Perguntas

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Temas abordados pela Psicanálise.

"Dificuldade de aprendizagem: questão de inteligência?"

“Meu filho não aprende. O que devo fazer?” – M. S. – 40 anos.


Na infância e adolescência é freqüente a presença de dificuldades escolares, que podem ser notadas em alterações de comportamento (agitação, passividade, inibição, falta de atenção) e no aproveitamento abaixo do esperado. A criança que não está interessada, pode estar angustiada, ansiosa ou preocupada com questões de sua vida ou de sua família. Muitos professores referem que seus alunos bagunçam ou ficam provocando os colegas para poder chamar a atenção para si. Essa atitude acaba comprometendo o aprendizado, pois ela não consegue prestar atenção no conteúdo que está sendo transmitido.

Os distúrbios de aprendizagem podem ser parciais, por exemplo, quando a criança não vai bem em uma matéria específica, ou globais, quando ela apresenta baixo desempenho em várias disciplinas, não conseguindo adquirir conhecimentos ligados ao dia-a-dia.

O aprendizado engloba diversas áreas tais como: memória, pensamento, compreensão, comunicação, concentração, orientação temporal e espacial, e depende, principalmente, de aspectos emocionais como autonomia, segurança, auto-estima, interesse, sociabilidade e estado de humor.

É importante observar o início do aparecimento dos problemas de aprendizagem. Uma dificuldade temporária faz parte de todo processo de aquisição de conhecimento, pois cada criança tem um ritmo que depende de sua assimilação. Assim, uma criança pode ter um baixo rendimento, sem que isso seja motivo de alarme, pois ela aprende outros assuntos e atividades. Em outra perspectiva, a que tem bom desempenho no aprendizado formal (aprendizado de conteúdo e de informações), por vezes, não consegue interagir com outras crianças, o que prejudica sua sociabilidade e o aprendizado de regras sociais, de brincadeiras, jogos.

Não se pode restringir aprendizagem a uma questão de inteligência ou de competência, pois aprender faz parte do processo de desenvolvimento. A aprendizagem está sujeita à relação estabelecida com o desejo de saber, com a posição diante do conhecimento – ativa ou passiva (do adolescente e da criança), não se tratando, portanto, de uma característica inata. A não ser nos casos em que há um comprometimento neurológico severo que interfira no aprendizado.

Desse modo, não se deve estigmatizar o aluno com dificuldades como quem não sabe nada ou como aquele que não tem inteligência, pois assim corre-se o risco de ficar à mercê do grande equívoco de que a inteligência está separada da intenção, do desejo e do estímulo.

Os pais não são culpados, mas são responsáveis junto ao filho pelo processo. Os pais podem auxiliá-lo, mas jamais devem pressioná-lo para ele atenda a suas expectativas de ser um bom aluno e de tirar "boas notas" o tempo todo. Podem colaborar ensinando-lhe e proporcionando-lhe condições para a organização do cotidiano, do ambiente de estudo, dos horários, dos materiais, etc. Por exemplo, os pais não devem permitir que o filho fique acordado até tarde fazendo as tarefas, pois no dia seguinte ele ficará sonolento. Deve-se lembrar que forçar o filho a aprender não lhe garante o aprendizado, pois ele também é responsável pela busca de conhecimento e ativo em suas dificuldades e desafios.

A escola é responsável em oferecer uma estrutura favorável ao aprendizado. Uma sala de aula com número excessivo de alunos prejudica, principalmente, aqueles que tem dificuldades, pois oferece um excesso de estímulos que dispersa os alunos. Além disso, a falta de motivação do educador pode ser um dos fatores mais sérios encontrados na escola, pois ele precisa estimular e favorecer o aprendizado dos estudantes e, ao mesmo tempo, ficar atento quando um aluno apresentar dificuldades.

Para a Psicanálise, a dificuldade de aprendizagem não é abordada como um sintoma destacado de um contexto, envolve também, além do sujeito, a família e a escola. É importante que os pais procurem ajuda de um profissional sempre que a dificuldade de aprendizagem parecer relevante e estiver afetando a vida da criança ou adolescente.

*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

"Sentir-se bem estando só, é possível?"


Quando chega a época da comemoração do Dia dos Namorados, há uma profusão de cartazes, anúncios em rádio e televisão, enaltecendo o par romântico, o amor e a troca de presentes. Além do apelo comercial que envolve essa data, há um fator cultural, a sociedade também parece cobrar a necessidade de se ter um namorado ou namorada. Nas escolas, faculdades, no trabalho, as pessoas planejam e comentam entre si sobre presentes e encontros.

Nessa época, muitas pessoas se ressentem de estarem sós, sem namorado, deprimem-se, sentindo-se a parte da sociedade e pior de tudo: incompletas! Como se lhe faltassem a tão falada alma-gêmea!

Percebe-se que algumas pessoas têm vergonha de estarem sós, como se fosse algo depreciativo! Será?

As pessoas se esquecem que antes de encontrar o tão sonhado e idealizado parceiro, o mais importante é sentir-se inteiro, não uma metade, é desenvolver a própria individualidade. O foco é colocado tão intensamente na busca pelo outro, que a pessoa se esquece de si própria. Também é comum, vermos pessoas que, por não suportarem a solidão, se envolvem em relacionamentos furados, apenas para preencher o vazio.

Uma pessoa que se sente inteira, que conquistou sua individualidade pode preferir não compartilhar sua vida com outra pessoa e sentir-se bem sozinha, quando for uma escolha e quando conseguir deixar de lado os rótulos sociais e a vergonha. Cada vez mais pessoas priorizam uma vida sem muitas concessões, com mais liberdade de expressão e de locomoção, além da liberdade sexual. Algumas pessoas preferem ficar sozinhas, valorizam os momentos individuais, mesmo que durante certo momento da vida, sem que isto esteja associado a algum sentimento ruim. Isso acontece por inúmeros motivos como viagens a trabalho constantes, desejo de ter o próprio espaço preservado, dedicação a hobbies e projetos pessoais, encontrar os amigos com freqüência ou simplesmente decidir as coisas sem precisar negociar com o companheiro.

Apesar do ideal romântico, muitas pessoas já preferem estar sós a ficarem mal acompanhadas e não aceitam tão facilmente abrir mão de suas escolhas.

Geralmente amigos e familiares pressionam aqueles que se divorciaram, romperam um namoro ou enviuvaram a logo encontrarem um novo companheiro, até se oferecendo para apresentar alguém, na tentativa de evitar a solidão do outro, que é associada a tristeza. No entanto, percebe-se que muitas pessoas aproveitam o momento para se conhecerem, descobrindo forças que estavam adormecidas e experimentando crescimento pessoal.

O medo da solidão está ligado a sentimentos primitivos de desamparo, a lembranças infantis de exclusão e a dependência exagerada em relação às outras pessoas, como por exemplo, em relação aos pais.

Solidão é estar só e não viver isolado das pessoas, ter os próprios projetos, sem encarar o relacionamento amoroso como a única forma de ser feliz. A constituição do eu só acontece por meio de uma experiência de estar só, dando condições para construirmos livremente nosso destino, sendo menos manipuláveis em quaisquer que sejam nossas escolhas.

A análise pessoal é um importante instrumento que nos leva a difícil tarefa do autoconhecimento e ao desenvolvimento pessoal que permite que realizemos nossas escolhas de modo a nos sentirmos bem: sós ou acompanhados.


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"Estou me separando do meu marido. Meu filho pode ficar traumatizado?"


Foto de Danielle Sandrini

A situação de separação entre os casais é bastante freqüente e dependendo da forma como é conduzida por estes pode ser mais problemática ou não para as crianças.

No passado, muitos casais deixavam de se separar pois pensavam que isso poderia ser muito prejudicial para seus filhos. Chegavam a ficar juntos por muitos anos, mas isso era mantido às custas de constantes brigas ou um grande afastamento. Em outros casos, a idéia de se separar era colocada de lado e se adaptavam a uma vida de apenas amigos, abdicando de uma relação de casal, em prol do “bem-estar” dos filhos. É muito comum ouvirmos dos pais a expressão: “Se não fossem vocês, eu teria me separado há muitos anos...” Mas e agora? Não dá para voltar atrás, uma grande parte da vida se foi.

As crianças desde muito cedo compreendem o que está a sua volta e tiram suas próprias conclusões sobre a vida do casal. Se um casal briga muito ou se a criança percebe que a mãe por exemplo, fica muito nervosa sempre quando o pai chega do trabalho, ela mesma tem alguns pensamentos como: “meu pai poderia ir morar em outro lugar, assim minha mãe ficaria mais feliz, ia ser melhor...” Outras vezes, sem que percebam, os pais apontam aos filhos os problemas do casal: “ quando seu pai chegar cedo em casa vamos voltar a nos entender...”. Essas falas vão informando a criança sobre a situação que está sendo vivida pelo casal.

Em uma casa em que os pais vivem em estado de constante desentendimentos e agressões, a criança sente como uma ameaça para seu próprio ser. Isso ocorre pois o ser íntimo da criança é estruturado por dois entes - pai e mãe - e, quando um deles se ausenta, há uma certa confusão para ela. Diante de tais dificuldades a criança fica bastante angustiada e chega a perguntar aos pais se eles vão se divorciar.

O divórcio é uma forma de esclarecer esta situação de desentendimento vivida pelo casal. Seria então, também uma solução para os filhos. Dessa maneira, quando os pais comunicam verbalmente que vão se separar pois não funcionam mais como casal, para a criança, a dificuldade percebida fica localizada no âmbito do relacionamento do casal e não mais em suas fantasias. Por não conhecer o funcionamento do mundo infantil, os pais não percebem, mas é comum que as crianças imaginem que as brigas do casal ocorram por sua causa, “que mamãe e papai estão brigando porque eu não fui bom” e com freqüência se culpabilizam pela discórdia do casal. Quando fica esclarecido que a dificuldade não diz respeito a seus comportamentos, fica claro para a criança que ela terá que adaptar suas relações, se virar sem a presença diária de um dos pais.

Muitas vezes para evitar o conflito, a família não diz a verdade para a criança. Podem dizer coisas como: “Seu pai viajou por uns dias”. Crianças bem pequenas podem perceber que há algo errado quando este pai não retorna. E, ao não receber claramente a notícia, a criança é abalada na sua relação com os adultos, que passam a não serem mais dignos de confiança pois não lhe dizem a verdade. A criança pode então passar a ficar quieta, absorta em seus pensamentos e se desinteressar pelos amigos, como uma expressão de que há um abalo em seu ser e nas suas relações.

Quando tudo é claramente dito diante da criança e do resto da família, a criança experimenta um certo alívio, pois no lugar de um conflito familiar é nomeada uma nova configuração: uma família de pais separados.

Assim, o ideal é que os filhos sejam avisados sobre o divórcio desde o momento de sua preparação até as decisões judiciais. A criança deve ouvir palavras claras sobre as decisões tomadas pelos pais ou impostas pelo juiz. Assim, o divórcio pode ser vivenciado como uma situação tão nobre quanto o casamento. Ao contrário – o silêncio ou meias-palavras – podem comunicar à criança que estas mudanças devem ser vividas por todos com sentimentos de sofrimento e perda.

Nos casos em que o diálogo entre o casal se tornou muito difícil, pode-se contar com a ajuda de um analista, que ajudará o casal a explicitar seus conflitos e descobrir uma maneira acertada de conversar com seus filhos.


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"O que é doença psicossomática?"


Cada vez tem sido mais freqüente a utilização deste termo “doença psicossomática”, que leva ao encaminhamento de várias pessoas que estão com alguma doença física para um atendimento psicológico/psicanalítico.

Geralmente esta conduta, que pode partir dos próprios médicos que acompanham o caso, gera muitas dúvidas ao paciente: “mas como é psicológico se está doendo?”; “mas é verdade, não é coisa da minha cabeça?”.

A hipótese de que uma pessoa tenha uma doença psicossomática não significa que a dor e a enfermidade não existem. Pelo contrário, o corpo realmente está em sofrimento, com dores, feridas, descontroles e descompensações orgânicas, que inclusive são até dificilmente controladas com as terapias medicamentosas e os recursos da medicina tradicional.

As doenças psicossomáticas podem se manifestar nos diversos sistemas que constituem nosso corpo, como por exemplo: gastrointestinal (úlcera, gastrite, retocolite); respiratório (asma, bronquite); cardiovascular (hipertensão, taquicardia, angina); dermatológico (vitiligo, psoríase, dermatite, herpes, urticária, eczema); endócrino e metabólico (diabetes); nervoso (enxaqueca, vertigens); das articulações (artrite, artrose, tendinite, reumatismos).

Não é raro, nos casos de doenças psicossomáticas, que as pessoas enfrentem dificuldades no diagnóstico e insucesso dos tratamentos propostos, gerando uma perambulação por vários médicos especialistas em busca de cura ou alívio.

O diferencial mais importante para se considerar uma doença como psicossomática é entender que a causa principal desta descompensação física, que aparece no corpo, está na esfera emocional da pessoa, ligada portanto à sua mente, aos seus sentimentos, à sua afetividade. E esta variável emocional se torna importante tanto no desencadeamento de um episódio, de uma crise, quanto na agudização e/ou manutenção do sintoma, conforme cada pessoa.

As relações entre o corpo e a mente são mais próximas do que costumamos imaginar e os mecanismos inconscientes são muito presentes nesta ligação. Por isso é comum a sensação inicial de que os sintomas “vieram de repente”, “não teve nenhum motivo para que eu ficasse assim”, “não consigo entender o que aconteceu”. Por exemplo, é difícil para um paciente com gastrite identificar quais podem ter sido as causas emocionais do desencadeamento de uma nova crise. A ansiedade e a irritabilidade são sentimentos comuns nos quadros psicossomáticos, e há uma tendência a identificar e culpabilizar eventos externos pelo problema, aumentando a sensação de impotência diante das dificuldades.

É importante deixar claro que o corpo também deve ser cuidado com as terapêuticas adequadas (no nosso exemplo, a pessoa com gastrite deve procurar o médico e realizar exames solicitados, tomar os remédios prescritos, fazer uma dieta alimentar caso seja indicada). Geralmente, o aconselhável é um atendimento psicológico associado, que possibilite auxiliar o sujeito a nomear os sofrimentos que vivencia, para além do real do seu corpo. A importância deste tipo de abordagem nos transtornos psicossomáticos também se deve ao fato romper uma possível evolução crônica do problema, que limite progressivamente a vida social e emocional da pessoa.


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"O que é inconsciente?"



Esse é um termo que vem sendo utilizado freqüentemente no discurso social como um adjetivo que define as ações que não são racionalmente processadas, sendo decorrentes, portanto, de formações da mente que não dependem da consciência.

O conceito de inconsciente já havia sido empregado por pensadores e filósofos do século XIX, mas foi introduzido por Freud de modo distinto, foi definido por ele como parte de um sistema de funcionamento da mente, exercendo grande influência no comportamento das pessoas. Com esta descoberta, Freud tirou o foco da determinação da razão, das escolhas conscientes dos indivíduos na determinação do comportamento, para atribuir ao inconsciente essa importância. Por exemplo, a notada frase: “foi sem querer querendo” (frase de um personagem de seriado infantil bastante conhecido - Chaves), ilustra como o inconsciente pode influenciar. Mesmo que a pessoa, hipoteticamente, não queira agredir alguém, pode acabar agredindo sem uma intencionalidade (consciente). Assim, o inconsciente passou a ser conhecido como um “lugar” psíquico que funciona como um “baú” repleto de fantasias, desejos e emoções de difícil controle.

O inconsciente se expressa por meio dos chistes (humor), atos falhos (comportamentos inesperados), lapsos de linguagem, sonhos e na associação livre de idéias (fala livre sem crítica e sem preocupação com a coerência). Por exemplo, chamar uma pessoa pelo nome de outra, quando escapa uma palavra fora do contexto, por meio de comportamentos não planejados, ou quando dizemos algo que sabemos que não podíamos ter dito. Como a “gafe” do presidente George W. Bush que se confundiu num discurso e quase afirmou diante da rainha Elizabeth II, da Inglaterra, que ela teria mais de 200 anos de idade. Imediatamente após estas “escapadas” do inconsciente as pessoas se questionam: “por que fiz isso?”, “por que disse isso?”.

Essas perguntas sobre a causa ou a origem desse conteúdo proporcionam um extenso material que pode ser trabalhado na análise, pois revela o funcionamento da mente que está encoberto.

O que pode estar encoberto?

As lembranças, as memórias, fatos significativos, experiências afetivas e sensações. Os sonhos são materiais do inconsciente e demonstram bem seu funcionamento. No sonho o tempo não tem o mesmo registro de quando estamos acordados, as mesmas pessoas podem estar em lugares diferentes, ter idades diferentes, ter características paradoxais em cenas que mudam rapidamente. Pode apresentar conteúdos antagônicos, desorganizados, pode juntar duas percepções numa só. A realidade não é determinante, ao acordar as pessoas costumam dizer: “tive um sonho muito louco”, “ainda bem que era um sonho”, pois enquanto dormem o sonho parece ser vivido, inclusive nas sensações corporais, podem sentir medo, angústia, alegria, etc.

As intuições também fazem parte do inconsciente, pois a pessoa percebe subliminar à consciência coisas que não consegue explicar. É comum algumas pessoas não terem empatia por alguém. Na análise, o processo de deciframento pode possibilitar a leitura dessa vivência, através do resgate da natureza da percepção. Repentinamente, a característica de alguém, como os olhos, pode lembrar olhos de alguém, a qual o locutor não quer se recordar, por exemplo, os olhos parecem do avô quando estava bravo. Assim quando olha para alguém cujo olhar está associado ao do avô, não sente empatia, mas sim medo, raiva, etc..

O inconsciente, portanto, faz parte de todos nós e tem um valor central, após o conhecimento do que é isso que chamamos de inconsciente, não podemos ousar dizer que fazemos as escolhas sem pensar e que, por esse motivo, não temos responsabilidade por elas.


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"Gravidez na adolescência"



O aumento significativo da incidência da gravidez na adolescência tornou-se um problema de saúde pública, devido às diversas repercussões deste fenômeno na vida da mãe adolescente. A gestação nesta fase, mesmo sem complicações, é chamada de gestação de risco pela própria condição que a adolescência impõe.

A adolescente vive uma fase de intensas alterações em relação ao próprio corpo, o corpo infantil é perdido e, então, o corpo passa por um processo de modificações durante alguns anos. Nas meninas os seios crescem, o quadril se alarga e é nítido seu crescimento. Com a puberdade, a adolescente começa a ter menstruações, o nível dos hormônios fica alterado e conseqüentemente, novas sensações corporais são vivenciadas e também novas fantasias são ativadas: a adolescente sonha em encontrar o amor de sua vida, seu par perfeito. Essas transformações acarretam numa intensificação da sexualidade, que passa a ser possível de ser vivida com os pares. As adolescentes passam a se relacionar com os garotos e frequentemente iniciam a vida sexual.

 Essa nova configuração traz um imenso paradoxo à adolescente que passa a ter um novo lugar social, podendo assumir responsabilidades mais complexas, mas ainda não tem o estatuto de “adulto”, sua autonomia fica em suspensão. As adolescentes reivindicam seus direitos de saírem sozinhas, dizendo que já são “grandes”, querem se arriscar mais, namorar livremente. Aliam-se a outros adolescentes, começam a participar de grupos e, desse modo, ocorre uma intensificação no estabelecimento de vínculos fora do âmbito familiar. A família passa a ser uma referência passível de ser contestada, a jovem questiona os valores parentais para se certificar que os mesmos existem. Os conflitos decorrentes do novo lugar social, do corpo e da identidade em transformação dão margem a inúmeros comportamentos impulsivos. Um desses comportamentos é a troca de parceiros e a sexualidade vivida sem cuidados. Nesse contexto muitas jovens engravidam ou contraem as doenças sexualmente transmissíveis (DSTS).

A comunidade científica tem muitas preocupações com relação à gestação durante a adolescência. Por exemplo, os médicos, em suas pesquisas, fazem inúmeras referências aos riscos tais como: a alta incidência de anemia materna, doença hipertensiva específica da gravidez, desproporção céfalo-pélvica, infecção urinária, prematuridade, placenta prévia, baixo peso ao nascer, sofrimento fetal agudo intra-parto, complicações no parto e puerpério. Outros estudos revelam aumento na reincidência de gravidez na adolescência, o que tem trazido vem preocupando os órgãos governamentais e os setores ligados à saúde, pois o SUS registrou de 1993 a 1998 um aumento de 31% nos partos em adolescentes na faixa etária de 10 a 14 anos. Isso nos leva a supor que até o final da adolescência (19anos e 11meses) outras gestações poderão ocorrer.

Em outra perspectiva, há ênfase nos efeitos negativos na qualidade de vida das jovens que engravidam, devido ao prejuízo no desenvolvimento pessoal e profissional: 53% das adolescentes completam o segundo grau, enquanto que, entre aquelas que não engravidam, esse cálculo corresponde a 95%, ou seja, há uma diferença significativa.

Além dessas visões, sobre os riscos, há uma terceira, da qual compartilho, pois trata da possibilidade de elaboração e de ressignificação da experiência. Observo na clínica, muitas jovens se implicarem no cuidado com os filhos, mesmo com dificuldades. No atendimento desses casos, pude perceber que o modo de lidar com a gravidez depende de uma variedade de fatores interligados: a relação com o companheiro, o projeto de vida, expectativas, subjetividade (estado emocional e personalidade) e família. Todos esses aspectos são passíveis de serem trabalhados.


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“Separação"


O rompimento de um vínculo amoroso é sempre um processo muito doloroso. Mesmo quando é a própria pessoa quem decide se separar, a ruptura da relação costuma ser acompanhada de sofrimento. Mas por que?

Para respondermos a esta pergunta, precisamos refletir a respeito do lugar que ocupa em nossa vida alguém que amamos. Grande parte das pessoas cresce com o sonho de encontrar um grande amor, que completará todas as faltas da vida. Assim, vivemos com a ilusão de que um dia seremos “felizes para sempre”. Saliento a idéia de ilusão, afinal, a felicidade absoluta e a existência de alguém capaz de nos preencher em todas as necessidades e desejos são impossíveis (sempre vai faltar algo!). No entanto, precisamos desta ilusão para viver, para sonhar...

É neste lugar extremamente importante que colocamos nosso par amoroso. Quando somos amados nos sentimos reconhecidos, únicos, especiais e indispensáveis para o outro. Sentimentos opostos aparecem quando nos separamos. Somos acometidos de um enorme vazio, uma sensação de sermos “descartáveis”, de que estamos “sem chão”. Nos sentimos tristes, perdemos o prazer em coisas que antes nos interessavam, não nos cuidamos da mesma forma. A ilusão de completude acaba... não conseguimos sonhar...a vida fica sem graça...

O que fazer então? Muitos são os conselhos: “Dor de amor se cura com um novo amor”, “Não fique triste, ele(a) não te merece”, “Existem muitas pessoas no mundo”... Mas será que devemos nos permitir entristecer?

Acredito que sim. É fundamental que, após o rompimento de um vínculo amoroso, possamos passar por um processo de luto, momento em que ficamos mais reflexivos, fechados e nos questionamos a respeito de várias coisas de nossa vida. Nesse sentido, apesar de ser um processo dolorido e difícil, não há problema nenhum se ficarmos alguns meses sem vontade de sair com amigos, se chorarmos com freqüência e não nos interessarmos em encontrar um novo amor. Este período de crise serve para que possamos nos conhecer melhor, avaliar como nos colocamos nas relações, quais são nossos valores, o porquê de termos nos interessado por determinada pessoa, aonde podemos estar implicados naquilo que levou ao fim do relacionamento...

Desse modo, se formos capazes de enfrentar este momento de vazio e tristeza, sem a urgência de preencher imediatamente nossas vidas com um novo relacionamento, temos mais chances de, depois de ultrapassada esta etapa, estabelecermos uma relação mais tranqüila, que vá ao encontro de nossos desejos.

Cabe ressaltar que este processo de luto pode demorar algum tempo, já que não se elabora uma perda de uma hora para outra. No entanto, se depois de passado muito tempo a pessoa ainda se sentir muito triste e incapaz de estabelecer novos relacionamentos, é indicado que procure um profissional.

Muitas pessoas acabam procurando um analista quando se separam. A análise pode ajudar neste processo de crise, oferecendo a oportunidade de se questionar e não ficar paralisado num relacionamento passado.


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"Há sexualidade na terceira idade?"


Recentemente fui interpelada por um encontro inusitado, despretensioso, mas que causou inúmeras questões. Num encontro informal, uma senhora de aproximadamente sessenta e cinco anos relatava seu aparente incomodo após ter sido chamada por um motorista de táxi de linda mulher. A senhora dizia de uma certa indignação por ele a ter chamado de mulher, e quando lanço a ela num tom jocoso a pergunta: Senhora e Mulher são opostos? Ela se autoriza a me confessar que havia gostado muito do galanteio do taxista.

Este breve e prazeroso encontro coloca em evidência o cerne das discussões psicanalíticas e de muitos desenvolvimentos teóricos no interior do campo psicanalítico: a sexualidade.

Se a psicanálise subverte o discurso ao trazer a sexualidade para o campo da infância, o que dizer da sexualidade na velhice?

Dito de outra forma: para a psicanálise há sexualidade aonde há humano e a sexualidade nos interpela em todos os momentos da vida. Quem nunca se sentiu constrangido ao ver um casal se beijando na rua? Na novela? Na clínica com a adolescência é muito freqüente encontrar os pais muito assustados quando os filhos começam a namorar. Surgem verdadeiras crises.

Um estranhamento semelhante ocorre quando um casal de mais idade troca carícias. Como se fosse vetado a eles essa possibilidade: desejar e ser desejado como homem e mulher.

O próprio termo velhice alude a uma deterioração, degradação. Os discursos sociais sobre a velhice falam sobre qualidade de vida, prolongamento da vida, mas raramente falam sobre a sexualidade. Estes discursos, originados pelo discurso médico achatam a singularidade e generalizam a condição singular de quem vive este momento. Com isso não quero dizer que a velhice não faz marcas no psiquismo, mas que a sexualidade existe e produz enigma em todos que vivem, independentemente da idade.

Nesse sentido, é possível pensar que pessoas com a idade avançada podem namorar, sair, paquerar ou até mesmo casar.

Só depois é que me dei conta, que naquele dia havia me encontrado com uma mulher, às voltas com o enigma de sua sexualidade.


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"Sobre os sonhos"


“Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado” - Shakespeare.

O sonho é considerado, pelo senso comum, como algo irracional, bizarro, incompreendido e inesperado, invadindo nossos sentidos e nossos sentimentos ao acordarmos. Pelo fato de provocar inúmeras sensações, acordamos com incômodos ou prazeres que não identificamos, mas que durante o sonho, parecem perfeitamente normais.

Existem inúmeras visões que se referem ao ato de sonhar. De acordo com a visão biológica, das neurociências, o sonho é um processo físico natural e necessário decorrente de funções fisiológicas. O sonho é parte do processo natural do sono e tem como função principal manter a pessoa dormindo. No entanto, esta não é a única disciplina que se interessou pela abordagem do sonho.

O fascínio pelo sonho e o desejo de fazer com que tenha sentido é tão antigo quanto a Humanidade. Há relatos de interpretações de sonhos em fragmentos de papiros, datados do segundo milênio a.C. e em cuneiformes Assírios.

Na Grécia antiga existiam oráculos dos sonhos, que eram visitados por pacientes em busca de desvendar significados relacionados à cura de doenças. Porém, esses significados não eram considerados pessoais; mas eram atribuídos às mensagens dos deuses e a interpretação era de responsabilidade dos sacerdotes e pitonisas. Cabia ao sonhador o papel de ¨veículo¨ para o entendimento coletivo. Contrariando este pensamento da época (valor coletivo dos sonhos), Artemidoro introduziu a idéia da interpretação, que enfatizava o significado particular. Baseou suas hipóteses na experiência e observação, dando ênfase ao caráter pessoal.

O tema da interpretação também está presente na obra de Jung, que desenvolve a idéia de uma linguagem simbólica, cuja compreensão revela ao sonhador a etiologia de seus sintomas. Para cada sonho, há tantas interpretações quanto sejam os intérpretes.

Assim como Artemidoro e Jung, Freud, já na modernidade, acreditava que os sonhos tinham algo a dizer ao sonhador, continham mensagens expressas por imagens. Para ele os sonhos escondiam algo que, por meio da técnica psicanalítica – associação livre, poderia esclarecer o caráter, os estados da mente e conteúdos reprimidos, ou seja, o sonho favorecia a consciência de conteúdos que compunham a infinita complexidade da psique humana.

Os sonhos são manifestações do inconsciente e revelam mensagens que aparecem “disfarçadas” e precisam ser desvendadas. Dessa forma, podemos dizer que não há um único sentido para um sonho e, por isso, não devemos interpretar um símbolo onírico como tendo um significado pré-determinado (como, por exemplo, dizer que sonhar com dente significa morte).

Para a Psicanálise os sonhos não devem ser interpretados por meio de símbolos universais e sim de acordo com a singularidade de cada um.

Numa análise os sonhos oferecem um material importante a respeito de conflitos, fantasias e outras questões emocionais, podendo ser desvendados por meio de uma escuta.


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"Minha filha me contou que há algum tempo vem provocando vômitos depois de comer alguns alimentos. Ela pode estar com bulimia?"


A bulimia é uma forma de transtorno alimentar grave, que se caracteriza por episódios repetidos de compulsões alimentares, acompanhados de comportamentos compensatórios inadequados, tais como vômitos auto-induzidos, uso inadequado de laxantes e diuréticos, jejuns ou exercícios físicos excessivos sem que se evidencie uma perda de peso tão significativa como ocorre na anorexia.

Geralmente, há um grande temor em ganhar peso, assim como uma perturbação na percepção da forma e do peso corporal. Observa-se uma autocrítica em relação ao corpo muito severa, freqüentemente acompanhada do sentimento de falta de controle experimentado por esses indivíduos diante da compulsão alimentar e dos comportamentos compensatórios decorrentes.

Apesar de atualmente ocorrer um aumento dos transtornos alimentares em homens, tanto a bulimia quanto a anorexia ainda são consideradas patologias tipicamente femininas.

Muito se tem escrito sobre a bulimia, mas podemos notar que com maior freqüência se apresentam estudos dos comportamentos observáveis, em detrimento do interesse pelos significados que estes adquirem dependendo da dinâmica do funcionamento psíquico do sujeito.

Reconhecemos assim a necessidade não só de identificar e agir sobre os comportamentos alimentares e seus efeitos, mas pela busca de uma compreensão individual, levando-se em conta a forma como os processos psíquicos estão estruturados, isto é, a personalidade e a história de vida de quem sofre.

Do vocábulo grego boulimia, a palavra bulimia significa “fome devorante”. Derivada do adjetivo boulinos, formado pelo prefixo bou, que significa boi e de limos, que significa fome, significa literalmente “fome de boi”. Tipicamente, a bulimia se caracteriza pela ingestão impulsiva e voraz, geralmente às escondidas de uma grande quantidade de alimento que são com freqüência de fácil ingestão e hipercalóricos. Os fatores desencadeantes desses acessos são diversos, mas geralmente relacionam-se com sentimentos de solidão ou fracasso ou ao contrário à excitação e prazer. É clara a consciência por parte de quem sofre de que se trata de uma patologia pois estes episódios são relatados como algo impossível de se controlar.

A bulimia é uma patologia que sempre existiu, ou está ligada às mudanças culturais da atualidade? Essa é uma pergunta pertinente pois recentemente a bulimia vem recebendo a atenção em novelas e noticiários.

Embora a bulimia tenha começado a aumentar a partir da década de 1950, foi principalmente nas décadas de 1970 e 1980 que se registram um aumento maior desses casos. Observa-se claramente um aumento dos casos de transtornos alimentares nesses últimos anos e as transformações ocorridas no modo de vida dos indivíduos e nas relações intrafamiliares. A função cotidiana de manter discussões sociais em torno do ato de se alimentar tem perdido espaço cada vez mais para o estilo fast food, de comer rápido e solitariamente.

Uma pessoa pode estar desenvolvendo esta doença por sugestão da mídia que valoriza o padrão de beleza magro?
A discussão da relação entre os transtornos alimentares e cultura se dá na medida em que os ideais de magreza vêm sendo assumidos como uma medida de beleza e de valor pessoal. Ser magro tornou-se um pré-requisito para ser aceito em determinados grupos e ser reconhecido como alguém “legal”. Embora a aparência física sempre esteja presente como um elemento importante considerado pela mulher, a magreza nem sempre foi um status a ser perseguido. É nas últimas décadas que a exigência de magreza parece se intensificar e a imagem do corpo ideal começa a centrar-se na imagem de um corpo adolescente, quase infantil, magro, de formas menos arredondadas.

Esse ideal de corpo muito divulgado pela mídia atinge todas as classes sociais e parece também integrar o anúncio da roupa, da viagem, como parte de um determinado “estilo de vida” a ser consumido.

No entanto, não podemos deixar de apontar as diferenças entre os fatores que são causadores dos fatores mantenedores ou mesmo desencadeadores de uma patologia.

Assim, apesar de haver um consenso de que os aspectos socioculturais tenham um papel significativo no aparecimento da bulimia, acreditamos que os indivíduos são atingidos de maneira particular pelos veículos de comunicação e apenas uma pequena parte deles desenvolverá tal problemática.


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“Provas e concursos: dificuldades para enfrentar situações de teste”


Situações que envolvem testes, provas e concursos costumam ser acompanhadas por muita ansiedade. Frente a avaliações nos questionamos a respeito de nossa capacidade e ficamos preocupados com o que os outros vão pensar sobre o nosso desempenho. Sentir-se nervoso, ansioso, ter medo, não conseguir dormir direito perto da data de uma prova (ou de uma entrevista para trabalho) são reações normais.

No entanto, quando tais emoções são intensas demais – quando paralisam a pessoa, prejudicam radicalmente o desempenho final ("dar branco", por exemplo), quando há a convicção de que se é incapaz ou ocorrem muitas somatizações (dores de cabeça, doenças diversas) - podem sinalizar a necessidade de um tratamento analítico.

Uma criança ou adolescente, por exemplo, que não consegue se sair bem nas provas escolares, mesmo quando sabe a matéria, demonstra que está com uma dificuldade emocional, que não tem relação com uma incapacidade. Os motivos que levam a tal dificuldade podem ser diversos e referir-se a situações concretas ou a fantasias. Entre eles, podemos destacar: o lugar em que é colocado pela família a importância dos testes; se a criança entende que só terá valor se tirar uma nota extremamente alta; se possui uma baixa auto-estima; se teme rivalizar com colegas ou irmãos; se consegue atenção apenas pelo baixo desempenho escolar.

Tais dificuldades acometem também os adultos. Algumas pessoas ficam extremamente paralisadas quando estão em situações que podem representar a realização de um desejo como, por exemplo, conseguir um emprego. Assim, numa entrevista de emprego, mesmo tendo o perfil para o cargo, acontece de não conseguirem se sair bem e acabam passando uma impressão de muita insegurança e de que sabem bem menos. É como se o inconsciente delas, por algum motivo, as sabotassem sempre que se aproximam de um desejo.

O contrário também pode acontecer. Existem pessoas que não conseguem admitir que não desejam a profissão que escolheram ou que não querem determinado emprego, mas que por pressões sociais e até mesmo por exigências pessoais acabam se submetendo a situações de teste pelos quais, no fundo, não desejam passar e por isso, não alcançam bons resultados. Pode ser o caso, por exemplo, de um jovem que escolheu advocacia porque seu pai desejava e não por uma vontade própria. Logo, quando se submete ao exame da OAB, por mais que estude, não consegue passar. Um outro exemplo é o de uma mãe, que acabou de ter filho e que pode se “sabotar” na conquista de um emprego (por exemplo, se atrasando muito para a entrevista na empresa), já que no fundo não deseja trabalhar e sim curtir seu bebê.

Dessa forma, percebemos que muitas são as situações que envolvem uma dificuldade com testes (as situações descritas são apenas alguns exemplos entre inúmeros que podem existir). O importante é ficar atento às repetições. Se a dificuldade aparece constantemente, em vários momentos, é recomendado que se procure um analista.


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"Não consigo namorar, tem algum problema comigo?"


Fotos:Danielle Sandrini

A dificuldade para arrumar um namorado tem sido uma queixa bastante freqüente de muitas pessoas, homens e mulheres.

Seria este um problema relacionado aos valores de nossa sociedade? Esta pergunta é bastante pertinente.

Vivemos num momento em que existe uma intensa valorização pelo consumo, um encanto pelo novo, pela completude e as relações amorosas parecem entrar neste ideal. Neste sentido, troca-se de parceiros com muita freqüência, como se troca de roupa, de carro... As pessoas, muitas vezes, são tratadas como objetos descartáveis e frente às primeiras dificuldades, rompe-se um relacionamento, como se existisse a crença de que existe, de fato, um “príncipe encantado” (ou princesa), alguém que pudesse satisfazer plenamente todos os desejos do outro. Além disso, procura-se, muitas vezes, a satisfação sexual imediata e sentimentos como “amor” parecem ter pouca importância.

Este ideal de completude, sem dúvida, afeta intensamente as relações amorosas, no entanto, não podemos deixar de lado a particularidade de cada caso. Caso contrário, corremos o risco de cair nos ditos estereotipados como o famoso “nenhum homem presta” ou “as mulheres só querem namorados com dinheiro”. Tais ditos paralisam a pessoa e a impedem de se questionar com relação ao que lhe acontece, já que ela fica como “vítima do mundo”.

Questões da história de vida influenciam diretamente na forma pela qual estabelecemos nossas relações. A referência familiar aparece como um fator bastante relevante. Assim, é muito freqüente que as histórias familiares, por motivos inconscientes, se repitam nas gerações. Quem nunca ouviu histórias como, por exemplo, alguém que se casa sempre com alcoólatras como seu pai? Ou uma adolescente que engravida com 16 anos assim como aconteceu com sua mãe? Ou ainda alguém que é sempre traído?

As características pessoais, tais como questões da personalidade, conflitos emocionais, estão entre os aspectos de maior importância. Encontramos pessoas que tem muita dificuldade de contato social, que se isolam, não tem amigos, que são muito tímidas, inseguras. Nestes casos o encontro com o outro fica muito difícil. Também existem pessoas que, por diversos motivos, não conseguem se valorizar numa relação, se oferecendo como objeto para o outro, ou seja, aceitando passivamente o que o parceiro faz ou deixa de fazer.

Enfim, a dificuldade em estabelecer um vínculo amoroso saudável pode representar um sintoma psíquico, que ultrapassa as questões de nossa sociedade e que merece uma escuta analítica. Assim, nesses casos, a ida a um psicanalista oferece um espaço de escuta das questões inconscientes que impedem um encontro amoroso.


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"Drogas – Quais os sinais de dependência química?"


Drogas são substâncias químicas que são utilizadas com o objetivo de se obter diferentes sensações, podendo ter a função de tranqüilizar, excitar e de provocar prazer. Além disso, também pode propiciar alterações e mudanças no grau de consciência e no estado emocional. Por exemplo, a pessoa pode buscar a droga para se sentir mais desinibida, mais corajosa ou mais agressiva, sua repercussão dependerá do tipo de substância utilizada e também das características pessoais do usuário e da situação em que é consumida. As drogas mais consumidas são: o cigarro, o álcool, os benzodiazepínicos (tranquilizantes) e a maconha. Existem outras substâncias como a cocaína, a heroína, o crack e as pílulas como o ecstasy, que são acessadas por muitas pessoas também.

 O consumo de drogas tem aumentado rapidamente e tem atingido cada vez mais a população em geral, não apresentando interdependência com a classe social e gênero.

Dentre os fatores que tem preocupado os pais e os profissionais que lidam com jovens, encontra-se um aspecto que merece bastante atenção: o uso em crianças e pré-adolescentes, que tem um acesso precoce às drogas consideradas ilícitas.

Na clínica da drogadição ou dependência química, podemos perceber que a gravidade do caso dependerá do valor que é atribuído, pelo usuário, à droga, ou seja, quanto mais dependência tiver, a pessoa poderá ter mais comprometimento na qualidade de vida.

Desse modo, aquele que coloca a droga como algo que proporciona, mesmo que momentaneamente, uma sensação de completude, de poder e de potência, independente de suas atitudes, corre um grande risco de se tornar adicto.

Quando a pessoa e a família devem se preocupar?  O dependente não se reconhece como tal, em seu discurso é freqüente escutar que basta querer para poder parar. No entanto, não é simples parar, pois o prazer momentâneo obtido pelos efeitos da droga, não proporciona a sensação de prejuízo, mas de satisfação. Quanto à família, deve sempre ter um canal aberto de comunicação, pois de algum modo, quando algum familiar está usando a droga, ele expressa suas dificuldades, pois quem usa não o faz sem seus motivos. Dessa forma, a drogadição pode estar encobrindo uma depressão, uma baixa auto-estima, medos e outros sentimentos.

Sobre o uso, podemos separar em duas vertentes: o uso circunstancial e o abuso. Na primeira situação, a pessoa usa a droga, pois esta faz parte de seu circuito de socialização, ou seja, o grupo em que a pessoa faz parte facilita e favorece o acesso à substância, essa situação é bastante comum em festas, “baladas”, etc., mas não ocupa o centro da vida do indivíduo. Nesse caso, a pessoa mantém o curso de sua vida, trabalhando, estudando, sem prejuízos em sua sociabilidade. No caso da utilização abusiva, a pessoa tem seus interesses voltados à droga, por exemplo, trabalha para comprar droga, é comum mentir, furtar, tem uma mudança brusca em seus comportamentos, em seus hábitos, passa a se desinteressar das atividades as quais atribuía importância e suas relações na vida ficam permeadas pela droga (a pessoa se aproxima daqueles que usam a substância de seu interesse).

Diante da última situação, a pessoa necessita de tratamento, que deve estar baseado na personalidade e na subjetividade e não no sintoma de dependência. Por que? Focar o atendimento no abuso de drogas reforça, mais uma vez, sua importância na vida do sujeito. O que se busca no atendimento psicanalítico é a forma como a pessoa se responsabiliza pelas suas escolhas, visando o questionamento das motivações inconscientes que a levam a ter esse sintoma – a drogadição.


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"Preciso trabalhar e agora? Qual é o melhor lugar para o meu bebê?"


Foto de Danielle Sandrini

A convivência da mãe com seu bebê, os cuidados e a relação estabelecida são muito importantes para o seu desenvolvimento. Quanto mais disponibilidade a mãe tiver, melhor para a criança, que no início aproveita mais quando recebe uma atenção individualizada.

No entanto, hoje em dia a maioria das mães precisa trabalhar, tanto por necessidade, independência financeira quanto realização profissional e chega o momento de transferir parte desses cuidados a outra pessoa ou instituição. Esse é um momento delicado, que gera dúvidas e insegurança a respeito de onde deixar o bebê ou a criança pequena.

Uma escolha cuidadosa é fundamental para a mãe se sentir segura e garantir um local adequado para que o bebê fique bem e se desenvolva de maneira integral.
Se a escolha for por uma escolinha ou centro de educação infantil, seguem-se algumas dicas. Observar:

• o espaço físico da instituição (limpeza, ventilação e iluminação);
• os equipamentos, brinquedos apropriados à idade e a acessibilidade destes às crianças;
• o número de educadoras por grupo de crianças. Quanto menor a criança, mais atenção ela precisa. O bebê precisa de atenção individualizada, de pessoas afetivas e disponíveis para conhecê-lo e reconhecerem suas necessidades. Além disso, a presença constante da educadora e o ambiente estável garantem ao bebê a confiança necessária para um bom desenvolvimento. Prefira locais em que não haja muitas trocas de educadoras e que elas acompanhem a criança por um período mais longo de tempo;
• período de adaptação flexível com acompanhamento de um dos pais que respeite o ritmo de cada criança. Esse é um período importante para os pais avaliarem a instituição e sentirem-se seguros, o que será transmitido para o seu bebê, que também requer um tempo para se acostumar com o ambiente e com as pessoas;
• a concepção de criança e a proposta de educação precisam estar de acordo com os ideais e valores dos pais, para possibilitar uma maior integração da família com a escola, havendo mais entrosamento no modo de educar.

Se a escolha for deixar a criança em casa com uma babá, é importante analisar as características da pessoa, referências, estabelecer rotinas que também incluam brincadeiras e atividades, além de acompanhar o trabalho durante algum tempo antes de se ausentar. Nesse caso, quando a criança tiver aproximadamente três anos, ela deve começar a freqüentar uma escola para conviver com outras crianças.

As mães devem ainda lembrar que vai sobrar um tempo de convivência com o bebê que pode ser bem aproveitado com conversas e brincadeiras. Mais importante que o número de horas passadas em conjunto é a qualidade desse período que fará diferença, mantendo as mães e seus bebês em sintonia.

No caso da criança demorar muito para se adaptar ou a mãe continuar muito ansiosa ou frustrada com a separação da criança, sugere-se consultar um profissional especializado.


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"Anorexia: fome de nada?"


Anorexia é um distúrbio caracterizado por uma dieta alimentar insuficiente que leva a baixo peso corporal (aproximadamente 85% menos que o nível normal), alteração da imagem corporal (a pessoa acha que tem um peso maior), medo de engordar, recusa a se alimentar e alterações físicas como amenorréia, anemia e osteoporose.

Em alguns casos, a pessoa se utiliza de outros recursos, além da dieta, para perder peso, entre os quais se destacam a auto-indução de vômito, o uso indevido de laxantes ou diuréticos e a prática excessiva de exercícios.

A anorexia é mais freqüente em mulheres jovens, porém, pode estar presente no sexo masculino, em outras idades, inclusive em crianças e até mesmo em bebês.

Na literatura médica e psicanalítica encontramos explicações diversas no que se refere à etiologia deste distúrbio, mas, na maioria das vezes, há uma explicação multifatorial, envolvendo aspectos sociais, fisiológicos e psicológicos.

Freqüentemente, escutamos na mídia que a causa da anorexia está no estereótipo social de magreza. No entanto, acreditamos que o fator socio-cultural é importante, mas não justifica a origem do distúrbio (se fosse unicamente por estes aspectos todos sofreríamos de anorexia). O distúrbio envolve fatores mais complexos e entre eles destacamos questões da dinâmica familiar que o anoréxico parece "denunciar" com seus sintomas.

O alimento está presente desde o início das relações da criança com o outro, permeando as relações afetivas. Assim, por exemplo, encontramos mães que respondem ao pedido de amor da criança dando alimento o tempo todo. A criança, então, poderá apresentar anorexia como uma forma de dizer que não é o alimento que ela quer.

É importante ressaltar que se trata de um mecanismo inconsciente, tanto no que diz respeito ao comportamento da mãe, como da criança ou jovem.

O tratamento envolve uma escuta analítica do paciente, assim como de sua família. Como a anorexia nervosa pode levar à morte (o baixo peso corporal leva a alterações orgânicas e metabólicas e desequilíbrio eletrolítico), nos casos mais graves, um acompanhamento médico e internação são necessários.

A negação do distúrbio é freqüente e, por este motivo, é importante que os familiares se responsabilizem pelo tratamento, não esperando passivamente que a pessoa peça ajuda, uma vez que há vários riscos envolvidos.


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n/d

"O adolescente: criança grande ou jovem adulto?"


Freqüentemente os pais de adolescentes trazem a seguinte questão: até que ponto devem interferir no comportamento dos seus filhos? Na colocação de limites?
Esta pergunta denuncia o quanto a adolescência é enigmática, tanto para os pais como para o próprio adolescente. Afinal, ele pode se responsabilizar por seus atos? Saber o que é melhor para si?

A adolescência caracteriza-se por ser um momento de passagem. O que foi adquirido ao longo da primeira infância é revisto, questionado. Assim, o adolescente questiona suas origens, aquilo que lhe foi transmitido enquanto valores, regras, idéias etc.

Tais questionamentos não significam um pedido do adolescente para que os pais deixem de cuidá-lo. Não se trata disso. Pelo contrário, para que o jovem possa se dirigir rumo à independência e vida adulta, ele precisa encontrar um lugar onde essas questões possam surgir, mas, ao mesmo tempo, o ambiente familiar deve oferecer referências e não deixá-lo solto.

Muitas vezes, os pais sentem tais questionamentos como ofensas, dúvidas com relação ao amor de seu filho por eles e se isentam de escutá-los, pois isto se torna muito dolorido.

Quando um adolescente não encontra um ambiente que suporte tais movimentos, corre o risco de procurar as respostas a tais questões em lugares nem sempre seguros e o que fica impresso é um grande desamparo, onde o jovem pode colocar-se em risco.


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"Meu filho passou a sujar-se com pequena quantidade de fezes na roupa: o que pode estar acontecendo?"


Foto de Danielle Sandrini

A constipação ou a dificuldade de evacuação que leva à retenção de fezes no intestino terminal favorece este tipo de manifestação.

As constipações podem ser agudas e crônicas, com ou sem soiling ou encoprese.
Chama-se “soiling” à perda contínua ou intermitente de fezes líquidas ou semipastosas na roupa do paciente, sem que o mesmo perceba. Isto ocorre devido ao “transbordamento” de fezes amolecidas provocado pela irritação da mucosa intestinal.

A encoprese, por sua vez, consiste na eliminação de fezes com características normais através do ato evacuatório na roupa e em lugares inadequados.
As causas são múltiplas, orgânicas e funcionais, sendo a mais freqüente a alimentar.

É importante salientar que uma criança aos 3 anos já deve ser capaz de controlar seus esfíncteres.

Na clínica temos recebido com muita freqüência crianças que apresentam encoprese de fundo emocional. Muitas vezes, os pais têm muitas dificuldades para lidar com este sintoma. Alguns acreditam que a criança (ou adolescente) evacua na calça por birra ou malcriação e por isso, acabam brigando com o filho, mas não conseguem melhora. Também ficam muito preocupados, já que a encoprese acaba atrapalhando a vida social da criança, uma vez que esta é, muitas vezes, ironizada e estigmatizada por colegas.

Cada caso deve ser cuidadosamente analisado tanto do ponto de vista médico como do ponto de vista emocional. Em caso de dúvida, não deixe de procurar um profissional.


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"Até que idade é normal a criança urinar na cama? Toda perda urinária é enurese? A enurese é sempre emocional?"


A perda urinária à noite, durante o sono, é chamada de enurese.

A criança normalmente vai adquirindo controle urinário com ajuda dos pais e ou cuidadores, em torno do terceiro ano de vida. Este controle ocorre de forma gradual e por isso, é comum que a criança ainda urine na cama em alguns dias até que finalmente, isto não mais ocorra.

No entanto, algumas vezes o controle urinário pode ocorrer tardiamente, aos sete, oito ou mais anos. Quando isto acontece é sinal de que alguma coisa não está bem com a criança, já que está apresentando um sintoma, denominado na medicina, de enurese.

A enurese pode ser de dois tipos: primária – quando a criança nunca adquiriu o controle e secundária – quando a criança adquiriu o controle mas volta a apresentar perdas, freqüentes ou não.

Após o quarto ano de vida deve-se dar atenção especial no sentido de diagnosticar eventual causa orgânica da enurese, principalmente se esta for primária.

Na clínica observa-se muitas alterações do padrão urinário relacionadas a respostas emocionais da criança a mudanças ambientais e/ou familiares. Assim, uma criança pode voltar a urinar na cama por um curto período, como resposta a um momento de tensão como, por exemplo, nascimento de um irmão, separação dos pais, mudança de escola.

Os pais devem estar atentos caso o sintoma persista por mais de uma semana ou se a criança, mesmo que não em todos os dias, urine na cama com freqüência. A presença de outros sintomas também pode ser indicadora da necessidade de tratamento.
Nestes casos, é preciso encaminhá-la para um especialista, que investigará se há causas orgânicas e/ou emocionais que estejam favorecendo o aparecimento do sintoma.


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"Uma criança pode ser analisada? E o adolescente?"



Uma criança pode ser analisada? E o adolescente?

Sim. O trabalho de análise não é restrito ao adulto. Crianças e adolescentes se beneficiam muito de uma escuta analítica.

Podemos dizer que, neste tipo de análise, o objetivo é o mesmo que o trabalho com adultos: buscar a origem das dificuldades emocionais que, de diversas formas, trazem sofrimentos e conflitos, que inibem a pessoa a levar a vida de acordo com suas potencialidades e desejos.

No entanto, o trabalho com crianças e adolescentes apresenta algumas particularidades quanto às técnicas utilizadas.

No caso da criança e de alguns adolescentes, além da fala, utilizamos recursos que facilitam a comunicação, como desenhos, brinquedos e jogos, já que estes fazem parte do universo infantil (a criança está familiarizada com estes instrumentos) e funcionam também como linguagem, como uma forma de expressar os conteúdos inconscientes.

Uma outra diferença fundamental com relação ao trabalho do adulto, que vai sozinho ao analista, é o fato de que, na análise de crianças e adolescentes, os pais (ou responsáveis) também participam do tratamento.
Eles são escutados durante todo o tratamento. Em alguns momentos, de forma mais intensa e em outros, mais esporádica. Nas conversas com o profissional, relatam suas queixas, preocupações e dificuldades com relação ao filho.

O analista, muitas vezes, também solicita algumas conversas com os pais nas quais pode obter dados importantes da história da criança (ou adolescente) que são fundamentais para compor o trabalho. A presença dos pais é importante uma vez que a Psicanálise considera que há uma importante relação entre o sintoma da criança e a dinâmica familiar.

De modo geral, a análise possibilita à pessoa se posicionar diante do que a faz sofrer e lutar pelo que deseja.


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"O intenso sofrimento do fóbico"



Foto de Danielle Sandrini

A fobia pode ser considerada como um estado de medo intenso e irracional diante de situações que não apresentam perigo real. Ela vem acompanhada de angústia e, em casos mais graves, as pessoas acometidas podem ter uma existência aterrorizante, pobre e extremamente limitante.

A fobia atinge todas as idades e gêneros. Vemos na clínica diversas situações, crianças terem medo de cachorro, executivos não pegarem avião, mulheres não sairem de casa, pessoas que não conseguem entrar em elevador.

Os tipos de fobias podem ser variados, tais como: agorafobia, fobia social e fobias específicas. Na agorafobia, a pessoa sente medo generalizado de lugares abertos (como praças, shows, ruas) não conseguindo sair de casa desacompanhada. Na fobia social, a pessoa sente-se constrangida de aparecer, estar e falar em público, teme a avaliação dos outros e tem receio de estabelecer contatos sociais, manifestando diversos comportamentos de esquiva e tendendo ao isolamento como recurso para evitar o mal-estar. Nas fobias específicas, como o próprio nome diz, existe o medo de determinado objeto: insetos, cachorro, escuro, pegar avião, medo de elevador. O objeto fóbico – aquilo que se evita ou que se teme, é um modo de defesa diante de um conflito com o qual o sujeito não está conseguindo lidar.

O sintoma fóbico manifesta-se através de sensações descritas pelos pacientes como: desvanecimento, apagamento, angústia paralisante, “dar branco”, taquicardia, falta de ar, sensação de desmaio, intensa sudorese, tremores, medo. Muitas vezes, tais sintomas acabam restringindo as relações do sujeito diante do mundo.

Os pacientes descrevem tal estado como morte em condição latente, mantida pela angústia, podendo ser difícil nomeá-la.

Para a Psicanálise, o sintoma é uma importante via de expressão de sofrimento, podendo ser lido como um pedido de ajuda, como um enigma a ser desvendado.

O tratamento psicanalitico, no qual a pessoa pode identificar e relacionar seus medos e conflitos à sua história de vida, é uma das formas da fobia ser abordada e tratada.


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"As mudanças de comportamento do meu filho são típicas da adolescência ou ele precisa de tratamento?"


A adolescência é um momento fundamental da vida, caracterizada por um processo de mudança corporal e psíquica, onde o jovem terá que elaborar o luto do corpo infantil e preparar-se para a inserção no universo do adulto.

As alterações corporais advindas da puberdade trazem, freqüentemente, um sentimento de estranheza com relação ao próprio corpo. Assim, quase que de uma hora para outra, o jovem passa a apresentar características corporais que se assemelham cada vez mais ao corpo do adulto, tais como o nascimento de pêlos, crescimento dos seios e menarca no caso da menina, presença de barba, alteração da voz e ejaculação nos meninos.
No entanto, as alterações corporais não lhe garantem uma identidade no mundo adulto.

O adolescente não passa apenas por mudanças em seu corpo, nesta etapa da vida. As mudanças psíquicas estão bastantes presentes e fazem-se importantes.

É neste período que o jovem questionará sua identidade e uma série de valores que até então pareciam certos. Assim, por exemplo, a criança que tinha como modelos ideais seus pais (já que os via, na maioria das vezes, como “perfeitos”) passa a perceber que estes têm falhas e que não concorda com tudo que eles pensam e acreditam. É aí que, na tentativa de diferenciar-se destes e encontrar seus próprios referenciais, que surgem as brigas e discussões tão freqüentes nesta etapa da vida.

Os conflitos com os pais também são conseqüência do sentimento de ausência de lugar que o adolescente vivencia. Os pais, como representantes da sociedade, assim como outras pessoas de seu círculo social, não o autoriza mais a ser criança, mas também não o reconhece como adulto. O adolescente, por exemplo, é convocado a escolher uma profissão, mais ainda não lhe é permitido que se case ou tenha filhos. Esta ausência de lugar é bastante confusa, tanto para o próprio jovem, quanto para sua família.

Frente à angústia de não saber o que é, o jovem procurará um jeito de encontrar um reconhecimento de sua identidade. É aí que surgem os grupos, que os adolescentes, costumeiramente, se inserem e que lhe fornecem uma série de referenciais e reconhecimento. Daí a importância de se vestirem iguais, de terem os mesmos gostos musicais etc.

A experimentação de drogas e bebidas alcoólicas também pode aparecer como um comportamento transitório, não necessariamente patológico, e que vem ao encontro da tentativa de responder “quem sou”.

No entanto, os pais devem ficar atentos caso as características mencionadas acima aparecerem em excesso (uso abusivo ou freqüente de drogas, por exemplo, ou a presença de outros sintomas) e até mesmo se os comportamentos adolescentes estiverem ausentes, como pode ser o caso de um adolescente que não forma grupos, que se isola, que jamais questiona seus pais ou figuras de autoridade. Nestes casos, pode ser importante a consulta a um profissional da área para saber se o adolescente precisa de ajuda.


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“Tenho várias manias, já ouvi dizer que pode ser Toc. Será que tenho isso?”


Foto: Danielle Sandrini

Toc (transtorno obsessivo compulsivo) é uma nomenclatura utilizada pela psiquiatria (DSM- IV) e que se refere a um transtorno mental (está incluído nos transtornos de ansiedade). As principais características são as alterações do comportamento (como rituais e repetições) e dos pensamentos (dúvidas, excesso de preocupações), além de sentimentos como medo, culpa e depressão.

Dentre as manifestações mais comuns encontramos a preocupação excessiva com limpeza (a pessoa, por exemplo, lava as mãos várias vezes, não consegue parar de limpar a casa), medo de contaminação, necessidade de checar se fez algo corretamente (conferir a porta inúmeras vezes, por exemplo), compulsões mentais (repetir frases, palavras, rezas), preocupação excessiva com doença, entre outros.

A presença dos sintomas descritos acima pode ser indicativa desta patologia, mas cuidado, grande parte das características do TOC está presente na maioria das pessoas, embora em grau e intensidade menores. O importante é procurar um especialista que possa fazer um diagnóstico com maior precisão e indicar um tratamento adequado.

Na maioria das vezes, a análise é recomendada por ser um espaço de escuta essencial com relação às questões inconscientes relacionadas ao aparecimento e manutenção dos sintomas.

Quando o quadro está muito incapacitante para a pessoa (em função da intensidade dos sintomas) a indicação de medicação pode ser necessária, mas lembre-se: os remédios trazem alívio para o mal estar, mas não tratam a causa, a origem do sofrimento.

A presença de sintomas que nos causam desconforto, independentemente do diagnóstico, é um pedido de ajuda, sinal de angústia, de conflito que precisa ser escutado.


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“Meu filho não quer ir para a escola. O que faço?”


A dificuldade em ir para a escola pode referir-se a várias coisas, pode ser um medo natural, um sintoma transitório e até mesmo um sinal de que algo mais sério está acontecendo com a criança.

É natural que crianças novas, principalmente em seus primeiros dias na escola, fiquem inseguras para entrar no colégio. Na verdade, este medo pode representar um movimento saudável, indicando que a criança já constituiu uma identidade de si, sabendo diferenciar-se do outro. É esperado que as crianças pequenas estranhem as pessoas que não conhecem e sintam-se inseguras ao se afastarem do ambiente familiar pelas primeiras vezes. É justamente por este motivo que, atualmente, muitas escolas oferecem um momento de adaptação, onde a criança vai para a escola junto com sua mãe (ou responsável) e a separação ocorre gradualmente com o passar dos dias.

Cabe salientar, que a ida da criança para a escola, muitas vezes, também é difícil para a mãe que, naturalmente, tem receios de deixar seu filho longe de seus cuidados. Neste sentido, é importante estar atento ao fato de que o medo da criança pode ser porta voz das inseguranças da própria mãe. Por este motivo, seria importante que ela trabalhe seus receios, conversando com seu companheiro, com profissionais da escola e outras pessoas de seu círculo social. Caso continue muito insegura, a ajuda de um profissional pode ser útil, já que sua insegurança pode representar uma série de outros conflitos e problemáticas de sua história pessoal que são deslocadas para a dificuldade da criança.

No entanto, se o medo aparece depois da criança já ter apresentado uma adaptação na escola e se já freqüenta o colégio há mais tempo, o medo é um sinal de que algo não vai bem. Pode tratar-se de um sintoma transitório, em função de algum conflito vivido no ambiente escolar (por exemplo, briga com um amigo) ou em casa, e que é deslocado para a escola. É fundamental conversar com a criança para saber o que está acontecendo e se for preciso, com os responsáveis da escola. Caso seja localizado algum problema na dinâmica familiar (como conflitos do casal, depressão de um dos pais) é importante avaliar se as dificuldades são transitórias ou se são situações mais crônicas, que se repetem com frequencia e que, por isso, também apontam para a necessidade da ajuda de um profissional para outros membros da família.

É importante observar também, se a criança, além da dificuldade em ir ao colégio, não está apresentando outros sintomas, como medos variados, dificuldade em ficar só (dormir sozinha, por exemplo), problemas com a alimentação, enurese, dedo na boca, alterações da linguagem, entre outros.

Se a criança, mesmo após um período de adaptação, não consegue ir à escola, é necessário procurar a ajuda de um profissional, que pode investigar se algo mais sério está acontecendo e que justifique a necessidade de um tratamento.


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"Depressão e tristeza são sinônimos?"



Foto de Danielle Sandrini

Na sociedade atual, influenciada pelo ideal do bem-estar, podemos perceber uma confusão significativa entre tristeza e depressão.

A tristeza é um sentimento que faz parte de nossa condição humana, sendo importante vivenciá-la; é através dela que entramos em contato com situações frustrantes e experiências dolorosas que a vida nos apresenta.

É importante não interpretar a tristeza como um fracasso ou fragilidade, ela é uma expressão necessária em muitos momentos da vida e, quando pode ser vivenciada, permite a elaboração de alguns conflitos e superação da crise.

No caso da depressão, devemos nos preocupar, pois é um estado de humor que tende a paralisar a pessoa, podendo vir acompanhada de vários sintomas: diminuição do prazer, alterações no sono (insônia ou hipersonia), dificuldade de manter a atenção, apatia, alterações no apetite, choro constante, isolamento social, dificuldade para trabalhar, impossibilidade de ir à escola.

Os pacientes acometidos pela depressão referem também uma dificuldade na realização de atividades diárias, que são, por vezes, simples (como cuidar da casa, tomar banho).

O grau desta falta de disposição, a variação dos sintomas e a freqüência definem a gravidade do caso. Na extremidade da depressão estão aqueles que expressam pensamentos, idéias e atos suicidas representando os mais preocupantes.

No entanto, mesmo quando os sintomas não são severos, sem risco de morte para a pessoa, os sujeitos também podem precisar de tratamento psicanalítico.

A depressão pode ser tratada através de análise e, em casos mais graves, a medicação pode ser importante até que os sintomas tornem-se menos intensos e impeditivos para a pessoa.


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"O que é análise?"



O que leva alguém a procurar análise?

Não existe um único motivo que justifique a procura de tratamento psicanalítico. A ida a uma análise pode ser motivada por angústia, sintomas variados, doenças psicossomáticas, tristeza, depressão, pela necessidade de mudança de vida.

Mas, afinal, o que é uma análise? Como funciona? No que pode ajudar?

Durante a análise, a pessoa diz o que lhe vier à cabeça (fala, relata sonhos, fantasias, temores) e o analista, por meio de pontuações e interpretações, a auxilia a identificar as questões ocultas (inconscientes) que causam seu sofrimento. Desta forma, busca o sentido dos conflitos e sintomas que o paciente apresenta e também o ajuda a saber a respeito de seus desejos e, assim, a conquistá-los.

Mas se o analista só escuta, qual é a diferença entre análise e uma conversa com um amigo?

O psicanalista é um profissional que se especializou na escuta do inconsciente e, portanto, trabalha fundamentado em uma teoria e técnica e não baseado em opiniões e valores pessoais. A análise não passa por uma questão moral e não visa dar conselhos como fazem os amigos.

Cabe salientar, que é fundamental que o analisante se implique na análise, adotando uma postura ativa na conquista do conhecimento sobre si mesmo, já que ele é parte essencial do processo analítico.


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"Afinal, o que é hiperatividade?"




Atualmente muito se têm falado sobre hiperatividade, entretanto, o conhecimento que temos a respeito disso ainda é restrito e há muitas controvérsias com relação ao diagnóstico e tratamento. Num extremo, temos a hiperatividade tratada como uma doença de causa orgânica e de outro lado, encontramos a concepção de que a origem está na educação, na "incompetência" dos pais ao colocarem limites aos filhos.

O Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) é descrito pela Medicina como uma doença que se caracteriza por sinais de desatenção, inquietude e impulsividade, que podem ser brandos ou graves e podem incluir problemas de linguagem, memória e habilidades motoras.

Como conseqüência destes sintomas, muitas dessas crianças apresentam dificuldades escolares, já que permanecem muito desatentas durante as aulas, não conseguindo parar quietas. A agitação motora é presente em todos os ambientes, a criança tem muita dificuldade em concentrar-se (até mesmo para assistir a um programa de televisão) e movimenta-se o tempo todo, fazendo várias coisas ao mesmo tempo (muda de brincadeiras rapidamente, por exemplo).

Constata-se que muitas crianças têm sido diagnósticadas erroneamente como apresentando TDAH, o que acaba trazendo sérias conseqüências já que, na maioria dos casos, o tratamento fica centrado na remissão dos sintomas por meio de terapia medicamentosa, sem que a causa seja tratada.

É importante não generalizar, mas sim diagnosticar cada caso em sua singularidade. Uma agitação e falta de atenção, embora possam assemelhar-se muito à descrição de TDAH, nem sempre correspondem a este diagnóstico. Tais alterações de comportamento podem ter suas raízes em diversos fatores, tais como: depressão, angústia, fantasias conflituosas, características pessoais, dificuldades na dinâmica familiar.

Uma criança, por exemplo, por não conseguir expressar verbalmente seus conflitos e angústias, pode expressá-los através de um comportamento agitado ou na dificuldade em concentrar-se. A alteração de comportamento, assim, aparece numa tentativa de pedir ajuda, é um jeito da criança "dizer" que está sofrendo e que precisa ser escutada.

Cabe salientar que sintomas semelhantes podem estar presentes em diferentes diagnósticos, apresentando múltiplas causas. É por este motivo que o diagnóstico não deve ser realizado apenas a partir da sintomatologia e precisa ser efetuado por profissionais da área, de modo que o melhor tratamento seja encontrado.

Em nossa experiência clínica notamos que muitas crianças melhoram dos sintomas descritos acima com um trabalho de análise, quando conflitos psíquicos e questões da dinâmica familiar são trabalhados. Muitas vezes, o tratamento medicamentoso pode se evitado, o que achamos bastante importante, já que os remédios nem sempre são inofensivos e não tratam a origem do sintoma.


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