário de Psicanálise: Freud & Lacan. Salvador, BA: Ágalma, 1997. vol.1, p.277).

No seminário XI, Lacan relata que o inconsciente não pode ser separado da presença do analista, já que a presença do analista é para ele a própria manifestação do inconsciente: “o analista, na medida em que opera com a cura psicanalítica, não é exterior ao inconsciente do paciente (...) Na observação psicanalítica não há essa exterioridade que conserva a observação psiquiátrica”. (Miller, Jacques – Percurso de Lacan - p. 60)

Lacan ressalta que na transferência, a relação não é de reciprocidade e sim de disparidade entre os sujeitos em presença. Ele afirma que o sujeito neurótico coloca-se na posição daquele que não sabe e situa o analista no lugar de quem tem um saber, ou seja, o coloca no lugar de Sujeito Suposto Saber, lugar de alguém que vem tamponar sua falta.

O autor ressalta que o lugar de Sujeito Suposto Saber não é a pessoa do analista, mas um efeito do discurso, um lugar inconsciente a que o analista é chamado a ocupar.

Este lugar só ocorre na medida em que o analista não responde à demanda que lhe é endereçada, fazendo uma ruptura no eixo imaginário, reestruturando assim a economia do desejo ao mostrar para o sujeito que seu desejo é o desejo do Outro: “Se o analista está na posição de ser aquele que para o outro contém a ágalma, ele sabe que deve oferecer um lugar vazio, que permite ao analisante articular seu desejo e não pretende oferecer o que falta ao outro” (Dicionário de Psicanálise: Freud & Lacan. Salvador, BA: Ágalma, 1997. vol.1, p.290).

Segundo Quinet (2000), o analista fazendo semblant desse lugar de Sujeito Suposto Saber permite que o analisante, a partir da associação livre, possa presentificar seu inconsciente decifrando-o. (A descoberta do inconsciente. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 2000).

Na psicose não há a instituição do Sujeito Suposto Saber. O analista é colocado como testemunha da verdade do sujeito, não havendo uma demanda endereçada ao Outro.

Na obra de Freud, ele nos mostra que há um paradoxo com relação à transferência: ao mesmo tempo em que é um instrumento fundamental ao tratamento, se não for escutada pode transformar-se em resistência, interrompendo assim a comunicação do inconsciente, de forma que este torna a se fechar.

“Estruturalmente, a transferência é esse ponto em que o inconsciente como efeito do discurso organiza o sujeito, que se constitui numa vacilação entre uma alienação no Outro, aos significantes desse Outro, e uma separação que não pode se dar senão repetindo as demandas e levando em conta o desejo. É assim que nesse ponto se faz um movimento de abertura e de fechamento, um movimento de dinâmica e de resistência, cuja energia é sustentada pelo desejo”. (Dicionário de Psicanálise: Freud & Lacan. Salvador, BA: Ágalma, 1997. vol.1, p.293).

Podemos dizer então, que há uma contradição da função da transferência: é fundamental para o impacto interpretativo e ao mesmo tempo, o momento de fechamento do inconsciente, um obstáculo à rememoração do material recalcado. É por este motivo que Lacan afirma que devemos tratá-la como um nó.


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