“Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) - resenha


Trabalho que traz grandes contribuições da teoria psicanalítica como a ampliação do conceito de sexualidade (não se restringe ao genital) e a descoberta de sua importância em todas as atividades humanas.

O interesse de Freud a respeito das questões da sexualidade se originou a partir da observação clínica da importância dos fatores sexuais na etiologia das neuroses.

De um estudo sobre os desvios em relação ao objeto e ao alvo sexual, o autor inicia um estudo minucioso.

Principia com um trabalho sobre o estudo da homossexualidade (inversão sexual), classificando-a em três tipos: invertidos absolutos (objeto sexual só pode ser do mesmo sexo), anfígenos (objeto sexual pode pertencer a ambos os sexos) e ocasionais (em função de condições externas). Afirma que a inversão pode ser aceita pela pessoa ou sentida como patológica e que pode aparecer em diferentes momentos da vida.

Freud refuta a concepção da inversão como uma degeneração e como um caráter absolutamente inato. Além disso, assevera a importância de algo do indivíduo na tendência à inversão, uma vez que as influências externas não são suficientes para explicá-la.

A partir de conhecimentos anatômicos acerca do hermafroditismo (predisposição somática originalmente bissexual em todos os indivíduos), Freud afirma que a inversão e o hermafroditismo são independentes. “A substituição do problema psicológico pelo anatômico é tão inútil quanto injustificada” (p.135).

Em uma longa nota de rodapé, encontra-se uma série de especulações a respeito da escolha sexual. Nos invertidos haveria uma fixação na mãe e identificação com esta de forma que tenham tomado a si mesmo como objeto sexual (narcisismo). Afirma também que a conduta sexual se define após a puberdade em função de aspectos constitucionais e acidentais (como a falta de um pai forte na infância) e que existiriam diferentes escolhas homo-eróticas: com relação ao objeto e com relação ao sujeito (teorias de Ferenczi).

Freud supõe uma bissexualidade universal nos seres humanos e uma independência da escolha objetal em relação ao sexo do objeto (a pulsão não traz consigo o objeto). “Assim, somos instruídos a afrouxar o vínculo que existe em nossos pensamentos entre a pulsão e o objeto. É provável que, de início, a pulsão sexual seja independente de seu objeto, e tampouco deve ela sua origem aos encantos destes” (p.140).

Freud utiliza a pedofilia para exemplificar a grande variação de objetos sexuais e afirmar que a importância está na pulsão sexual e não no valor do objeto. “Os diferentes trajetos por onde passa a libido relacionam-se mutuamente, desde o início, como vasos comunicantes” (p.143).

O autor também salienta que as perversões fazem parte da vida sexual normal e as classifica em transgressões anatômicas (regiões do corpo destinadas a união sexual que não pertencem ao aparelho sexual como lábios, boca, ânus - supervalorização do objeto sexual), fetichismo e fixações de alvos sexuais transitórios.

Freud denomina de fetichismo quando “o objeto sexual normal é substituído por outro que guarda certa relação com ele, mas que é totalmente impróprio para servir ao alvo sexual normal” (p.145). O fetichismo só é patológico quando se torna o único objeto sexual. Também afirma que o fetichismo teria origem na infância, sendo que o fetiche poderia funcionar como uma “lembrança encobridora” de algo esquecido e também estaria relacionado às teorias sexuais infantis (o pé, por exemplo, substituiria o pênis na mulher).

Descreve a pulsão escopofílica, prazer de ver, como pertencente às pessoas normais, mas que pode tornar-se patológica quando se restringe exclusivamente à genitália e nos casos de voyeurismo e exibicionismo (olhar e ser olhado – alvo sexual apresenta-se na forma passiva e ativa).

Em seguida, descreve o sadismo, ressaltando que está presente em pessoas normais, uma vez que a sexualidade exibiria uma mescla de agressão. Novamente, diz que o que constitui sintomas patológicos é a exclusividade da satisfação da pulsão sexual a este elemento agressivo, “ou seja, quando há características de exclusividade e fixação, então nos vemos autorizados, na maioria das vezes, a julgá-la como um sintoma patológico” (p.153).

Com relação ao masoquismo, questiona se este seria primário ou se surge de uma transformação do sadismo, em que o sadismo se volta para a própria pessoa que passa a ocupar o lugar de objeto sexual (numa nota de rodapé de 1924 passa a reconhecer o masoquismo primário – o feminino e o moral).

“O sadismo e o masoquismo ocupam entre as perversões um lugar especial, já que o contraste entre a atividade e passividade que jaz em sua base pertence às características universais da vida sexual” (p.150).

Freud constata que a pulsão parcial, na maioria das vezes, aparece como pares opostos da pulsão (masoquismo-sadismo, feminino-masculino, passivo-ativo, amor-ódio, exibicionismo-voyeurismo) e salienta que isto tem grande importância teórica (ambivalência). No entanto, diz que nos quadros patológicos há um predomínio de uma das tendências. “As diferenças que separam o normal do anormal só podem residir na intensidade relativa de cada componente da pulsão sexual e no uso que lhes é dado no decorrer do desenvolvimento” (p.194).

Do estudo das perversões, chega à conclusão de que as pulsões sofrem a força das resistências (entre elas destacam-se a vergonha, a moralidade, o asco e as construções sociais da autoridade) que as circunscrevem dentro dos limites normais.

A partir da clínica das psiconeuroses, afirma que a pulsão sexual é a energia predominante nestes quadros, sendo os sintomas a transformação das atividades pulsionais, expressão da atividade sexual, substitutos de processos pulsionais que são recalcados e por isso não são descarregados conscientemente (como na histeria em que a descarga acontece por meio da conversão).

Falando da histeria, novamente se refere à ambivalência: “... a enigmática contradição da histeria, registrando a presença desse par de opostos: uma necessidade sexual desmedida e uma excessiva renúncia ao sexual” (p.156).

Freud define o termo pulsão e utiliza pela primeira vez a expressão “zona erógena” (“órgão cuja excitação confere um caráter sexual” – p.159).

Pulsão é o representante psíquico de uma fonte de estímulos internos, estando entre o anímico e o físico. “O que distingue as pulsões entre si e as dota de propriedades específicas é sua relação com suas fontes somáticas e seus alvos. A fonte da pulsão é um processo excitatório num órgão, e seu alvo imediato consiste na supressão desse estímulo orgânico” (p.159).

O autor salienta que os sintomas das neuroses surgem não apenas das pulsões sexuais normais, mas também das perversas. “Portanto, os sintomas se formam, em parte, às expensas da sexualidade anormal; a neurose é, por assim dizer, o negativo da perversão” (p.157). As pulsões perversas presentes nos psiconeuróticos seriam decorrentes do fato destes pacientes preservarem o estado infantil de sua sexualidade.

A partir daí, Freud passa ao estudo da sexualidade infantil.

Inicialmente, aborda a questão da amnésia, questionando o porquê da maioria das pessoas não conseguirem recordar acontecimentos da primeira infância. Diz que esta amnésia é fruto do recalcamento e por isso a relaciona às psiconeuroses.

O autor toma o chuchar como modelo das manifestações da sexualidade na infância. A finalidade deste comportamento não está na satisfação das necessidades (nutrição), já que a criança suga várias coisas que não estão relacionadas à alimentação (objetos, órgãos de seu próprio corpo ou de outrem) e após isso tem uma reação de “relaxamento” (espécie de orgasmo).

Freud afirma que nesta manifestação sexual a pulsão é auto-erótica, pois, a princípio, é desprovida de objeto e voltada para o próprio corpo: “Está claro, além disso, que o ato da criança que chucha é determinado pela busca de um prazer já vivenciado e agora relembrado” (p.171). Assim, diz que o ato de chuchar é precedido das primeiras mamadas, em que os lábios se tornaram zonas erógenas. “A atividade sexual apóia-se primeiramente numa das funções que servem à preservação da vida, e só depois torna-se independente delas” (p.171).

A partir daí define três características principais da sexualidade infantil: origina-se a partir de uma função somática (a satisfação foi vivenciada antes para que se tenha a necessidade de repeti-la em função de um aumento da tensão), são auto-eróticas e o alvo sexual se acha sob o domínio de uma zona erógena (que são estimuladas perifericamente).

Por zona erógena entende uma parte da pele ou mucosa em que uma estimulação provoca uma sensação prazerosa de qualidade particular. Enfatiza que qualquer parte do corpo pode se tornar uma zona erógena. Entre as condições importantes para o prazer destaca o caráter rítmico.

Freud relaciona o papel das zonas erógenas na neurose, afirmando que, nessa estrutura, o recalque atua principalmente nas zonas genitais, fazendo com que a catexia se desloque para as zonas erógenas.

A zona anal também é descrita como uma zona erógena de grande importância, que conserva, em muitas pessoas, durante a vida toda uma grande parcela de excitabilidade genital. Freud enfatiza que os distúrbios intestinais na infância reforçam esta zona com muitas excitações e aponta para o prazer que vem acompanhado da defecação assim como o sentido das fezes para a criança pequena: representa o próprio corpo, um presente (mais tarde nas teorias sexuais infantis passa a ter o sentido de um “bebê”). Para ilustrar a importância desta zona erógena cita a retenção das fezes tão comum na infância e os rituais escatológicos de alguns adultos. Também diz que o controle esfincteriano (proibição de extrair prazer da atividade anal) pode representar o primeiro recalcamento das possibilidades de prazer.

Com relação à zona genital, associa os órgãos sexuais à micção (aparelho urinário funcionaria como “tutor” do aparelho sexual ainda não desenvolvido) e aos cuidados com o corpo infantil feitos pelo adulto (fonte de grande excitação e satisfação), apontando o quanto são estimulados desde o início, o que justificaria a futura primazia dessa zona erógena na atividade sexual. A masturbação (onanismo) aparece como a possibilidade de realização desta atividade sexual infantil e está ligada ao recalcamento, à amnésia com relação à infância (sentimento de culpa decorrente desta atividade). É interessante que Freud interpreta os sintomas do aparelho urinário (enurese noturna, por exemplo) como um sintoma que pode se referir a uma perturbação sexual.

Freud afirma que a criança é perversa polimorfa, já que a vergonha, o asco e a moral ainda não se instalaram. Além das zonas erógenas, existem elementos que envolvem não só o corpo da criança, mas também, outras pessoas como objetos sexuais. Assim, as pulsões de olhar, de exibir, de crueldade aparecem já na infância e mais tarde se associam à vida genital.

O autor também cita a pulsão escopofílica (saber), em que a criança desenvolve uma atividade investigatória a partir de questões práticas de sua vida (como, por exemplo a questão a respeito da origem dos bebês quando se depara com o nascimento de outra criança). A partir de situações práticas a criança passa a elaborar uma série de teorias sexuais.

A primeira teoria é a suposição de que não há uma diferença entre os sexos, já que homem e mulher teriam uma genitália idêntica.

Uma outra teoria se refere ao nascimento, na qual as crianças fantasiam uma série de possibilidades por onde os bebês nasceriam: seio, ventre, umbigo, ânus.

A terceira teoria se refere à concepção sádica da relação sexual, em que o ato sexual é imaginado como uma relação de subjugação.

Na infância as pulsões parciais são desvinculadas e independentes entre si em sua busca pelo prazer e não estão subordinadas ao primado da genitália. No entanto, estas pulsões passam por etapas que culminam na sexualidade adulta, na qual as pulsões se unem numa organização sólida a serviço da função reprodutora e com a finalidade de atingir um objeto sexual.

Inicialmente, portanto, há a organização pré-genital, em que não existe uma primazia das zonas genitais.

A primeira dessas organizações é a oral (ou canibalesca), caracterizada por uma indistinção da atividade sexual com a nutrição e na qual o alvo sexual é a incorporação do objeto. “Não é sem boas razões que, para a criança, a amamentação no seio materno torna-se modelar para todos os relacionamentos amorosos. O encontro do objeto é, na verdade, um reencontro” (p.210).

A segunda fase pré-genital é a sádico-anal, marcada pelo par de opostos ativo-passivo e pela mucosa do intestino como órgão do alvo sexual. “Nesta fase, portanto, já é possível demonstrar a polaridade sexual e o objeto alheio, faltando ainda a organização e a subordinação à função reprodutora” (p.187).

A terceira fase corresponderia à fase fálica, marcada pela primazia dos genitais.

Freud menciona algumas fontes de excitação que provocam um prazer erógeno: excitações mecânicas (agitação ritmada do corpo, movimento), atividade muscular (como lutas corporais), processos afetivos intensos (situações assustadoras, situações de dor, alastram-se para a sexualidade) e trabalho intelectual. “O elemento decisivo nessas fontes de excitação é, sem dúvida, a qualidade do estímulo, embora o fator da intensidade (no caso da dor) não seja de todo indiferente” (p.193).

Com relação à escolha de objeto, Freud formaliza que esta acontece em dois momentos (bitemporal). O primeiro é marcado por alvos sexuais de natureza infantil e acontece por volta dos 2 e 5 anos de idade. O segundo momento ocorre com a puberdade e permanece na vida adulta. Entre os dois momentos está o período de latência, caracterizado pelo recalcamento (as pulsões sexuais são desviadas para outros fins por meio da sublimação) e responsável por uma cultura superior.

Na puberdade as pulsões parciais se organizam, as zonas erógenas passam a se subordinar à primazia genital e a pulsão sexual (libido) que era, principalmente, auto-erótica (libido do ego ou narcísica), buscam o objeto sexual a serviço da função reprodutora (libido do objeto).

Freud salienta que tais transformações acontecem concomitantemente às mudanças físicas da puberdade (em especial as alterações dos genitais), que proporcionam a obtenção do prazer de satisfação da atividade sexual - antes existia apenas o pré-prazer advindo da excitação das zonas erógenas (nas perversões haveria uma fixação no pré-prazer).

Vale a pena destacar que com relação à economia libidinal Freud afirma: “A libido narcísica ou do ego parece-nos ser o grande reservatório de onde partem as catexias de objeto e no qual elas voltam a serem recolhidas, e a catexia libidinosa narcísica do ego se nos afigura como o estado originário realizado na primeira infância, que é apensas encoberto pelas emissões posteriores da libido, mas no fundo se conserva por trás dela” (p.206).

Todas as mudanças da puberdade culminam numa diferenciação sexual cada vez maior, já que os dois sexos terão funções distintas - Cabe aqui pontuar que Freud faz um questionamento a respeito do que seria masculino e feminino, dizendo da complexidade destes conceitos (noção de bissexualidade) e acaba privilegiando a noção de passividade e atividade. A partir daí, afirma que a libido é masculina, já que a pulsão é sempre ativa.

Apesar da dificuldade em distinguir masculino de feminino, deixa claro que existe uma diferença entre a puberdade da menina e do menino. As zonas erógenas seriam homólogas (clitóris e glande), mas o recalcamento afeta mais a sexualidade da menina (eliminaria a sexualidade masculina - clitoridiana) reforçando as inibições sexuais. O homem permanece com a mesma zona erógena de sua infância, enquanto que a mulher transfere a excitabilidade clitoridiana para a vagina, realizando uma troca da zona genital dominante. Estas mudanças deixariam as mulheres mais propensas à neurose histérica: “Esses determinantes estão intimamente relacionados com a natureza da feminilidade” (p.209).

Um outro aspecto que Freud levanta é que na puberdade ocorre um afrouxamento dos laços com a família (inclusive um desligamento da autoridade dos pais), já que a proibição do incesto impele o jovem a procurar objetos sexuais que não sejam seus parentes (cabe ressaltar que as influências infantis, as fixações incestuosas da libido sempre influenciam nas escolhas amorosas, pois são precursoras da organização genital). Inicialmente, estes objetos são da ordem da fantasia, como a fantasia de escutar a relação sexual dos pais, da sedução, da ameaça de castração, protofantasias, romance familiar.

Quando essas transformações da pulsão, ocasionadas pelo advento da puberdade, não ocorrem, surgem as patologias (inibições no desenvolvimento). “Quanto mais perto se chega das perturbações mais profundas do desenvolvimento psicossexual, mais se destaca, de maneira inequívoca, a importância da escolha objetal incestuosa” (p.215).

Freud salienta a fixação como um fator que pode atrapalhar o desenvolvimento sexual normal. “Cada passo nesse longo percurso de desenvolvimento pode transformar-se um ponto de fixação, cada ponto de articulação nessa complexa montagem pode ensejar a dissociação da pulsão sexual” (p.222). Acrescenta a isso a importância de fatores acidentais, que podem levar a uma regressão a fases anteriores do desenvolvimento.

Finaliza seu trabalho dizendo que os conhecimentos acerca da sexualidade (em seus aspectos psicológicos e biológicos) ainda são insuficientes para uma compreensão total do que é normal e patológico.

Bibliografia

Freud, S.(1905) Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


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