Perguntas

"Agressividade: o que fazer?"


Foto: Danielle Sandrini

A agressividade é, freqüentemente, interpretada como algo moralmente errado e que por isso, deve ser eliminada, escondida.

Entretanto, é um sentimento que faz parte do humano, estando presente em todas as pessoas (já no bebê podemos notar comportamentos agressivos como, por exemplo, quando puxam os cabelos da mãe ou mordem seu seio). Assim, a agressividade aparece em diversos relacionamentos, nos que envolvem sentimentos de amor, de rivalidade, de admiração e mesmo entre pessoas que não se conhecem.

A agressividade é fundamental para o crescimento e conquista do espaço pessoal, sinal de que não se está sendo passivo frente às imposições do social e dos outros.

É importante ressaltar que a agressividade não é sinônimo de falta de amor. Dessa forma, casais que se amam podem ter momentos de agressividade, sentir raiva, ódio e vontade de ficar longe por alguns instantes sem que isso signifique que não se gostam.

Expressões de agressividade nos relacionamentos entre pais e filhos também são bastante comuns e naturais. Quem nunca presenciou momentos em que crianças e adolescentes que, quando não são satisfeitos em suas vontades, xingam seus pais, dizem que os odeiam, que não pediram para nascer? Ou uma criança que esperneia no meio do shopping porque o pai se negou a comprar um brinquedo?

O problema não está na agressividade e sim na forma como lidamos com ela.

Num extremo, temos a banalização da agressividade, que é tratada como algo sem importância. Assim, existem pais que nada fazem quando seus filhos lhe batem ou xingam, afirmando que são crianças, que não machucam. Podemos questionar tais atitudes: como uma criança aprenderá a respeitar o outro se não é questionada em suas atitudes em casa?

Num outro extremo temos mães, por exemplo, que se sentem imensamente abaladas com uma fala agressiva do filho, levando ao pé da letra o que é dito e interpretando como falta de amor. Assim, uma fala como “vou te matar”, é escutada em sua concretude e a mãe passa a temer por sua vida e a criança, por sua vez, acaba sentindo-se muito poderosa e também apavorada com seu “poder de destruição”.

O importante é aceitarmos a agressividade como algo que faz parte do humano, mas sem que isso signifique tolerar qualquer comportamento sem colocar limites. Existem tipos de agressividade que não podemos aceitar, como é o caso de agressões físicas entre casais.

Quando a agressividade é bastante intensa e/ou muito freqüente devemos nos preocupar. Assim sendo, é natural que uma criança proteste quando lhe é recusado algo, mas se ela o faz sempre e nunca consegue aceitar um não, é sinal de que algo não vai bem e que precisa de ajuda. Da mesma maneira, um adolescente que habitualmente envolve-se em brigas também está precisando ser escutado por um profissional.

No entanto, não é só do lado do “agressor” que devemos nos inquietar. Quem é “agredido” freqüentemente, quem não consegue colocar limites ao outro, também precisa de ajuda de um psicanalista para escutar o porquê de sempre ficar nessa posição. É o caso, por exemplo, de alguém que sempre ocupa o lugar de chacota perante os colegas ou nunca consegue dizer não.

Finalmente, cabe pontuar uma outra forma de expressão da agressividade, a auto-agressividade. Encontramos na clínica crianças que, com freqüência, se mordem, que batem suas cabeças na parede, que se arranham. Estes tipos de comportamento são sintomas que podem indicar que algo mais sério pode estar acontecendo, sendo preciso a avaliação de um profissional.


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"Mania de perseguição"


Na clínica psicanalítica é freqüente escutar pessoas que se queixam do fato de sentirem-se perseguidas, referindo uma sensação constante de serem ironizadas, observadas e criticadas.

A intensidade com que esta “mania de perseguição” acontece varia de pessoa para pessoa, mas sempre causa muita angústia e mal estar. Quando muito intensa, costuma afetar grande parte da vida social, já que o sujeito passa a evitar qualquer tipo de relacionamento. A dificuldade em manter e estabelecer novas amizades também fica extremamente abalada.

Tais pessoas costumam interpretar erroneamente o comportamento do outro como sinal de agressão, não conseguindo levar em conta outras variáveis que podem estar interferindo no jeito de ser do outro (como problemas pessoais, por exemplo). Desta forma, risadas de alguém são lidas como ironias, o fato de um indivíduo não ser simpático é analisado como prova de não gostar da pessoa, um simples olhar é traduzido como recriminação...

Escutando estes sujeitos, constatamos que, muitas vezes, são extremamente autocríticos, intolerantes às suas próprias falhas, exigindo sempre uma “perfeição” pessoal. Quando se relacionam com alguém, o que acontece é que este outro funciona como um espelho: vêem no outro a severidade que está em seu interior, são vítimas de sua própria crítica.

O que fazer então? Obviamente, o problema não está no social, mas em questões psíquicas (em grande maioria inconscientes) que levam a pessoa a ser tão exigente consigo mesma. Uma análise pode oferecer uma saída para esta questão na medida que permite à pessoa descobrir “a raiz” de seus problemas, ou seja, as causas inconscientes que a levam a sentir-se perseguida, interpretando tudo de forma auto-referente.

Cabe ressaltar que não estamos falando das manias de perseguição patológicas, que podem indicar a presença de severos distúrbios psíquicos, já que vem acompanhadas de alucinações e delírios, como é o caso da psicose.


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"As crianças e o dinheiro"

Um desafio da atualidade é os pais conseguirem educar seus filhos a como lidar com o dinheiro. Como atender as necessidades e os pedidos constantes de presentes? Como ensinar o valor do dinheiro? Como ensinar a poupar e economizar? Quando começar?

Essas questões sempre fizeram parte das preocupações dos pais, mas agora com uma maior ênfase do que antes, devido o constante lançamento de produtos e apelos para o consumo, a rapidez nas comunicações e inovações tecnológicas que tornam produtos novos totalmente obsoletos em poucos anos, fazendo com que a satisfação tenha que ser imediata e tornando mais árduo esperar, poupar, adiar.

É importante que a criança aprenda desde cedo a dar valor ao dinheiro, a saber esperar e lutar para conseguir algo que se quer, compreender que as coisas não vem gratuitamente, dependem de esforço para se conseguir. Responsabilidade, autonomia e independência são valores passados pelos pais ao trabalharem essas questões, muito importantes para o futuro das crianças.

Para isso, os pais devem estabelecer que presentes (que não sejam necessidades básicas das crianças), ela só vai ganhar em datas especiais que podem ser, por exemplo, o dia das crianças, natal, aniversário ou outros eventos comemorados pela família. Tornar esse momento especial contribui para que ela valorize o que está sendo oferecido.

Aprender a esperar faz parte do crescimento, para que ela não desista facilmente das coisas ou desanime diante de obstáculos. Algumas crianças costumam estragar ou quebrar com freqüência o material escolar, precisando que os pais comprem o material mais de uma vez ao ano. Nesses casos, também é importante, se isso for constante, que a criança espere mais tempo para ganhar outro, para entender também a importância do cuidar e preservar as próprias coisas.

Até aproximadamente cinco anos, a criança ainda não entende o valor do dinheiro, começa a se interessar e atribui o valor ao tamanho e ao número, por exemplo, prefere a moeda maior à menor e várias notas do que uma nota de valor maior. Nessa fase, pode ser interessante ter um cofrinho onde ela ponha moedas e depois de certo tempo abrir e comprar alguma coisa que ela queira.

A partir dessa idade, as crianças começam a compreender melhor quanto vale algumas moedas e notas e saber identificar quanto dinheiro é necessário para comprar balas ou chocolates.

Depois que ela inicia o ensino formal, o primeiro ano da escola, os pais podem introduzir uma semanada, que deve ser sempre o mesmo valor e dado no mesmo dia da semana, sem adiantamentos. Esse dinheiro pode ser usado para gastos extras, fora da rotina da criança. Isso ajuda a criança se organizar com o dinheiro e a poupar para comprar algo mais caro. Após os onze anos, esse dinheiro pode ser dado mensalmente, pois ela já conseguirá organizar seus gastos por um mês.

Essas lições não se aplicam apenas a vida financeira de seu filho, mas também o auxiliam a se organizar como pessoa, a lidar com frustrações e expectativas, influenciando outras áreas da vida.


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"Histórias que se repetem"

As histórias familiares costumam circular por todos os membros através das gerações, geralmente são contadas de pai para filho, algumas se perdem e outras permanecem mesmo com o passar dos tempos e quando seus personagens principais há muito já se foram. São as proezas de algum tio, os segredos da avó, os amores proibidos, as desilusões, as aventuras, os fracassos, os sucessos, o temperamento de alguém ou as suas manias, as frases e os ditados muitas vezes repetidos.

Todas são importantes porque nos situam em um lugar na família e na história, proporcionam um sentimento de pertencer, fazer parte de algo maior, e por essa herança somos reconhecidos (por exemplo, através do sobrenome, que remete a uma situação de imigração, de guerra, de participação na história, na literatura ou na área de ciências). De qualquer forma, elas nos ajudam a formar nossa identidade. Existem histórias em que nos identificamos e nos orgulhamos, tomamos como exemplo e histórias que não, como se ensinassem e tentamos fazer diferente.

Algumas vezes essas histórias marcam demais, rotulando e quase sufocando as pessoas da família, que sentem uma carga muito grande, como um legado para ser tão bem articulado e bem comunicativo quanto o pai, gênio no futebol, grande líder, bom político, médico competente, ou escapar de um estigma, de provar não ser desonesto, tão genioso, doente, um perdedor, obrigação de não ser bonito ou feio.

Como algumas características podem ser transmitidas geneticamente e também sofrem influência do convívio familiar, estas ficam em maior evidência, preenchendo ainda mais o imaginário familiar e do indivíduo. No caso dos vícios, como por exemplo, álcool, drogas, jogos, há o medo da fatalidade. Algumas pessoas se deixam levar como se aquele vício já fosse esperado desde cedo ou lutam e sofrem, permanecendo bem distantes para mostrar o quanto são diferentes.

As heranças, assim sendo, passam pelo imaginário das famílias, pelo que se espera do indivíduo e principalmente pelos conteúdos com os quais este se identifica. Por isso, muitas histórias se repetem, são transmitidas também inconscientemente de pai para filho ou para neto como se parte de um legado, que não é dito ou elaborado, então permanece com mais força, por não passar claramente pela consciência. Como em um caso de imigração, em que uma pessoa da família arriscou um estilo de vida diferente em outro país, mas não foi bem sucedido, fica no imaginário familiar que arriscar não é algo positivo, que o melhor é sempre o caminho mais seguro, mais estável e sem perceber os descendentes têm medo de fazer algo diferente, de mudar.

Percebemos na clínica que o que não é elaborado pelo indivíduo tende a se repetir. Observamos mães solteiras muito jovens que geram filhos que também se tornam pais muito jovens, casamentos desfeitos (“ah, na minha família, nenhum casamento dura”), negócios falidos (“tentei várias formas de ganhar dinheiro, mas como meu irmão e meu avô sempre dá errado”).

Dessa forma, as histórias familiares são importantes, pois nos situam e nos remetem às nossas origens. Contudo é essencial que consigamos reconhecer através da análise, o que é a história da família e qual é a nossa história, construir um caminho novo sem precisar repetir como se fosse algo inevitável.


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"Profissão: como fazer a escolha certa?"


O trabalho é um dos aspectos que mais influenciam a satisfação e a qualidade de vida.

Para sentir-se bem profissionalmente é preciso ser reconhecido como alguém competente naquilo que faz, ganhar um bom salário, ter boas relações com colegas e chefes, sentir-se motivado com as tarefas executadas.

Para conseguir sucesso no trabalho, antes de tudo, é preciso acertar na escolha profissional. Existem pessoas que escolhem rapidamente o que querem fazer e não se arrependem. Outras pulam de faculdade em faculdade, de trabalho em trabalho, sentindo-se sempre insatisfeitas.

A escolha profissional não é uma tarefa simples, pois envolve questões complexas, que vão desde aspectos objetivos (necessidade financeira, mercado de trabalho) a afetivos (expectativas de familiares, por exemplo).

Os aspectos objetivos podem ser analisados com mais facilidade. O exercício de auto-observação é sempre válido. Vale a pena ficar atento para algumas questões:

- O que gosta de fazer? Que atividades sente prazer?
- Tem talento especial para alguma coisa?
- Como se relaciona com as pessoas? É Comunicativo? Sente-se à vontade com pessoas desconhecidas? Fala bem em público?
- Como lida com as mudanças? Prefere situações mais rotineiras?
- Cansa-se da rotina, gosta de coisas novas? É disciplinado?
- É uma pessoa com iniciativa? Gosta de liderar ou prefere que alguém diga o que fazer?
- Irrita-se com facilidade? É flexível? Tolera bem as diferenças?
- Valoriza o dinheiro?
- Prima pela qualidade de vida?

Recomenda-se que a pessoa converse com profissionais de áreas que tem interesse, que pergunte a respeito do dia-a-dia do trabalho, como é o estilo de vida e a rotina em determinada profissão. Pesquise também sobre o mercado de trabalho, se é uma profissão que oferece possibilidades amplas de atuação, qual a média salarial.

Comparar as respostas dos profissionais com as do exercício de auto-observação pode ajudar a decidir a profissão que mais corresponde ao seu perfil e expectativas.

Cabe salientar que o mercado de trabalho e o salário são importantes, mas não decisivos na escolha profissional. Em todas as áreas há profissionais realizados e bem sucedidos.

Os aspectos afetivos costumam ser mais nebulosos e nem sempre a pessoa consegue identifica-los sozinha. Estes aspectos envolvem o ideal de vida pessoal e familiar, auto-estima, questões da personalidade.

É muito freqüente que pessoas escolham sua profissão baseando-se na expectativa dos pais, no desejo de agrada-los ou na dificuldade de contesta-los. Os estigmas sociais também costumam influenciar muito. Dessa forma, há quem escolha ser médico porque há, ainda, uma crença social de que “médico fica rico”, ou, que psicologia é coisa de mulher, engenharia de homem...

Quando existe muita dificuldade na escolha profissional ou sensação constante de insatisfação é preciso refletir a respeito do que pode estar acontecendo. Procurar um analista para falar desta questão pode ser bem pertinente para ajudar a pessoa a saber o que de fato deseja.


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A visão da Infância na história

Até o século XII, não existia lugar para a infância, que não era percebida como nós concebemos hoje, nem como um período de vida diferente. As pinturas que mostravam crianças eram relacionadas a temas bíblicos, e estas eram representadas como adultos em escala reduzida, sem diferenças na expressão e nos traços.

A infância era uma fase sem importância, não digna de recordação. Naquela época, pensava-se em se ter vários filhos, para que alguns sobrevivessem. Como a morte rondava a infância, as pessoas procuravam não se apegar muito às crianças, havendo certa indiferença.

Entre os séculos XIII e XVII, o sentimento relacionado à infância mudou um pouco por influência do pensamento religioso, que admitiu que a criança também possuía uma alma imortal, levando a uma maior preocupação com seus cuidados.

Até meados do século XIX, a infância era vista como um período de transição para a fase adulta. O cuidar das crianças era uma tarefa apenas necessária, sem qualquer especificidade. Essa visão de infância conduzia a maneira de como as crianças eram criadas e o modo de se relacionarem com seus pais. Nesse século surgiu a especialidade médica de cuidado de criança e o uso da palavra pediatria em 1872.

O sentimento de infância fortaleceu-se no século XX, assim como a preocupação com sua educação e bem-estar, a criança passou a ser o centro das atenções dentro da família, ocupando um lugar especial na sociedade contemporânea. Passou a ser considerada como um período importante para a formação do indivíduo e as experiências vividas nessa fase como base para a personalidade adulta.

A partir dessa mudança de visão em relação à infância é que o governo e a sociedade passaram a se ocupar mais de programas sociais, de educação e de saúde para as crianças. O dia das crianças é comemorado no Brasil no dia 12 de outubro. Essa comemoração tem um significado especial de valorização da criança, de reconhecimento de seus direitos e de suas necessidades.

No Brasil, o dia das crianças foi oficializado em 1924, pelo Presidente Arthur Bernardes. No entanto, somente a partir de 1960, é que passou a ser comemorado como uma estratégia de marketing de duas empresas que comercializavam produtos infantis.

Apesar da comemoração desse dia estar atualmente muito ligada ao comercio, é uma data importante para a sociedade refletir sobre a situação das crianças brasileiras, assegurando seus direitos à família, escola, moradia, alimentação e lazer. Nas famílias, é um dia que pode ser aproveitado para a convivência com os pais, o lazer, a realização de atividades lúdicas em conjunto, mais importante do que só os presentes.


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"Pequena reflexão sobre o olhar"


No trânsito resolvia problemas do trabalho. É comum hoje em dia fazermos do carro e do trânsito um apêndice do nosso trabalho. Resolvemos problemas, agendamos compromissos parados no transito. Neste dia resolvia um problema sério de trabalho que há tempo me angustiava.

Foi assim que me deparei com uma jovem mãe que carregava seu pequeno bebê no colo. Ela estava parada, diante do meu escritório móvel e me olhava. Pedia-me dinheiro e eu imersa no meu problema de trabalho não conseguia olhá-la. Mas sentia sua presença, percebia seu olhar.

O farol abria e fechava e eu ali parada, resolvendo meu problema e ela me olhando. Tomada por um profundo desconforto corporal traduzia aquele olhar como uma invasão. Uma olhando a outra sem, no entanto, nos olharmos. Como ela não percebia minha situação? Como eu não percebia a situação dela? Estávamos, eu e ela desamparadas.

Esta situação se traduziu num imenso incômodo e pude me haver, ao longo de meu confuso dia, com aquele olhar ausente.

Um bebê quando nasce é reconhecido por sua mãe. A mãe olha o bebê e lhe confere o estatuto de um sujeito diferenciado dela. Quando olha seu bebê, a mãe imprime seu desejo no corpo do bebê nomeando seu desconforto corporal. A linguagem contorna o corpo do bebê e, através do olhar materno surge os primeiros esboços de uma unidade que se chama EU. O Eu confuso, desde seus primórdios, com o corpo e o discurso materno. Carregamos conosco este olhar primordial que nos funda e a nossa pretensa unidade é sempre abalada. O Eu é um outro.

Lembrei-me então de um belo conto de Guimarães Rosa chamado “O Espelho”. O poeta se pergunta sobre o que é este enigmático objeto e assim diz:

“Ah, o tempo é o mágico de todas as traições...E os próprios olhos, de cada um de nós, padecem viciação de origem, defeitos com que cresceram e a que se afizeram, mais e mais. Por começo, a criancinha vê os objetos invertidos, daí seu desajeitado tactear; só a pouco e pouco é que consegue retificar, sobre a postura dos volumes externos, uma precária visão. Subsistem, porém, outras pechas, e mais graves. Os olhos, por enquanto, são a porta do engano; duvide deles, dos seus, não de mim.”

Ganhando palavras o desconforto que sentia pode ser significado. Naquela precária visão, eu e a moça que carregava seu bebê no colo nos olhávamos sem, no entanto, nos vermos, sem nos reconhecermos como sujeitos.

Nem ela me olhava, nem eu a via. Foi um encontro de duas cegas.


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"Sou oito ou oitenta"


De um extremo ao outro, sempre entre opostos, sem meio termo: é assim que algumas pessoas funcionam. Inúmeros exemplos podem ser descritos.

Existem as que começam um esporte e se dedicam ao máximo, treinam horas por dia durante meses, até que cansam e param radicalmente, não fazem mais nada, ficam sedentárias. Outras se empenham no estudo, chegam ao extremo de não ter vida social para poder ler a maior quantidade de livros possíveis e de repente, sem que elas mesmas entendam, perdem o interesse, interrompem completamente as atividades acadêmicas, chegando até a abandonar a faculdade ou o curso que estavam realizando.

Este comportamento extremista afeta muito a vida afetiva destas pessoas. É freqüente que não consigam permanecer muito tempo com um parceiro. No início dos relacionamentos sentem-se apaixonadas, largam tudo para ficar com a pessoa amada, fazem o que for possível para agradá-la. Podem permanecer assim por muitos meses, até que vão para o outro extremo. Sentem-se sufocados, perdem o interesse pelo parceiro e, de uma hora para outra, decidem se separar.

Um outro aspecto que é fortemente afetado é a parte financeira e profissional. As mudanças de emprego são constantes, ou porque a pessoa fica entediada no trabalho, sem motivação e por isso pede demissão, ou porque não consegue se relacionar de forma equilibrada com seus colegas, sendo demitida em função de suas atitudes radicais. A pessoa pode ser uma excelente profissional, extremamente dedicada e disponível, mas não sustenta esta atitude por muito tempo, logo se desinteressa...

Este tipo de oscilação traz grande sofrimento, já que o indivíduo vai de uma extrema satisfação a uma insatisfação absoluta. Muitas vezes, ser alguém do tipo “oito ou oitenta” vai contra os ideais da própria pessoa. Mesmo que ela tenha um ideal de casar e ter filhos, formar uma família sólida, permanecer mais tempo num emprego, não consegue e sente que se distancia cada vez mais da realização de seus sonhos.

Para cada pessoa existe um motivo inconsciente que a leva a não conseguir um “meio termo”, a ser sempre radical em suas decisões. Em geral, podemos dizer que há uma questão importante com relação à posição e consciência destes sujeitos com relação a seus desejos. Sempre divididos entre o que querem e o que o outro quer, se perdem, ficam confusos com relação ao que de fato desejam...


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"Não consigo dizer não!"


Existem pessoas que se deparam constantemente com a dificuldade em dizer não. Esta dificuldade aparece presente em diversas coisas da vida cotidiana, tais como: recusar um convite para ir a um passeio ou a uma festa, negar um brinquedo para um filho, discordar de uma opinião.

O indivíduo que não consegue dizer não tem a sensação de que está sempre cedendo para o outro, abrindo mão de tudo o que gosta para agradar alguém. Embora perceba que este comportamento não lhe faz bem, não consegue deixar de ser assim, pois tem medo de ser rejeitado caso imponha as suas vontades, de ser visto como egoísta ou de magoar quem ama.

Existem muitos fatores inconscientes que podem estar por trás da dificuldade em dizer não: sentimento de baixa auto-estima, questões da história de vida e até mesmo o sentimento onipotente de que se é capaz de satisfazer o outro em tudo.

Uma das questões mais difíceis e angustiantes que envolvem a dificuldade em dizer não é o fato da pessoa raramente conseguir expressar suas opiniões e sentimentos.

O temor de não ser amado, a necessidade constante de satisfazer o outro, muitas vezes, fazem com que as relações que essas pessoas estabelecem sejam muito tensas e pesadas. Há, freqüentemente, uma exigência para que o outro reconheça o “sacrifício” que se faz por ele e, quando isto não acontece, o sentimento de frustração costuma ser intenso e vem acompanhado de muita raiva, que pode ser externalizada em comportamentos agressivos ou guardada em “segredo”.

É comum que estas pessoas acabem rompendo os relacionamentos por se sentirem sufocadas e sem liberdade. No entanto, logo que estabelecem outras relações percebem que a situação de “submissão” se repete. Criam, sem se dar conta, uma espécie de “círculo vicioso”: não conseguem ficar sozinhas, sentem a necessidade de companheiros e amigos, mas se relacionar também se torna algo difícil, pois abrir mão de tudo o que gostam, com o tempo, torna-se inviável.

A repetição de relações com um perfil semelhante apontam para a necessidade da pessoa rever e questionar os porquês de não se posicionar, de não dizer o que deseja. Um tratamento analítico (psicoterápico) é um caminho possível para conseguir escutar os motivos que levam a esta dificuldade e, assim, poder mudar.


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"Psicose infantil"


Muitos pais ficam assustados quando a criança recebe o diagnóstico de psicose e perguntam o que é isso que meu filho tem? Como vai ser a vida dele no futuro?

É importante esclarecer que a psicose infantil é diferente do adulto, pois sua personalidade ainda está em construção. Desse modo, muitos autores definem a psicose infantil como estrutura psíquica “não decidida”, pois a personalidade da criança está em constituição, o que leva a pensar que o diagnóstico na infância, de alguma forma, é provisório. Ela pode viver muitas experiências que podem influenciar bastante neste processo.

Todo ser humano é muito singular e diverso na manifestação de sua personalidade. No entanto, para fins diagnósticos, é importante que o profissional reconheça os sinais que o direcionem para o diagnóstico de psicose, para que assim possa escolher a terapêutica mais indicada para o caso, seguem alguns deles:

· A criança fala? Consegue se comunicar?
· Percebe as pessoas ao redor?
· Manifesta seus pedidos?
· Tem iniciativa?
· Ela brinca com outras crianças, compartilhando os jogos? Ou fica isolada em seu mundo?
· Demonstra ter compreensão do que acontece ao redor? Sensibiliza-se pelos acontecimentos em seu meio?
· Muda bruscamente seu estado de humor, se descontrolando, se agredindo, se machucando?
· Orientação no tempo e no espaço (ex. esbarra nos objetos, cai com muita freqüência).

Estas perguntas têm como fundo a preocupação sobre a interação da criança com o que está a sua volta como a família, outras crianças, escola. Por exemplo, é importante notar se ela se interessa por “coisas” referentes a sua idade (brincadeiras, jogos). No aspecto ligado a comunicação, deve-se observar se a criança expressa seus pensamentos, vontades e sentimentos através da linguagem. De acordo com a idade a expressão se torna cada vez mais complexa. Nos casos em que a criança não se manifesta e quando ela se mostra muito incomodada com o toque, com barulho e com a presença das pessoas os pais devem se preocupar.

Vale lembrar também que o diagnóstico deve ser feito por um profissional da área (psicanalista, psicólogo ou psiquiatra) e que os sinais isolados não definem o diagnóstico, pois este é um processo que leva algumas sessões com a criança e seus pais para que seja realizado.

O tratamento nos casos diagnosticados como "psicose" é bastante indicado, pois a análise pode ser um espaço onde a criança poderá elaborar suas experiências e lidar com seu mundo emocional em formação.


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