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Textos organizados pela equipe Palavra Escuta.

"Medicar uma criança?"


Cada vez mais encontramos crianças que usam medicamentos para controlar e eliminar seus sintomas emocionais e comportamentais.

Na minha prática clínica em uma instituição pública de referência no tratamento de crianças e adolescentes e no meu consultório particular, tenho me deparado com um número crescente de crianças que são medicadas a partir de diagnósticos mal feitos, baseados numa observação clínica extremamente superficial. Estes crianças quando encontram um espaço de escuta mais aprofundado, que trabalha suas questões subjetivas e que leva em consideração a dinâmica familiar, tendem a apresentar melhoras clínicas sem precisar de medicação.

Quando fazemos um diagnóstico clínico na infância precisamos levar em consideração alguns aspectos que ultrapassam a observação da fenomenologia.

A presença de um determinado sintoma pode ser indicativa de uma patologia, mas ela não é suficiente para estabelecer um diagnóstico, já que os sintomas infantis têm a particularidade de serem muito plásticos e transitórios, além de estarem ligados a questões subjetivas que se relacionam quase sempre à dinâmica familiar. Um mesmo sintoma pode surgir num desenvolvimento normal ou num quadro clínico.

A teoria psicanalítica oferece uma concepção de sintoma que ultrapassa o plano comportamental na medida em que lê o sintoma como uma espécie de linguagem cifrada que dá acesso aos conflitos inconscientes da criança, do casal e da família.

Vou dar aqui um pequeno fragmento clínico que ilustra a função inconsciente de um sintoma numa criança.

Trata-se de uma menina de 6 anos diagnosticada como hiperativa por não conseguir parar quieta e não se concentrar em tarefas simples como assistir televisão. Inicialmente, atendo esta menina junto com a mãe e observo que ela fica extremamente agitada, sendo incapaz de permanecer sentada.

Nas observações clínicas sem a presença da mãe observo, surpreendentemente, que a criança consegue permanecer sentada e tranqüila após uma pequena colocação de limites. Decido então, chamar novamente a mãe para que possa me falar um pouco de sua história.

Durante o relato de sua vida, chama a atenção o episódio que conta ter sido abusada sexualmente na infância e a justificativa que dá para que tal violência tenha ocorrido: “É que eu sempre fui muito quietinha e por isso ele mexeu comigo”.

A partir daí fica explicitado a fantasia materna: “ser quietinha é perigoso, quem é quieto é abusado sexualmente”. Após alguns meses em que pode ser trabalhado o sofrimento da mãe e sua fantasia, a criança foi se tranqüilizando e os sintomas de hiperatividade desapareceram: ela não precisou ficar mais angustiada com a angústia de sua mãe.

Este é um relato extremamente sucinto (o trabalho é mais amplo), mas que nos ajuda a pensar na complexidade das manifestações clínicas da infância.

Não me oponho radicalmente à medicalização de uma criança. No entanto, saliento a importância de sermos mais críticos a este fenômeno social que tem sido banalizado, como se o uso de remédios fosse inócuo. Além dos efeitos colaterais, muitas vezes sérios, a medicação pode encobrir um sintoma, impedindo um questionamento dos pais e da própria criança a respeito das questões emocionais que sustentam tal comportamento. Se estas questões não forem trabalhadas outros sintomas podem surgir no lugar do antigo.

Impedir algumas manifestações comportamentais e entendê-las como um sintoma que deve ser medicalizado pode impossibilitar um trabalho necessário à criança de elaboração de suas questões. Muitas vezes, a tarefa do clínico é a de autorizar este trabalho psíquico e não de calá-lo.


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“Algumas conseqüências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos” (1925) - resenha


Neste artigo Freud analisa o desenvolvimento psicológico das mulheres.

Ele enfatiza a obscuridade que envolve a vida sexual das mulheres, dizendo da dificuldade em responder à pergunta “O que quer uma mulher?”. Grande parte de seus textos como os Três Ensaios, a Teoria sexual infantil, foram baseados no estudo de crianças do sexo masculino.

Afirma que não há um paralelo, uma simetria entre os dois sexos. Ele encontra uma diferença no que diz respeito a uma distinção no menino e na menina com relação ao complexo de castração e de Édipo e no estabelecimento do superego.

Antes de a menina entrar no Édipo ela precisa passar por uma dupla mudança que envolve uma modificação em seu órgão sexual principal e em seu objeto sexual.

Ao observar que em ambos os sexos a mãe é o objeto de amor original, Freud se pergunta a respeito do processo que faria com que a menina abandonasse a mãe para tomar o pai como objeto de amor. “Nas meninas, o complexo de Édipo levanta um problema a mais que nos meninos” (p.280).

A percepção da diferença anatômica provoca reações diferentes em cada sexo. O menino, primeiramente, rejeita esta percepção e mais tarde, a vê como uma ameaça real de castração, que levará a um horror ou a um desprezo frente ao sexo feminino.

No caso da menina, a percepção da diferença assume um caminho diferente. Ela percebe uma castração já efetuada, observa que não tem o órgão masculino, mas quer tê-lo (caem vítimas da inveja do pênis).

Freud relata a formação de um complexo de masculinidade das mulheres que pode afetar o desenvolvimento da feminilidade (pode ir de uma persistência até a vida adulta do desejo de ter um pênis até uma rejeição psicótica da diferença anatômica, em que a mulher acredita que possui o órgão).

Freud descreve algumas conseqüências psíquicas da inveja do pênis. Em primeiro lugar cita o sentimento de inferioridade (desprezo com relação ao sexo feminino), em seguida fala do sentimento de ciúmes das mulheres (deslocamento de parte da inveja do pênis) e do afrouxamento da relação afetuosa da menina com sua mãe, em que a mãe é vista como responsável pela falta do pênis. A última conseqüência e segundo ele, a mais importante, seria o abandono da sexualidade clitoridiana, fundamental para o desenvolvimento da feminilidade (se afasta da masculinidade e da masturbação).

A menina abandona seu desejo de ter um pênis, sua libido desloca para o desejo de ter um filho do pai (equação pênis-criança), o que faz com que tome seu pai como objeto de amor e sua mãe como objeto de ciúmes. “Malogrando-se mais tarde e tendo de ser abandonada, a ligação da menina a seu pai pode ceder lugar a uma identificação com ele, e pode ser que assim a menina retorne a seu complexo de masculinidade e, talvez,permaneça fixada nele” (p.285).

Freud observa então, que, na menina, o complexo de Édipo é uma formação sexual secundária, já que há uma importância da ligação pré-edipiana da menina à sua mãe. Enquanto que nos meninos o Complexo de Édipo se dissolve a partir do complexo de castração, nas meninas, o complexo de castração precede e introduz o complexo de Édipo.

Nos meninos, portanto, o complexo de Édipo deixa de existir e o superego torna-se seu herdeiro. O mesmo não ocorre no caso das meninas, em que falta um motivo para a dissolução do Édipo. Freud afirma que no sexo feminino ele pode persistir com força na vida das mulheres normais e o superego não se torna tão independente da vida emocional como nos homens.

Freud finaliza seu texto afirmando a existência de uma disposição bissexual em ambos os sexos, de forma que a “masculinidade e a feminilidade puras permanecem sendo construções teóricas de conteúdo incerto” (p.286).

Freud, S.(1925) Recalque. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


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"Tem remédio?"


Na clínica o analista é constantemente colocado diante desta questão: tem remédio? O que fazer diante daquilo que não tem remédio?

O discurso médico foi socialmente incorporado como portador de uma verdade que coloca o ser humano e seu sofrimento como submetidos às leis da fisiologia e da biologia. Assim, percebe-se que as pessoas têm buscado, cada vez mais, soluções médicas para o que é do humano, que são as sensações, os pensamentos, as fantasias e o sofrimento. Desse modo, para a tristeza receita-se anti-depressivos, para as fobias os ansiolíticos.. Já a angústia passou a ser classificada como doença, “patologizando-se” o que é essencial ao humano, que é lidar com o que o inevitável das experiências, que demanda intenso trabalho pessoal. Quantas vezes escutamos: “perdi minha mãe e agora estou tomando anti-depressivos” em alusão ao luto das perdas que são vividas e que trazem sofrimento.

Nesse panorama, a psicoterapia passou a ser vista como mais uma especialidade: dos “problemas” emocionais. Os encaminhamentos chegam com o pedido: especialista em hiperatividade, depressão, ansiedade. Porém, a análise não pode ser exercida, nem deve ser considerada como uma (pois é exatamente como “especialidade”que ela não pode ser). A especialidade, porta um olhar que pode avaliar e julgar o que é normal e patológico. A psicanálise não trabalha neste campo.

Entretanto, é comum a quem sofre, querer se livrar rapidamente do mal-estar que o aflige. O sofrimento coloca o sujeito diante de sua condição de desamparo, ou seja, fica diante da exigência de lidar com situações que lhe são inesperadas e que, muitas vezes, podem ser “traumáticas” como morte, separação, perda de emprego. Perante estas situações, o sujeito quer ser avaliado e pergunta: “o que eu devo fazer para aliviar esta dor?”

Não cabe a psicanálise ordenar a conduta das pessoas, pois a autoridade destas é imprescindível e, assim, cada sujeito irá dizer o que o incomoda. Desse modo, a dor e o sofrimento são vividos na esfera subjetiva e biográfica. O que isso quer dizer? Para definir um estado subjetivo, é preciso que cada um fale sobre o que é significativo em sua história de vida. Esta diversidade do significado das experiências não é patologia. A reação que cada um pode ter diante dos acontecimentos é particular e, portanto, não há remédio que sirva tanto para um como para outro.


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"Saúde Mental- Uma reflexão"


O termo saúde mental é um termo que designa um conjunto de práticas assistenciais surgidas num determinado momento da história. Inúmeras denúncias abriam os olhos da população e dos governos que antes silenciavam diante dos maus tratos aos quais os pacientes psiquiátricos eram submetidos. Verdadeiros depósitos de humanos, os hospitais psiquiátricos privavam os doentes de qualquer acesso à vida social. Não havia sequer oportunidade para que os pacientes pudessem dar voz ao seu sofrimento e a sua condição existencial. O tratamento despendido aos pacientes se resumia a suprimir os sintomas mais evidentes, silenciando assim a tentativa de significar aquilo que os pacientes viviam e gerando assim um estado de cronificação e amortecimento da condição daqueles que estavam acometidos por um sofrimento psíquico.

A partir da metade da década de setenta surge o MTSM (Movimento dos trabalhadores de Saúde Mental). Esta entidade se dedicou a ocupar espaço na mídia quando levava ao publico a condição de descaso dos pacientes internados em grandes hospitais. Pouco tempo depois surge o primeiro congresso nacional dos trabalhadores de saúde mental onde as criticas ao modelo assistencial forma consolidadas e reveladas. A proposta era a de romper com o paradigma dos grandes manicômios.

Como solução para o modelo asilar manicomial surgiam as propostas de tratamento extra-hospitalar que visava reinserir os pacientes ao convívio familiar e social. Um projeto de lei realizado pelo deputado Paulo Delgado declarava a urgência do Estado em se posicionar ativamente diante dos abusos que o modelo anterior imputava aos pacientes. Em 1987 surge o primeiro CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), instituição central na instauração de novas políticas de saúde mental.

Este movimento trouxe inúmeras contribuições aos usuários de saúde mental e aos trabalhadores deste campo que identificados à população que atendiam também sofriam enormes prejuízo em seu cotidiano de trabalho.

Vale ressaltar que o movimento de reforma psiquiátrica encontrava respaldo nas inúmeras experiências realizadas na Europa. Enfim, se antes a loucura precisava ser silenciada, ela agora encontrava interlocutores que tentavam traduzir o seu enigma. Muito antes disso, Freud em 1924 já anunciava que o delírio era uma tentativa de cura e que por isso ele não deveria ser abolido. Era preciso escutar.

Se por um lado os avanços da reforma psiquiátrica trouxeram a possibilidade de oferecer um espaço mais adequado às manifestações psicopatológicas, por outro este ofício coloca inúmeras questões aos profissionais, questões estas que são cruciais na medida em que não há um saber único e exclusivo diante do enigma que é o humano e das complexas e particulares condições em que os humanos sofrem.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) considera que a saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social. Evidencia-se assim uma tensão entre o campo da política e o campo da clínica, tensão que se presentifica no cotidiano da assistência na saúde mental. O campo da política coloca um ideal a ser alcançado: saúde e bem estar total.

Em Junho deste ano escutei uma senhora que vivia em condições muito precárias. Ela se encontrava em angustia, pois havia sido convocada a depor já que seu filho adolescente não estava freqüentando a escola. Este rapaz era quem conseguia trazer algum sustento a esta família e pretendia voltar aos estudos assim que a situação familiar se regularizasse. Esta situação revela que há uma forçagem em fazer existir uma situação familiar ideal que não existe na nossa realidade - o que só faz mostrar que a necessidade de se levar em conta a particularidade de cada situação é tarefa constante de quem se encontra com um ser humano, que nunca é generalizável.


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"Considerações sobre o diagnóstico de psicose"




A clínica psicanalítica não é descritiva, nem fenomenológica como a clínica da Psiquiatria clássica. É uma clínica estrutural, não é historicista, estabelece o diagnóstico na transferência, já que é nela que a estrutura do paciente se revela e o analista é incluído. É a partir do lugar em que é colocado pela fala do paciente, portanto, que o analista pode fazer um diagnóstico.

A estruturação do sujeito sempre é uma operação de defesa frente à Demanda imaginária do Outro, na tentativa de se diferenciar do real do corpo (a carne), não se perdendo como objeto do gozo do Outro.

Diante da Demanda imaginária do Outro, o sujeito constrói uma metáfora sobre ela, dando uma significação subjetiva, um saber. Esta operação é a mesma para qualquer sujeito, mas o que diferencia as estruturas (neurose, psicose, perversão) é o estatuto deste saber.

O saber, na neurose, passa pela hipótese de um sujeito suposto (“ao menos um” que saiba lidar com a demanda do Outro, delegado à função paterna). O saber passa por um ponto de “capiton” que é sempre uma referência ao pai, uma filiação, que amarra a rede significante.

Na neurose há uma divisão entre o saber inconsciente e o “eu”, ou seja, de um lado há uma dívida com o pai e do outro o delírio da autonomia, efeito da repressão da dívida (delírio da não filiação: “Eu posso escolher o que quiser”).

O perverso, como o neurótico, também faz um saber referenciado ao pai, com a diferença de que ocupa o lugar da Lei, ele mesmo é o pai.

Já na psicose, esta divisão não é mantida, não há referência a um sujeito suposto saber. Não há amarração de um ponto que centralize o saber, organizando todas as outras significações. O discurso não se autoriza a partir de uma transmissão, não se estabelece uma filiação. Nesse sentido, Calligaris (1989), nomeia o psicótico como sujeito errante, que faz um percurso infinito sem um destino idealizado.

Como o psicótico não faz a suposição de saber num Outro, é preciso que ele sustente, por si mesmo, este saber, que se faz de forma total, idealmente completa, um saber infinito. Nesse sentido, Lacan fala de uma hipertrofia egóica do psicótico, já que o saber é sustentado com a certeza egóica.

O autor, ao falar da diferença do saber neurótico para o psicótico, afirma que é próprio do neurótico a paixão da ignorância (possibilidade de descanso, pois há um que sabe). Enquanto que para o psicótico haveria uma paixão do saber (rede de um saber total, impossibilidade de descanso).

Lacan utiliza o conceito de forclusão do Nome-do-Pai para se referir ao mecanismo de defesa característico das psicoses. Calligaris (1989) ressalta que, frente a um psicótico fora da crise, este conceito não se mostra útil para um diagnóstico, já que a forclusão só aparece no desencadeamento da crise, diante de uma injunção fálica.

A injunção fálica refere-se a uma metáfora paterna que, por não estar simbolizada para o psicótico, retorna no Real (função paterna no Real), na tentativa de construir uma metáfora semelhante à metáfora neurótica de filiação.

Na neurose a metáfora paterna permite ao sujeito um posicionamento sexual, uma sexuação, dizer-se como homem ou mulher. Na psicose a significação sexual será obtida no Real, a partir de uma função paterna Real. Por este motivo, em todo delírio, a questão da sexuação está presente, já que a significação da diferença sexual, colocada pela castração, não está dada.

Cabe ressaltar que o fato do psicótico não estar referido à função paterna, não significa que exista uma exclusão do Simbólico, ele está tomado na estrutura da linguagem, não estando apenas entre o Imaginário e o Real. Mas a linguagem é metonímica, sem uma metáfora fixa, o que leva a uma significação muito singular.

Bibliografia:

Calligaris, C. (1989) – Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Porto Alegre: Artes Médicas.
Lacan, J. (1985) - O Seminário. Livro 3. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.


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"Recalque" (1915) - resenha


O conceito de recalque (verdrängung) é um dos mais fundamentais da teoria freudiana.

Neste texto Freud afirma que a angústia é conseqüente ao recalque. Mais tarde, em Inibição, Sintoma e Angústia (1926), reformula a noção de angústia asseverando que ela é a força motora que leva ao recalque e não a conseqüência.

Freud relata que o recalque seria uma das vicissitudes da pulsão, uma resistência que visa tornar a pulsão inoperante. Ele ressalta, no entanto, que o recalque só ocorre quando se estabeleceu uma cisão entre a consciência e o inconsciente, uma vez que sua finalidade seria manter alguns conteúdos da mente inconscientes.

O autor descreve que existe um primeiro recalque, que visa negar a entrada na consciência de um representante psíquico da pulsão. Em seguida, existiria o recalque propriamente dito, que atuaria sobre todos os outros representantes ideacionais que tiverem ligações associativas com o primeiro representante recalcado.

Um aspecto relevante é que o representante pulsional, embora inconsciente, continua a existir de forma ainda mais organizada, dando origem a derivados e estabelecendo associações. “Na verdade, o recalque só interfere na relação do representante pulsional com um único sistema psíquico, a saber, o do consciente” (p.154).

A análise, por meio da associação livre, exige do paciente a produção de derivados do recalcado que, por estarem distorcidos ou distantes no tempo, podem passar pela censura do consciente (os sintomas neuróticos também são derivados do recalcado, são formações substitutivas). O recalque atua sobre cada derivado isoladamente.

O recalque também está ligado à produção de prazer e desprazer. Assim, um derivado que produz desprazer pode, através de algumas distorções, produzir prazer e assim vencer a resistência temporariamente (um bom exemplo deste mecanismo é encontrado na formação dos chistes).

O autor afirma que o recalque tem um caráter móvel, exige um gasto de energia constante, uma vez que o recalcado exerce uma pressão contínua para tornar-se consciente. Nesse sentido a eliminação do recalcado significa uma economia energética. Os sonhos exemplificam bem a mobilidade do recalque: enquanto sonhamos, o conteúdo recalcado é absorvido, mas quando acordamos, torna-se novamente inconsciente.

Freud destaca que o fator econômico é fundamental no recalque, já que é a quantidade de catexia que determinará se o derivado deve permanecer inconsciente ou não (o enfraquecimento do que é desprazeroso pode substituir o recalque).

Com relação ao fator quantitativo, o representante da pulsão pode sofrer três destinos possíveis: ou é suprimido, ou aparece como um afeto qualquer ou é modificado em angústia. Neste último caso, Freud diz que o recalque falhou, na medida em que não conseguiu atingir seu objetivo principal: evitar o desprazer.

Ao analisar os três tipos principais de psiconeurose (histeria de angústia, histeria de conversão e neurose obsessiva), chega à conclusão de que nenhuma tentativa de defesa é completamente bem sucedida: sempre resta um excedente de afeto de angústia.

Estas psiconeuroses se diferenciariam conforme a atuação do recalque. Na histeria de angústia, o recalque levaria a um deslocamento do conteúdo ideacional (no caso do homem dos lobos, por exemplo, a exigência de amor feita aos pais foi substituída pelo medo do lobo).

Na histeria de conversão há uma condensação de toda catexia numa inervação somática que leva à formação de sintoma (quando é possível eliminar a quota de afeto, o que aparece é o que Freud chama de ‘la belle indifférence dês hystériques’).

Finalmente, na neurose obsessiva o impulso hostil relacionado ao objeto de amor é recalcado, de forma que a tendência sádica é substituída por uma afetiva. Diferentemente das outras neuroses, não há um afastamento da libido, mas uma intensificação de seu oposto através da formação reativa. No entanto, o recalque também falha: “A ambivalência que permitiu que a repressão ocorresse através da formação de reação, constitui também o ponto em que o reprimido consegue retornar” (p.161).

Bibliografia

Freud, S.(1915) Recalque. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


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“A formação de um analista”


Este texto surgiu a partir de freqüentes perguntas de estudantes de psicologia e psicanálise a cerca dos requisitos para a formação de um analista.

Em seu texto “Sobre o ensino da psicanálise nas universidades”, Freud (1919) afirma que a formação de um analista deve ser sustentada a partir de um tripé constituído por: ensino teórico, supervisão e análise pessoal. Este tripé teve sua importância reafirmada por Lacan que lhe forneceu uma maior consistência.

A supervisão é um pilar importante para o candidato a analista que ainda não terminou sua análise. Além da necessidade de troca, em função da solidão do exercício da profissão, permite articular o universal da teoria com o singular de cada analisante, oferece uma escuta, ajuda o analista a fazer um diagnóstico e a pensar numa direção da cura (quando necessário, podem ser sugeridas técnicas de manejo). A supervisão reenvia o analista à sua análise pessoal e estudo e faz uma espécie de “suplência” a um dos tripés que ainda não está “sólido”.

Com relação à análise e ao estudo, Lacan salienta que estes dois tripés estão intimamente associados(1958). No texto “A direção do tratamento e os princípios de seu poder” , questiona a respeito de como seria possível a transmissão da psicanálise. Faz então, uma crítica à dicotomia entre análise didática e terapêutica, postulando que toda análise é didática (analista se torna analista em sua análise).

No mesmo escrito Lacan dá ênfase ao que Freud já afirmava:“Ninguém jamais esquece aquilo que aprendeu na transferência”. Neste sentido, coloca que o ensino é produzido dentro do contexto da experiência analítica, já que é na análise que se tem acesso ao inconsciente e se pode articular saber e verdade.

A análise entra em jogo, portanto, como um pilar fundamental. É no final da análise, segundo Lacan, que se produz um analista, na medida em que pode emergir o desejo de analista, que é o vetor de toda análise (distinto do desejo do analista). É também, a partir dela, que o futuro analista obtém uma referência para sua prática clínica e consegue estabelecer seu próprio estilo (marcado pela forma como lida com seu gozo, desejo e fantasia).

A análise permite ao analista lidar com sua castração - com uma verdade que o divide enquanto sujeito - de forma a conseguir fazer semblant de Sujeito Suposto Saber (lugar colocado muitas vezes pelo analisando) sem de fato, identificar-se com esse lugar – o que é essencial para que uma análise aconteça.

A transmissão da psicanálise só poder ser feita a partir da análise pessoal, o que evidencia seu caráter singular (um-a-um) de maneira que é em cada análise que se produz um psicanalista. Nesse contexto, faz sentido a afirmação de Lacan: “cabe a cada analista reinventar a psicanálise” (1979, 219).


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"Sobre o uso de atividades e a clínica da Terapia Ocupacional"


O uso de atividades como recurso potencialmente terapêutico é bastante difundido em serviços de atendimento a pacientes com quadros mentais graves.

Percorrendo a história da psiquiatria desde o tratamento moral de Pinel, passando pelos autores psicodinâmicos, pelos ateliês de terapia ocupacional de Nise da Silveira e as práticas mais contemporâneas verifica-se uma gama bastante diversificada da importância das atividades e seus benefícios. Desta forma, torna-se necessário tecer explicações, exemplos, conceitos acerca do tema, pois simplesmente dizer que este recurso é utilizado no tratamento não é suficientemente esclarecedor da prática que se realiza.

As atividades podem ser encaradas como ocupação do tempo ocioso do paciente ou ter uma dimensão mais complexa, como um recurso eminentemente transformador. GOLDBERG (1998:130) aponta que é preciso que as atividades sejam abordadas como campo transferencial, que envolve os terapeutas, os pacientes e as relações intra-grupais. A compreensão trazida aqui sobre o uso de atividades opõe-se radicalmente ao objetivo de tempos preenchidos, fazendo valer a colocação de SARACENO aos profissionais da saúde mental que é necessário romper com o entretenimento, o trabalho “não pode ser um pretexto para deixar pessoas entretidas, fazendo de conta que a vida está sendo vivida” (PITTA, 1999:10).

O terapeuta ocupacional entende a atividade como instrumento terapêutico e possui um “setting” específico, isto é, a escuta acontece intermediada pelos materiais os mais diversos possíveis, cria-se um ambiente acolhedor com pulsações advindas das tintas, linhas, argilas e tantos outros. Esse “setting” pode ser ampliado de acordo com os desdobramentos dos atendimentos, isto é, freqüentemente o terapeuta ocupacional sai da sua sala para percorrer outros territórios junto ao paciente, podem tomar um café numa padaria ou passear em um parque. Nesses exemplos, o foco está na construção de um fazer no fora bastante relevante se considerarmos que parte da clientela da Terapia Ocupacional possui seus cotidianos bastante desestruturados.

De acordo com QUARENTEI (1994:26) “a intimidade da Terapia Ocupacional com atividades como instrumento de trabalho construiu uma ampliação do repertório de atividades terapêuticas que inclui, hoje, a diversidade das ações humanas como: compartilhar, ouvir, grupalizar, conhecer, aprender... junto ao cozinhar, escrever, passear, pintar...” O fazer e o fazer junto - são pressupostos básicos da Terapia Ocupacional e para o terapeuta ocupacional – o fazer atividades junto aos pacientes é uma forma mais dinâmica e interativa de acompanhá-los.

O terapeuta ocupacional possui um campo de atuação bastante vasto comportando ações nas aéreas da saúde, educação e social. Na saúde mental, a Terapia Ocupacional pode e deve auxiliar na avaliação do paciente e na condução do tratamento. O diagnóstico situacional se diferencia da avaliação médica presente na “anmnese” e se dá por meio da dinâmica na realização das atividades pelo paciente.

Existem situações bastante ilustrativas como, por exemplo, o caso de um paciente que no momento de crise, ao ser solicitado a representar graficamente seu projeto de vida após a alta hospitalar, desenha um mapa e escreve “vou me dedicar as Américas com felicidade e amor”. Esse desenho falava da sua convicção: o seu papel de cuidar do mundo e protegê-lo de todos os males. Estes conteúdos numa conversa passavam despercebidos, já que o discurso deste paciente mostrava-se bastante coerente e articulado. Nesse sentido, a tarefa é oferecer um suporte para que esta construção delirante tenha um lugar para acontecer, visto que muitas vezes é rechaçada, banalizada e incompreendida.

Percebendo como cada um se coloca na experiência nos atendimentos de Terapia Ocupacional é possível esboçar projetos terapêuticos individualizados que serão construídos junto com o paciente buscando-se, sobretudo, a vitalização da existência. Segundo CASTRO (2000:26), “os projetos terapêuticos elaborados buscam construir e ressignificar relações, ampliar possibilidades de expressão, tecer nexos com a história pessoal, encontrar alternativas às necessidades materiais e simbólicas emergentes, reconstruir sentidos entre a crise e a história pessoal”.


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“Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) - resenha


Trabalho que traz grandes contribuições da teoria psicanalítica como a ampliação do conceito de sexualidade (não se restringe ao genital) e a descoberta de sua importância em todas as atividades humanas.

O interesse de Freud a respeito das questões da sexualidade se originou a partir da observação clínica da importância dos fatores sexuais na etiologia das neuroses.

De um estudo sobre os desvios em relação ao objeto e ao alvo sexual, o autor inicia um estudo minucioso.

Principia com um trabalho sobre o estudo da homossexualidade (inversão sexual), classificando-a em três tipos: invertidos absolutos (objeto sexual só pode ser do mesmo sexo), anfígenos (objeto sexual pode pertencer a ambos os sexos) e ocasionais (em função de condições externas). Afirma que a inversão pode ser aceita pela pessoa ou sentida como patológica e que pode aparecer em diferentes momentos da vida.

Freud refuta a concepção da inversão como uma degeneração e como um caráter absolutamente inato. Além disso, assevera a importância de algo do indivíduo na tendência à inversão, uma vez que as influências externas não são suficientes para explicá-la.

A partir de conhecimentos anatômicos acerca do hermafroditismo (predisposição somática originalmente bissexual em todos os indivíduos), Freud afirma que a inversão e o hermafroditismo são independentes. “A substituição do problema psicológico pelo anatômico é tão inútil quanto injustificada” (p.135).

Em uma longa nota de rodapé, encontra-se uma série de especulações a respeito da escolha sexual. Nos invertidos haveria uma fixação na mãe e identificação com esta de forma que tenham tomado a si mesmo como objeto sexual (narcisismo). Afirma também que a conduta sexual se define após a puberdade em função de aspectos constitucionais e acidentais (como a falta de um pai forte na infância) e que existiriam diferentes escolhas homo-eróticas: com relação ao objeto e com relação ao sujeito (teorias de Ferenczi).

Freud supõe uma bissexualidade universal nos seres humanos e uma independência da escolha objetal em relação ao sexo do objeto (a pulsão não traz consigo o objeto). “Assim, somos instruídos a afrouxar o vínculo que existe em nossos pensamentos entre a pulsão e o objeto. É provável que, de início, a pulsão sexual seja independente de seu objeto, e tampouco deve ela sua origem aos encantos destes” (p.140).

Freud utiliza a pedofilia para exemplificar a grande variação de objetos sexuais e afirmar que a importância está na pulsão sexual e não no valor do objeto. “Os diferentes trajetos por onde passa a libido relacionam-se mutuamente, desde o início, como vasos comunicantes” (p.143).

O autor também salienta que as perversões fazem parte da vida sexual normal e as classifica em transgressões anatômicas (regiões do corpo destinadas a união sexual que não pertencem ao aparelho sexual como lábios, boca, ânus - supervalorização do objeto sexual), fetichismo e fixações de alvos sexuais transitórios.

Freud denomina de fetichismo quando “o objeto sexual normal é substituído por outro que guarda certa relação com ele, mas que é totalmente impróprio para servir ao alvo sexual normal” (p.145). O fetichismo só é patológico quando se torna o único objeto sexual. Também afirma que o fetichismo teria origem na infância, sendo que o fetiche poderia funcionar como uma “lembrança encobridora” de algo esquecido e também estaria relacionado às teorias sexuais infantis (o pé, por exemplo, substituiria o pênis na mulher).

Descreve a pulsão escopofílica, prazer de ver, como pertencente às pessoas normais, mas que pode tornar-se patológica quando se restringe exclusivamente à genitália e nos casos de voyeurismo e exibicionismo (olhar e ser olhado – alvo sexual apresenta-se na forma passiva e ativa).

Em seguida, descreve o sadismo, ressaltando que está presente em pessoas normais, uma vez que a sexualidade exibiria uma mescla de agressão. Novamente, diz que o que constitui sintomas patológicos é a exclusividade da satisfação da pulsão sexual a este elemento agressivo, “ou seja, quando há características de exclusividade e fixação, então nos vemos autorizados, na maioria das vezes, a julgá-la como um sintoma patológico” (p.153).

Com relação ao masoquismo, questiona se este seria primário ou se surge de uma transformação do sadismo, em que o sadismo se volta para a própria pessoa que passa a ocupar o lugar de objeto sexual (numa nota de rodapé de 1924 passa a reconhecer o masoquismo primário – o feminino e o moral).

“O sadismo e o masoquismo ocupam entre as perversões um lugar especial, já que o contraste entre a atividade e passividade que jaz em sua base pertence às características universais da vida sexual” (p.150).

Freud constata que a pulsão parcial, na maioria das vezes, aparece como pares opostos da pulsão (masoquismo-sadismo, feminino-masculino, passivo-ativo, amor-ódio, exibicionismo-voyeurismo) e salienta que isto tem grande importância teórica (ambivalência). No entanto, diz que nos quadros patológicos há um predomínio de uma das tendências. “As diferenças que separam o normal do anormal só podem residir na intensidade relativa de cada componente da pulsão sexual e no uso que lhes é dado no decorrer do desenvolvimento” (p.194).

Do estudo das perversões, chega à conclusão de que as pulsões sofrem a força das resistências (entre elas destacam-se a vergonha, a moralidade, o asco e as construções sociais da autoridade) que as circunscrevem dentro dos limites normais.

A partir da clínica das psiconeuroses, afirma que a pulsão sexual é a energia predominante nestes quadros, sendo os sintomas a transformação das atividades pulsionais, expressão da atividade sexual, substitutos de processos pulsionais que são recalcados e por isso não são descarregados conscientemente (como na histeria em que a descarga acontece por meio da conversão).

Falando da histeria, novamente se refere à ambivalência: “... a enigmática contradição da histeria, registrando a presença desse par de opostos: uma necessidade sexual desmedida e uma excessiva renúncia ao sexual” (p.156).

Freud define o termo pulsão e utiliza pela primeira vez a expressão “zona erógena” (“órgão cuja excitação confere um caráter sexual” – p.159).

Pulsão é o representante psíquico de uma fonte de estímulos internos, estando entre o anímico e o físico. “O que distingue as pulsões entre si e as dota de propriedades específicas é sua relação com suas fontes somáticas e seus alvos. A fonte da pulsão é um processo excitatório num órgão, e seu alvo imediato consiste na supressão desse estímulo orgânico” (p.159).

O autor salienta que os sintomas das neuroses surgem não apenas das pulsões sexuais normais, mas também das perversas. “Portanto, os sintomas se formam, em parte, às expensas da sexualidade anormal; a neurose é, por assim dizer, o negativo da perversão” (p.157). As pulsões perversas presentes nos psiconeuróticos seriam decorrentes do fato destes pacientes preservarem o estado infantil de sua sexualidade.

A partir daí, Freud passa ao estudo da sexualidade infantil.

Inicialmente, aborda a questão da amnésia, questionando o porquê da maioria das pessoas não conseguirem recordar acontecimentos da primeira infância. Diz que esta amnésia é fruto do recalcamento e por isso a relaciona às psiconeuroses.

O autor toma o chuchar como modelo das manifestações da sexualidade na infância. A finalidade deste comportamento não está na satisfação das necessidades (nutrição), já que a criança suga várias coisas que não estão relacionadas à alimentação (objetos, órgãos de seu próprio corpo ou de outrem) e após isso tem uma reação de “relaxamento” (espécie de orgasmo).

Freud afirma que nesta manifestação sexual a pulsão é auto-erótica, pois, a princípio, é desprovida de objeto e voltada para o próprio corpo: “Está claro, além disso, que o ato da criança que chucha é determinado pela busca de um prazer já vivenciado e agora relembrado” (p.171). Assim, diz que o ato de chuchar é precedido das primeiras mamadas, em que os lábios se tornaram zonas erógenas. “A atividade sexual apóia-se primeiramente numa das funções que servem à preservação da vida, e só depois torna-se independente delas” (p.171).

A partir daí define três características principais da sexualidade infantil: origina-se a partir de uma função somática (a satisfação foi vivenciada antes para que se tenha a necessidade de repeti-la em função de um aumento da tensão), são auto-eróticas e o alvo sexual se acha sob o domínio de uma zona erógena (que são estimuladas perifericamente).

Por zona erógena entende uma parte da pele ou mucosa em que uma estimulação provoca uma sensação prazerosa de qualidade particular. Enfatiza que qualquer parte do corpo pode se tornar uma zona erógena. Entre as condições importantes para o prazer destaca o caráter rítmico.

Freud relaciona o papel das zonas erógenas na neurose, afirmando que, nessa estrutura, o recalque atua principalmente nas zonas genitais, fazendo com que a catexia se desloque para as zonas erógenas.

A zona anal também é descrita como uma zona erógena de grande importância, que conserva, em muitas pessoas, durante a vida toda uma grande parcela de excitabilidade genital. Freud enfatiza que os distúrbios intestinais na infância reforçam esta zona com muitas excitações e aponta para o prazer que vem acompanhado da defecação assim como o sentido das fezes para a criança pequena: representa o próprio corpo, um presente (mais tarde nas teorias sexuais infantis passa a ter o sentido de um “bebê”). Para ilustrar a importância desta zona erógena cita a retenção das fezes tão comum na infância e os rituais escatológicos de alguns adultos. Também diz que o controle esfincteriano (proibição de extrair prazer da atividade anal) pode representar o primeiro recalcamento das possibilidades de prazer.

Com relação à zona genital, associa os órgãos sexuais à micção (aparelho urinário funcionaria como “tutor” do aparelho sexual ainda não desenvolvido) e aos cuidados com o corpo infantil feitos pelo adulto (fonte de grande excitação e satisfação), apontando o quanto são estimulados desde o início, o que justificaria a futura primazia dessa zona erógena na atividade sexual. A masturbação (onanismo) aparece como a possibilidade de realização desta atividade sexual infantil e está ligada ao recalcamento, à amnésia com relação à infância (sentimento de culpa decorrente desta atividade). É interessante que Freud interpreta os sintomas do aparelho urinário (enurese noturna, por exemplo) como um sintoma que pode se referir a uma perturbação sexual.

Freud afirma que a criança é perversa polimorfa, já que a vergonha, o asco e a moral ainda não se instalaram. Além das zonas erógenas, existem elementos que envolvem não só o corpo da criança, mas também, outras pessoas como objetos sexuais. Assim, as pulsões de olhar, de exibir, de crueldade aparecem já na infância e mais tarde se associam à vida genital.

O autor também cita a pulsão escopofílica (saber), em que a criança desenvolve uma atividade investigatória a partir de questões práticas de sua vida (como, por exemplo a questão a respeito da origem dos bebês quando se depara com o nascimento de outra criança). A partir de situações práticas a criança passa a elaborar uma série de teorias sexuais.

A primeira teoria é a suposição de que não há uma diferença entre os sexos, já que homem e mulher teriam uma genitália idêntica.

Uma outra teoria se refere ao nascimento, na qual as crianças fantasiam uma série de possibilidades por onde os bebês nasceriam: seio, ventre, umbigo, ânus.

A terceira teoria se refere à concepção sádica da relação sexual, em que o ato sexual é imaginado como uma relação de subjugação.

Na infância as pulsões parciais são desvinculadas e independentes entre si em sua busca pelo prazer e não estão subordinadas ao primado da genitália. No entanto, estas pulsões passam por etapas que culminam na sexualidade adulta, na qual as pulsões se unem numa organização sólida a serviço da função reprodutora e com a finalidade de atingir um objeto sexual.

Inicialmente, portanto, há a organização pré-genital, em que não existe uma primazia das zonas genitais.

A primeira dessas organizações é a oral (ou canibalesca), caracterizada por uma indistinção da atividade sexual com a nutrição e na qual o alvo sexual é a incorporação do objeto. “Não é sem boas razões que, para a criança, a amamentação no seio materno torna-se modelar para todos os relacionamentos amorosos. O encontro do objeto é, na verdade, um reencontro” (p.210).

A segunda fase pré-genital é a sádico-anal, marcada pelo par de opostos ativo-passivo e pela mucosa do intestino como órgão do alvo sexual. “Nesta fase, portanto, já é possível demonstrar a polaridade sexual e o objeto alheio, faltando ainda a organização e a subordinação à função reprodutora” (p.187).

A terceira fase corresponderia à fase fálica, marcada pela primazia dos genitais.

Freud menciona algumas fontes de excitação que provocam um prazer erógeno: excitações mecânicas (agitação ritmada do corpo, movimento), atividade muscular (como lutas corporais), processos afetivos intensos (situações assustadoras, situações de dor, alastram-se para a sexualidade) e trabalho intelectual. “O elemento decisivo nessas fontes de excitação é, sem dúvida, a qualidade do estímulo, embora o fator da intensidade (no caso da dor) não seja de todo indiferente” (p.193).

Com relação à escolha de objeto, Freud formaliza que esta acontece em dois momentos (bitemporal). O primeiro é marcado por alvos sexuais de natureza infantil e acontece por volta dos 2 e 5 anos de idade. O segundo momento ocorre com a puberdade e permanece na vida adulta. Entre os dois momentos está o período de latência, caracterizado pelo recalcamento (as pulsões sexuais são desviadas para outros fins por meio da sublimação) e responsável por uma cultura superior.

Na puberdade as pulsões parciais se organizam, as zonas erógenas passam a se subordinar à primazia genital e a pulsão sexual (libido) que era, principalmente, auto-erótica (libido do ego ou narcísica), buscam o objeto sexual a serviço da função reprodutora (libido do objeto).

Freud salienta que tais transformações acontecem concomitantemente às mudanças físicas da puberdade (em especial as alterações dos genitais), que proporcionam a obtenção do prazer de satisfação da atividade sexual - antes existia apenas o pré-prazer advindo da excitação das zonas erógenas (nas perversões haveria uma fixação no pré-prazer).

Vale a pena destacar que com relação à economia libidinal Freud afirma: “A libido narcísica ou do ego parece-nos ser o grande reservatório de onde partem as catexias de objeto e no qual elas voltam a serem recolhidas, e a catexia libidinosa narcísica do ego se nos afigura como o estado originário realizado na primeira infância, que é apensas encoberto pelas emissões posteriores da libido, mas no fundo se conserva por trás dela” (p.206).

Todas as mudanças da puberdade culminam numa diferenciação sexual cada vez maior, já que os dois sexos terão funções distintas - Cabe aqui pontuar que Freud faz um questionamento a respeito do que seria masculino e feminino, dizendo da complexidade destes conceitos (noção de bissexualidade) e acaba privilegiando a noção de passividade e atividade. A partir daí, afirma que a libido é masculina, já que a pulsão é sempre ativa.

Apesar da dificuldade em distinguir masculino de feminino, deixa claro que existe uma diferença entre a puberdade da menina e do menino. As zonas erógenas seriam homólogas (clitóris e glande), mas o recalcamento afeta mais a sexualidade da menina (eliminaria a sexualidade masculina - clitoridiana) reforçando as inibições sexuais. O homem permanece com a mesma zona erógena de sua infância, enquanto que a mulher transfere a excitabilidade clitoridiana para a vagina, realizando uma troca da zona genital dominante. Estas mudanças deixariam as mulheres mais propensas à neurose histérica: “Esses determinantes estão intimamente relacionados com a natureza da feminilidade” (p.209).

Um outro aspecto que Freud levanta é que na puberdade ocorre um afrouxamento dos laços com a família (inclusive um desligamento da autoridade dos pais), já que a proibição do incesto impele o jovem a procurar objetos sexuais que não sejam seus parentes (cabe ressaltar que as influências infantis, as fixações incestuosas da libido sempre influenciam nas escolhas amorosas, pois são precursoras da organização genital). Inicialmente, estes objetos são da ordem da fantasia, como a fantasia de escutar a relação sexual dos pais, da sedução, da ameaça de castração, protofantasias, romance familiar.

Quando essas transformações da pulsão, ocasionadas pelo advento da puberdade, não ocorrem, surgem as patologias (inibições no desenvolvimento). “Quanto mais perto se chega das perturbações mais profundas do desenvolvimento psicossexual, mais se destaca, de maneira inequívoca, a importância da escolha objetal incestuosa” (p.215).

Freud salienta a fixação como um fator que pode atrapalhar o desenvolvimento sexual normal. “Cada passo nesse longo percurso de desenvolvimento pode transformar-se um ponto de fixação, cada ponto de articulação nessa complexa montagem pode ensejar a dissociação da pulsão sexual” (p.222). Acrescenta a isso a importância de fatores acidentais, que podem levar a uma regressão a fases anteriores do desenvolvimento.

Finaliza seu trabalho dizendo que os conhecimentos acerca da sexualidade (em seus aspectos psicológicos e biológicos) ainda são insuficientes para uma compreensão total do que é normal e patológico.

Bibliografia

Freud, S.(1905) Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

"Cem anos da imigração japonesa"


Cem anos já se passaram desde que o Kasato Maru aportou em Santos. Há muitas histórias cujas origens remontam às antigas colônias, em sua maioria no interior de São Paulo.

Como descendente de japoneses, gostaria de compartilhar alguns fragmentos da história de meus parentes.

Recordo-me dos relatos do encontro de meus avós com a terra destemida – Burajiru (Brasil). Eles vieram pelo Santosu Maru, perderam um parente na viagem, chegaram bastante cansados pela náusea e pela tristeza. Um sonho marcado pela dor. Demorou para chegar. Foram quase dois meses de viagem.

Como chovia, a natureza era implacável. Para plantar eles cortavam árvores enormes da floresta tropical. Cortavam chorando, as mãos ficavam doendo e essa dor dizia muito, mas não desistiram, mesmo que no Japão não tivessem que fazer nada disso. Durante muitos dias ficavam tomados pela recordação das separações e da vida que levavam, da família, da escola, da mura (aldeia), da alimentação. Além da expectativa de retornar.

Os costumes eram diferentes, os proprietários não os tratavam bem. Pela dificuldade de expressão era difícil se comunicar. Não sei se é lenda, mas recordo-me de uma conversa em que minha avó queria comprar bacalhau e o vendedor não a entendia. Zangada, minha avó o chamou de bakayaro (tolo ou bobo). Para sua supresa, foi atendida imediatamente pois o vendedor interpretou a palavra bakayaro como bacalhau!

A paisagem também era diferente, havia animais, onça, tatu... Diziam que dava muito medo. As crianças escutavam os barulhos dos animais e, para ir ao banheiro, que ficava fora da casa, iam em duplas para apaziguar seus medos e era muito comum encontrar cobras e sapos no caminho. Certa vez, minha tia foi se calçar e ao colocar o pé foi mordida por uma aranha enorme. Meu avô levou-a ao médico que era longe, foi de charrete, ela quase morreu pela demora (pode até ser exagero). Uma vez tiveram que matar uma cobra enorme, que estava na plantação (algodão e café), acho que era sucuri.

O dia-a-dia escolar era misturado: havia o nihongakkou (escola japonesa) e muitos a freqüentavam para manter a língua materna. Para ir ao burajiru gakkou (escola brasileira), tinham que andar quilômetros a pé. Caminho que era muito valorizado por eles, contentes em estudar.

Chegando aqui, eles foram morar perto de um rio, onde pescavam e onde meus tios gostavam de nadar, resquícios de vivência junto ao mar, onde meu bisavô trabalhava com pequenos barcos de pesca da região litorânea do Japão.

Quando criança escutava eu essas histórias com muita emoção e admiração. Sentia que havia heróis na família que desbravavam florestas, matavam animais selvagens, enfrentavam seus medos. Pode ser fantasia de criança, mas sem dúvida conhecer a origem é muito importante, pois ela deixa suas marcas, mesmo que sejam marcas d’água, nem sempre perceptíveis, mas presentes.

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Matéria publicada por Vida Integral em 03/02/2008

"Considerações sobre as teorias psicanalíticas e a infância"


Dentre os grandes autores que inauguraram a Psicanálise de crianças há aqueles como Winnicott, Spitz e Anna Freud, que deram bastante destaque ao ambiente (figuras primordiais) e ao valor da relação no processo de construção do psiquismo do bebê. Uma outra corrente de psicanalistas, embora não tenham descartado em hipótese alguma o valor dos pais como referências, acabaram por dar ênfase às fantasias e aos aspectos inatos da criança como Melanie Klein e seus seguidores. O posicionamento de cada um deles diante da teoria psicanalítica determinou a técnica a ser aplicada, alguns atendiam somente a criança, considerando a realidade psíquica e a construção do mundo interno como primordiais. Outra corrente de psicanalistas escuta os pais, considerando-os parte do trabalho, incluindo a orientação educativa.

Numa terceira direção, outro grupo de psicanalistas valorizou o aspecto da linguagem para o bebê. Na década de 60, teve origem na França o Grupo de estudos sobre o recém-nascido, difundindo-se, cada vez mais, a intervenção através da palavra junto aos bebês. Françoise Dolto foi uma das pioneiras no que diz respeito à importância atribuída à linguagem para os bebês e a importância da intervenção pela palavra. Este tipo de trabalho tinha como pressuposto uma tendência bastante evidenciada na França, em que se abordava a capacidade e a amplitude da apreensão da linguagem pelos bebês.

O conhecimento de Dolto como psicanalista, cuja originalidade consistiu em levar os limites da intervenção psicanalítica até os recém-nascidos, direcionou seu trabalho tanto para os pais, quanto para os profissionais em seu combate a favor da "causa das crianças", enfatizava que mesmo os pequeninos são analisáveis, fazendo desta autora uma referência indispensável ao estudo da infância. Mostrou-se sempre disponível em responder às indagações dos profissionais e dos ouvintes interessados, pois considerava que a psicanálise seria válida se pudesse ser encontrada nos fatos cotidianos.

A principal idéia defendida por Dolto é o extremo desejo de comunicação expressa pelo bebê, que precisa receber um “banho de palavras”, condição esta tão primordial à sua sobrevivência, tão importante quanto o leite que o alimenta, o que faz com que o bebê seja tão ativo quanto receptivo na busca de comunicação.

Para desfrutar dessa condição, o bebê precisa de alguém que se encarregue da função de estar a “serviço” de seus ritmos, assim a mãe deve alimentar o bebê se ele tiver fome e confortar as angústias. O papel da mãe não é ritmar as necessidades da criança e sim o inverso disso, ela deve se “submeter” aos ritmos do filho, inicialmente, para que este encontre seu próprio ritmo. Quanto à linguagem, a autora também preserva a noção de adaptação da mãe à criança, que deve aproximar as palavras, dizendo-as de modo que a criança possa compreendê-las.

Dolto (1999, p. 26) considerava que o trabalho do psicanalista inclui a "decodificação de uma linguagem que perturbou o desenvolvimento antes da fala". Acreditava que, quando se trata de bebês precocemente perturbados, é preciso cuidar desde cedo. Desenvolveu a cura analítica dirigida a esta população de pequenos, vendo os bebês como pessoas portadoras de uma verdade. Como um traço de seu estilo clínico, ela utilizava uma linguagem muito particular, considerando que as crianças dispõem, à sua maneira, de um acesso à linguagem. Ao fazer isso, ela as retirava do status social de infans, etimologicamente os que não falam, afirmando assim que o ser humano é um ser de linguagem, antes mesmo de saber falar.

Diante da afirmação de que “tudo é linguagem”, Dolto argumentou que a criança nasce imersa num mundo simbólico, cabendo, portanto, um trabalho simbólico. Considerava surpreendente perceber a linguagem em todas as suas dimensões, ampliando a noção restrita à fala. Citou inúmeros exemplos dos modos que a criança se faz perceber, quando ainda não possui o recurso da fala, ela se expressa mordendo, sugando, adoecendo, manifestando sua libido através do que está ao seu alcance. À medida que a criança encontra sentido, seu corpo se subjetiva e o eu pode ser, finalmente, encontrado (DOLTO, 1996).

Dolto preocupou-se com a primazia da palavra, situando-a na “vizinhança conceitual de Lacan” (GUILLEAULT, 1999, prefácio), e assim ao dizer “tudo é linguagem” deu o seu testemunho da incidência da linguagem no corpo e como este é atingido por ela.

No mesmo arcabouço teórico de um pensamento que privilegia a linguagem encontrava-se Lacan. Inspirado pela antropologia estrutural e pela releitura de Freud, privilegiou o modelo lingüístico, fundamentando a idéia de uma estrutura básica que pensava o sujeito através da função simbólica, subvertendo com a noção de sujeito como um produto da linguagem.

Definiu o inconsciente como discursivo em sua clássica afirmação “o inconsciente é estruturado como linguagem” (LACAN, 1957-1958, p. 193). O inconsciente é resultante dos efeitos da fala sobre o sujeito, que tem a função concebida como efeito do significante. O significante e suas ligações têm um lugar exclusivo no tratamento psicanalítico.

Lacan foi mais adiante que o freudismo clássico na discussão sobre a relação arcaica com a mãe, interrogando sobre o lugar do pai, da mãe e da criança no discurso simbólico, enfatizando a importância da falta na constituição do sujeito.

Nesta perspectiva psicanalítica, o sujeito é interpretado em termos de sua estruturação, de sua relação com o outro, na condição de semelhante e em termos de representação, no discurso de um conjunto social. Para a psicanálise de Lacan, a linguagem encontra lugar tanto na fala dos pais quanto em sua atribuição na condição de signo lingüístico às produções do bebê.

A presença ou a ausência desses signos tem valor fundamental, pois é nesse ponto que se situa a concepção da etiologia do sujeito na posição discursiva, ou seja, na linguagem como causa e não como conseqüência. Assim, considero que a psicanálise na perspectiva Lacaniana trouxe contribuições importantes na idéia de constituição de sujeito como efeito significante.

Dessa forma, para a teoria proposta por Lacan, a criança está inserida na estrutura, sendo afetada pela família e pelo desejo do Outro. Em sua fórmula (o desejo inconsciente é o desejo do Outro), afirmava que não existia a possibilidade de alguém ser gerado a partir de si mesmo; valorizava a herança simbólica, reconhecendo que o inconsciente pertence a uma cadeia de gerações. Faz referência ao Outro como lugar da linguagem.

É para esta última corrente, que privilegia o mundo simbólico, que o trabalho com os bebês se justifica, em que há a escuta da estrutura simbólica na qual o bebê está inserido e também sobre o que está fora deste registro simbólico, portanto no Real.

*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

"Breves considerações acerca da história do diagnóstico de histeria"


A histeria enquanto diagnóstico clínico tem sido utilizada de maneira diversa, de acordo com o momento histórico e cultural.

O termo histeria existe há mais de dois mil anos. Acredita-se que Hipócrates foi o primeiro a usar este termo o associando às perturbações no útero. Aí temos uma marca que sempre acompanha a histeria: uma doença ligada ao feminino (mesmo que pudesse aparecer, eventualmente, no sexo masculino). Platão, por exemplo, atribuía a causa da histeria à problemas da ordem sexual (como insatisfação, ausência de filhos).

Com o apogeu do Cristianismo a histeria passou a ser tratada como uma expressão demoníaca e que, por isso, precisava ser combatida (feiticeiras e bruxas condenadas à morte na fogueira).

No século XVII a histeria passou a ser encarada novamente como doença e a ser medicalizada. Com o avanço da Medicina, este diagnóstico deixou de ser atribuído apenas à perturbações do útero, ampliando-se para o cérebro e o sistema nervoso.

"Mas, uma vez que a afecção deixava de ser vista como dependendo de um órgão exclusivamente feminino, passou ao mesmo tempo a ocupar o primeiro plano um discurso que associava os traços ao carácter histérico e a feminilidade." (BOROSSA, 2001, p.17)

O quadro clínico era composto por: sintomas físicos sem causa aparentemente orgânica, sedução, dissimulação, expressão exagerada das emoções e problemas sexuais.

Frente a uma sociedade patriarcal, a histérica passou a ser porta-voz da feminilidade enquanto algo obscuro e desconhecido.

"É interessante recordar que a articulação entre a insatisfação da mulher com o seu destino e a histeria foi claramente estabelecida por um discurso de finais do século XIX e começo do século XX "(BOROSSA, 2001, p.59)

Em 1870, Charcot, no hospital de Salpêtrière, investigava a histeria e tentava atribuir uma materialidade a ela a partir da utilização de diversos instrumentos. Segundo ele, a histeria era uma doença hereditária, do sistema nervoso e sua origem estava associada a um fator traumático. Além disso, a susceptibilidade à hipnose era característica da histeria. Charcot classificou vários sintomas, mas não escutou de fato as histéricas. (BOROSSA, 2001)

A dissimulação, o fingimento da histérica, sempre chamou a atenção dos estudiosos da histeria, sendo caracterizado como um dos principais sintomas que, muitas vezes, levava a uma condenação moral.

No século XIX, a partir dos estudos de Breuer e Freud, a histeria permitiu uma nova concepção de sujeito, como cindido, portador de conflitos e alienado de si próprio. Os sintomas da histeria passaram a ter sentido, a serem escutados como expressão de um conflito entre desejos, expressão de um trauma psíquico, cuja cura dependia da rememoração do trauma (“talking cure”). Ao longo da obra de Freud, a transferência e a fantasia passaram a ocupar o lugar central do tratamento da histeria.

Freud (1905[1901]) salientava a capacidade intelectual de suas pacientes e a frustração destas por não conseguirem exercer sua inteligência.

Em alguns momentos, a histérica foi vista como uma mulher que se conformava com as imposições sociais e em outros momentos, como alguém que se opunha a eles, que fazia uma reação importante frente às sociedades opressoras.

Parece haver nos casos relatados por diversos autores uma ambigüidade na posição da histérica: quer e rejeita a falicidade do patriarcado. “Por outras palavras, a histeria manifestava-se ao mesmo tempo como uma conseqüência patológica do patriarcado e como a sua subversão” (BOROSSA, 2001, p. 62).

Bibliografia
BOROSSA, J. (2001). A Histeria. Tradução por Miguel Serras Pereira. Porto: Almedina
FREUD, S (1905[1901]). Obras psicológicas completas da ed Standard Brasileira. Fragmentos da análise de um caso de histeria. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. VII.


*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

"O narcisismo e a fase do espelho"


O narcisismo é um conceito criado por Freud, que adotou o termo a partir do mito grego de Narciso. A origem da palavra Narciso, em grego Narkissos, vem de narkes, que significa entorpecimento, torpor, inconsciência. A palavra narcótica é derivada e indica qualquer substância que altera os sentidos, produzindo narcose. Faz referência também ao nome de uma flor bonita e solitária, que nasce nas beiras dos rios, cuja vida é bastante efêmera e estéril. (Brandão, 1989).

Nos dias atuais, tem aumentado a ênfase de que vivemos sob a égide do narcisismo. Para a Psicanálise têm surgido crescentemente referências às patologias chamadas narcísicas. Para desenvolver essa afirmação, utilizarei a teoria de Freud a partir da leitura sobre a noção de narcisismo e seu significado unificador junto à organização pulsional na imagem integrada do eu.

O termo apareceu pela primeira vez em 1910, Freud abordou o narcisismo na perspectiva da escolha objetal dos homossexuais, ele mencionou na ocasião que a escolha do objeto libidinal parte do narcisismo, na busca pelo semelhante.

No caso Schereber, Freud propôs a existência de uma fase intermediária entre o auto-erotismo e o amor objetal, que seria o narcisismo. Assim, o termo Narcisismo foi aplicado por Freud antes mesmo de sua formulação teórica que ocorreu em1914 no texto “ Sobre o Narcisismo: Uma Introdução”, quando realizou uma elaboração mais aprofundada sobre o tema.

Freud constatou na análise de pacientes neuróticos, que o componente narcísico não estava restrito à perversão e às patologias ditas narcísicas. Percebeu que as manifestações de seus pacientes eram referentes a algo preexistente, não sendo uma criação atual, portanto, ligadas à uma condição anterior.

Diante dessas questões, Freud percebeu que o narcisismo é um componente inerente ao desenvolvimento libidinal, sendo um complemento da pulsão de auto-preservação, que, em certa medida, pode ser atribuído a toda criatura viva (Freud, 1914).

Antes do momento estrutural do narcisismo predomina o funcionamento chamado por Freud de “perverso polimorfo”, caracterizado pela parcialidade das zonas erógenas. Nessa anterioridade lógica, esse funcionamento é chamado de auto-erotismo, pois a satisfação das pulsões ocorre de modo a não organizado. São atividades das partes do corpo conectadas às suas respectivas satisfações,ou seja, o que acontece em cada zona erógena, encerra em si mesma (como a sucção do polegar – satisfação libidinal oral).

Partindo deste estado em que as pulsões sexuais se satisfaziam de forma anárquica, independente uma das outras, advém um primeiro movimento de organização pulsional, o narcisismo. Neste o ego vem a ser tomado como objeto de amor, em torno de uma imagem integrada, coincide com o surgimento do ego como unidade psíquica e de representação de corpo.

O narcisismo primário é uma posição preparada pelo desejo e pelo ideal dos pais, é uma marca de investimento que o sujeito irá se ocupar. Essa herança do desejo parental é constitutiva do sujeito e formadora de um eu, pois o narcisismo é uma operação que se organiza em torno dele e possibilita a primeira unificação das pulsões sexuais em torno do eu (Freud, 1914).

Para que o narcisismo se instaure é necessário investimento externo, na relação primária estabelecida com a figura materna deve ter havido tanto um investimento pulsional nas zonas parciais, no corpo erógeno, quanto o investimento narcísico, em direção ao eu da criança, futuro indivíduo. A rigor, ambos os investimentos devem coincidir: o eu do bebê e o seu corpo erógeno como simultaneamente investidos pelos pais.

É possível fazer uma correspondência da passagem do auto-erotismo ao narcisismo com o que é denominado por Lacan como fase do espelho. Lacan também enfatizou que o investimento da mãe, o olhar relacionado à imagem do filho que gostaria de ter, antecipa um sujeito que está por se constituir. O sujeito que irá advir é algo formulado anteriormente, o bebê não nasce como eu, se desconhece, ele assume esta imagem antecipada, se identificando a ela, esse movimento se chama suposição de sujeito Assim, Lacan atribuiu muita importância à presença do outro, que participa por meio do investimento nessa imagem da criança como eu ideal (definição de Freud), depositário das expectativas e perspectivas dos sonhos mais antigos de seus pais.

Essa concepção do estádio do espelho introduzida por Lacan traz à luz a questão da imagem adquirida pelo bebê, demonstrada pelos diversos gestos que experimenta ludicamente e a relação que estabelece com sua imagem quando refletida no espelho. Essa imagem é estruturante, pois o eu é antes de tudo um eu corporal, na medida em que organiza um corpo a partir de uma promessa de unidade: o eu pode existir.

O adulto é quem assegura que essa imagem que é semelhante à dos outros, é ´da criança, ou seja, é assim que é reconhecida. Em outras palavras, o adulto é aquele que articula a promessa: dizendo que esta imagem mostra que será Um a mais entre seus semelhantes. A imagem, inicialmente, responde as leis do Outro, que introduz o princípio de alteridade, pois o semelhante é ao mesmo tempo outro, assim como o ego também é outro (Lacan, 1976).

Num primeiro tempo, o sujeito é capturado por esta imago materna e , em seguida, pela sua própria imagem refletida no espelho que o alienará, para sempre nesse outro que é ele mesmo. O estádio do espelho não consiste em uma etapa a ser superada, mas é experiência em que coloca o eu como um outro, onde o eu e tu se confundem.

Por meio desse investimento externo sobre o psiquismo que vai ser instaurado (no narcisismo primário) um estado precoce em que a criança investe toda sua libido em si mesma. O pequeno sujeito vai passar não só a ser alimentado por uma imagem ao mesmo tempo integrada e de perfeição, mas também vai poder, a partir daí, definir-se, identificar-se e reconhecer-se.

Essa imagem de completude como ‘eu ideal’, é uma relação de amor consigo mesmo. À medida que se constitui essa imagem de si mesmo, esta vai ser cultivada e defendida como uma necessidade de satisfação narcísica, que se transformará numa demanda: demanda de ser objeto do amor de um outro.

Posteriormente, o ego ideal se constrói como uma referência perene no psiquismo, uma ilusão e um modelo ao qual o eu sempre buscará ‘retornar’: uma posição na qual se assenta a ilusão de ter sido amado e admirado sem restrições, um estado ideal.

Esse momento narcísico primordial é um tempo ‘mítico’, caracteriza-se pela falta de uma relação de objeto é o tempo da identificação primária, quando sujeito e objeto estão fusionados, indiscriminados. A catexia que o id emite em direção ao objeto é, ao mesmo tempo, uma relação de identificação, visto que o eu está com aquele numa relação de fusão, insuficientemente diferenciado.

É somente a partir da constituição de uma unidade tal como é o eu, de uma imagem de si mesmo, após esse tempo da identificação primária, que é possível pensar a questão da relação com objetos e da escolha objetal. Após a constituição do eu e a renúncia libidinal ao objeto no Édipo, que resultará ao id a possibilidade de reenviar catexias dirigidas a esse novo objeto: o eu.
O abalo dessa imagem narcísica e da ilusão em torno dela será colocado pelo Complexo de Édipo. Nesse momento, o sujeito resistirá em ficar excluído do centro das atenções e do “amor” do casal parental. Diante dessas frustrações narcísicas, o indivíduo será convocado a satisfazer tais ‘necessidades’ encontrando formas mais variadas para isso.

O narcisismo secundário definido por Freud, é um estado de regressão, quando há retorno ao ego da libido retirada dos seus investimentos objetais. Porém, esse estado não se restringe a essa significação, trata-se de uma estrutura permanente no sujeito. No plano econômico, será sempre solicitado um equilíbrio entre investimento narcísico e objetal – através do ideal do eu. No plano tópico, o ideal de eu é uma formação que jamais será abandonada. A satisfação pulsional passará a se dar também através do eu, e portanto ligada à imagem integrada de um corpo (Laplanche e Pontalis, 2000)

Pode-se afirmar que o ideal do eu poderá se constituir o herdeiro, sucessor do eu ideal. O ideal do eu abre o campo da temporalidade no narcisismo. O narcisismo do ego ideal é transferido para os ideais que o sujeito se esforçará para alcançar, através da promessa de restituição, pelo menos em parte, do encanto narcísico perdido.

Freire Costa (1986) afirmou que o sujeito irá se instituir após viver a experiência de apreensão dessa imagem desejada pelo outro. O narcisismo, portanto, surge e permanece dirigido por aquilo que no corpo ou no psiquismo é percebido como objeto de desejo do Outro.

Concluindo, o narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a esse novo ego ideal, que está repleto de toda perfeição de valor. Renunciar à perfeição narcisista de sua infância, não é uma tarefa fácil. O sujeito ao crescer, se tomado pelo despertar de seu próprio julgamento crítico, de modo a não mais poder reter aquela perfeição, procura recuperá-la sob a nova forma de um ideal de ego. O que ele projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua infância na qual ele era o seu próprio ideal (Freud, 1914).

Referências

Brandão, J.S.- “O Mito de Narciso e Eco” in: Mitologia Grega, RJ: Vozes, Vol. 3, 1989.
Freire Costa, J. - Violência e Psicanálise, RJ, Graal, 1986.
Freud, S.- Sobre o Narcisismo: Uma Introdução (1914), S.E., Imago, R.J., 1969.
Lacan, J.- "O estádio do espelho como formador da função do eu." in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor,1998.
Laplanche J. ; Pontalis, J.P.- Vocabulário da Psicanálise (1982), Martins Fontes, São Paulo, 2000.

*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

"O Mito de Narciso"


Nesse mito, Narciso é filho da ninfa Liríope, que significa voz macia e de Céfiso, deus fluvial, aquele que banha, inunda, conhecido por sua insaciável energia sexual, em cujas margens nenhuma ninfa poderia chegar e sair intacta.

Liríope passeava quando se aproximou das margens do rio, Céfiso a aprisionou e desse contato a engravidou. Para ela, tal fato foi repugnado, porém deu à luz a um menino de beleza inimaginável. Logo, Liríope atormentou-se, pois para os deuses, a beleza fora do comum é algo condenável e temido, pois possuir a beleza à altura das divindades é algo passível de punição.

A mãe de Narciso, em sua inquietude, decidiu consultar Tirésias, um velho sábio cego, que tinha o poder da adivinhação, para saber sobre o futuro de quem foi concebido em circunstâncias tão peculiares. Tirésias lhe respondeu que Narciso viveria até a idade madura, na condição de jamais ver sua própria imagem (Brandão, 1989).

Condenado a não ver sua própria imagem, os anos se passaram e ele tornou-se um adolescente muito belo, arrogante e desdenhoso por suas qualidades. Começam as paixões pelo filho de Céfiso, muitas o desejavam, capturadas por sua beleza. Porém, Narciso não se rendeu a nenhuma dessas paixões, ficando indiferente.

Dentre elas, havia uma em especial: a Ninfa Eco que havia regressado do Olimpo após a vingança de Hera, esposa de Zeus. Eles viviam em discórdias conjugais, pois Zeus era libertino, promíscuo e infiel.

Em obediência ao grande Zeus, Eco havia enganado Hera, enquanto ele a traía. Ao descobrir isto, Hera ficou extremamente humilhada com as aventuras de Zeus. Ele desonrou o que ela considerava de mais sagrado: o matrimônio. Então, Hera condenou Eco a não mais falar, limitando-a a repetir os últimos sons das palavras que ouvisse. Amaldiçoada, Eco foi compelida a nunca mais se expressar, replicando as vozes que não as suas.

Certo dia, Narciso estava no bosque e Eco, amante das aventuras campestres, o viu, encantou-se com sua beleza e o seguiu. Ele ficou perdido e foi surpreendido pelo barulho dos passos de alguém, gritou e discorreu a seguinte situação:

Narciso: Há alguém por perto?
Eco : Há alguém.
Narciso: Vem!
Eco: Vem!
Narciso: Por que foges de mim?
Eco: Por que foges de mim?
Narciso: Unamo-nos aqui!
Eco: Unamo-nos!

O primeiro encontro foi marcado pela imagem bela de Narciso, que se deixa seduzir pela bela voz de Eco, que na verdade é a sua própria, escutando as palavras de Eco de modo a ouvir o que desejava. Eco, por sua vez, se viu diante da maldição: não ser amada pelo que é, mas como reflexo de Narciso nos sons que repetia. O desencontro e o mal-entendido se instalam.

Tal desencontro culminou na rejeição de Narciso, e Eco, após ter sido repelida tão friamente, se isolou numa imensa solidão e se transformou num rochedo condenada a repetir somente os derradeiros sons do que lhe diziam.

As demais ninfas, revoltadas com a insensibilidade de Narciso, pediram vingança à deusa Nêmesis, Deusa da Justiça. Em certa caçada, ávido por água, ele foi até o lago e observou uma sombra e ao olhá-la, ficou enfeitiçado com sua imagem e dali não saiu mais até sua morte, desgostoso com a impossibilidade de consumir sua paixão.

O mandato cumpriu-se e ele não conseguiu jamais alcançar a união amorosa com o objeto pelo qual se apaixonou. Ali ficou até sua morte e, quando procuraram seu corpo, encontraram apenas uma flor amarela, solitária e estéril - Narciso.

O conteúdo fundamental do mito – o apaixonamento de Narciso por si, pode levar à compreensão de que violou, o amor proibido, pois não dirigiu seu “amor” ao outro. Será que Narciso, impedido de se ver, chegou a se apaixonar por não saber quem é?.

Carvalho (1993) hipotetizou de modo diferente, pois conhecer-se para Narciso, talvez seja a descoberta da violação sexual inicial de onde surgiu, quando Céfiso, seu pai, tomou sua mãe em suas águas. Enfim, quando se olha na fonte, ele vê, aprisionada na água, a figura de uma ninfa, que se parece às demais, mas era Liríope cativa de Céfiso!

É nessa imagem que Narciso se detém para sempre, na cena primordial que é o segredo sobre si mesmo, o qual devia evitar a todo custo, de que não foi concebido pelo desejo.

O Mito de Narciso e Eco permite uma interpretação sobre a estranheza da estrutura narcísica. Trata-se da dialética da morte, Narciso morre na ilusão de ter encontrado a completude.

Referências

Brandão, J.S.- “O Mito de Narciso e Eco” in: Mitologia Grega, RJ: Vozes, Vol. 3, 1989.
Carvalho, J. J. “O encontro impossível entre Eco e Narciso” in: Serie Antropologia. Unb, Brasília, 1993.
Freud, S.- Sobre o Narcisismo: Uma Introdução (1914), S.E., Imago, R.J., 1969.

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"Formação dos Sintomas"


... "O sintoma fala mesmo àqueles que não sabem ou que não querem ouvi-lo, ele não diz tudo, mais ainda, esconde o fundo do seu pensamento, mesmo àqueles que querem dar-lhes ouvidos. O próprio portador dessa mensagem ignora seu autor tanto quanto seu destinatário." (Neuter, pp.248, 1999)

A noção de sintoma se define, para Freud (1926), como formação de compromisso entre as representações recalcadas do desejo inconsciente e as exigências defensivas. O sintoma é a solução encontrada pelo sujeito ao conflito entre os elementos, cuja satisfação é censurada e a defesa, que visa manter a integridade do indivíduo diante do perigo do desejo proibido.

Para solucionar esse conflito a formação de compromisso entra em ação, nesse sistema o que foi recalcado pode ser admitido na consciência, pois se apresenta de tal forma descaracterizado, que não apresenta risco. É uma forma de reconciliação entre a oposição dessas tendências.

O retorno pode ser manifestado pelo deslocamento, pela condensação, pela conversão, etc., evocando o material que não pode ser realizado por via direta. Assim, nessa relação com as pulsões, o sujeito se utiliza de defesas para direcioná-las de modo socialmente aceito, ou seja, submetido à Lei (Laplanche e Pontalis, 1998).

"O sintoma é, então, definido como a realização de uma fantasia de conteúdo sexual, ou seja, representa, na totalidade ou em parte, a atividade sexual do sujeito provinda das fontes das pulsões parciais, normais ou perversas"(Dias, pp.402, 2006).

Ainda que a Psicanálise tenha surgido do estudo do sintoma como formação do inconsciente, correlato ao retorno do recalcado, é na forma de um enigma que ele pode ser decifrado. No entanto, os analisantes revelaram a Freud que a significação e a simples revelação à consciência não bastava na construção analítica para se trabalhar o sintoma.

Para Lacan, a psicanálise não busca sua eliminação e, nesse aspecto, é o avesso das ciências cartesianas. Uma das grandes inovações trazidas por ele, encontra-se precisamente na consideração do sintoma como possuidor da verdade que não se refere à significação. Nos remete à formulação de que o sintoma é o significante de um significado recalcado da consciência do sujeito e que, por essa natureza, não é acessado (Lacan, p. 282, 1953/1998).

A organização em torno da impossibilidade de completude marca o sujeito, tem relação com o modo como cada um goza no seu inconsciente, é aí que seu valor de estrutura reside: na revelação da inexistência da “relação sexual”, do encontro entre o desejo e o objeto. O objeto está para sempre perdido.

Como foi dito, na direção do tratamento não se almeja a abolição dos sintomas. A análise fica incumbida de instrumentar o sujeito a se posicionar diante deles, à medida que sabe do que é prisioneiro. Desse modo, Lacan introduziu a dimensão do gozo, como uma importante economia, pois o sujeito goza com a contradição de seu sintoma.

A análise é um dispositivo voltado à escuta da verdade que se oculta no sintoma, de que a condição de falante, nos direciona à de faltante. Então, se o inconsciente está estruturado como linguagem, articulado como rede de significantes, haverá sempre um semi-dizer do sintoma, que jamais se esgota. Nele existe a cristalização do fluxo associativo que se expressa pelo real, no ato, no corpo ou em comportamentos e o sintoma diz disso - do real.

A castração encontra seu fundamento na condição de que algo sempre escapa à linguagem, à satisfação absoluta, a falta, então, se apresenta.

Resumindo, a reação terapêutica negativa, a compulsão à repetição, levou Freud a formular sobre o ganho primário e secundário do sintoma. Ao mesmo tempo em que o sujeito quer se livrar do sintoma, ele o mantém. O patológico foi definido quando há o imperativo de uma modalidade de satisfação, com objeto estabelecido.

Bibliografia

DIAS, M.G.L.V. O sintoma: de Freud a Lacan. Psicologia em Estudo, v. 11, p. 401-407, 2006.
LACAN, J. - Função e campo da palavra e da linguagem in Escritos. RJ: Zahar, 1998.
NEUTER, P. Do sintoma ao Sinthoma. Dicionário de Psicanálise. Freud e Lacan, p.247-258. Salvador: Álgama, 1997.

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"Principais características da primeira e segunda teoria das pulsões"


Por pulsão entendemos algo diferente de instinto já que as pulsões não apresentam um objeto predeterminado biologicamente, suas formas de satisfação são variáveis e ela é insaciável, uma vez que diz respeito ao desejo e não à necessidade. Está entre o somático e o psíquico.

Para Freud, o homem é possuidor de um permanente conflito entre pulsões antagônicas existentes em seu interior.

A primeira teoria das pulsões se encaixa com a versão empírica do complexo de Édipo; baseia-se na neurose (de transferência) e na perversão, a psicose não é incluída.

Segundo Freud, o conflito psíquico se expressaria através da oposição entre as pulsões do ego (autoconservação) e as pulsões sexuais (libido). O princípio de prazer e desprazer seria a instância reguladora das tensões, cujo objetivo seria a manutenção do menor nível de tensão.

Nesta teoria, a neurose seria o resultado da prevalência das pulsões do ego, enquanto que a perversão, a prevalência das pulsões sexuais.

Freud vê na pulsão sexual o objeto privilegiado do recalcamento no inconsciente. Para ele, esta pulsão está submetida exclusivamente ao princípio de prazer e funciona segundo as leis do processo primário (catexia livremente móvel); ela estaria a serviço da conservação da espécie.

As pulsões do ego estariam ligadas às necessidades, às funções corporais essenciais à conservação da vida do indivíduo. Estas pulsões estariam associadas ao princípio de realidade, sendo possível o adiamento de sua satisfação (processo secundário). Além disso, elas só poderiam satisfazer-se com um objeto real, se opondo às sexuais que poderiam satisfazer-se na fantasia.

A segunda teoria está ligada à lógica da constituição do sujeito (falo, falta, castração), e, portanto, ao Édipo Estrutural. Ela leva em conta a psicose e aponta diretamente para a sublimação (aceitação da falta, prazer não sujeito a conflito).

Esta teoria surge em 1920, a partir do texto Mais Além do Princípio de Prazer, onde Freud desenvolve a noção de pulsão de morte (Thânatos) e pulsão de vida (Eros).

Freud percebe a existência da pulsão de morte a partir de sua experiência clínica, onde se depara com a questão do sado-masoquismo, da compulsão à repetição e da reação terapêutica negativa. Estas experiências mostram a ele que o funcionamento psíquico não é exclusivamente dominado pelo princípio de prazer.

Ocorre então, uma profunda modificação em sua teoria das pulsões: passa a entender o indivíduo como marcado pelo conflito entre as pulsões de morte e de vida e não mais entre as do ego e as sexuais.

Freud afirma que a pulsão de morte estaria no princípio de qualquer pulsão. Ela pode ser entendida como um desejo de recusar a condição desejante. Estas pulsões tendem para a redução completa das tensões (descarga total), reconduzindo o ser vivo ao estado anorgânico (Princípio de Nirvana).

A pulsão de morte pode aparecer voltada para o interior sob a forma de autodestruição ou dirigida para o exterior, manifestando-se sob a forma de agressão ou destruição.

A pulsão sexual e as de autoconservação são, então, assimiladas às pulsões de vida. Por pulsão de vida, Freud entende uma força que tende à ligação, à constituição e conservação das unidades vitais. A pulsão de vida (Eros) está ligada à aceitação da existência do objeto e está vinculada à sublimação.

Podemos entender que a segunda teoria é marcada pelo conflito entre desejo de desejar (Princípio de prazer) e desejo de não desejar (Nirvana). Cabe ressaltar, que as duas pulsões nunca aparecem isoladamente: em todas as manifestações humanas podemos observar a participação de ambas as pulsões em diferentes graus.


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"Édipo – Construto teórico"


Devemos a Freud a introdução deste tema, foi por meio da análise de seus pacientes adultos e de sua própria análise, que ele pode perceber que os conteúdos que emergiam como materiais de análise eram referentes às questões presentes desde a infância, mobilizadas nesse período e atualizadas no tempo presente. Diante do que era manifestado, Freud pode elaborar toda uma construção teórica sobre o inconsciente, seu funcionamento e suas influências na vida adulta. Remeteu-se à primeira relação do bebê com sua mãe como protótipo das relações que o ser humano irá estabelecer posteriormente, estando esse material recalcado (Freud, 1905).

Para Lacan, o recém-nascido surge como um ser extremamente frágil. O ser humano é o ser que nasce mais despreparado para enfrentar, sozinho, as dificuldades impostas pela sobrevivência, pois existe uma restrição e insuficiência de seus recursos. Essa condição de prematuridade e desamparo impõe a presença de uma figura que garanta a sobrevivência do bebê. A mãe é, na maioria das vezes, o agente de cuidados, transmitindo também a cultura (Lacan, 1938).

Essa condição inicial de desamparo do bebê torna-o extremamente dependente, o único recurso que possui para expressar suas carências e invocar ajuda é o grito, que mostra simplesmente seu mal-estar. O grito é a expressão de uma tensão e o agente materno, ao escutá-lo, empresta sua subjetividade para interpretá-lo como um pedido, nomeando se é fome, frio, sono ou atenção. No decorrer da experiência, percebe que o filho demanda também sua presença, e assim ele vai sendo integrado num sistema de comunicação, onde o choro equivale a uma palavra dirigida a esse Outro, agente materno.

Infante (2000) afirma que o bebê não nasce sujeito, se instala uma subjetividade. No início de vida há uma alienação do bebê na subjetividade materna, uma ilusão de completude. A mãe desse modo tem como função supor que o bebê tem desejo. Do ponto de vista do bebê, a mãe ao atendê-lo é percebida como extremamente poderosa, onipotente, sendo detentora dos objetos satisfação.

À medida que os pedidos do bebê vão aumentando, a cada demanda vão surgindo muitas outras exigências. Diante da demanda insaciável, de amor, inevitavelmente, a mãe acaba apresentando falhas, representadas por ausências, atrasos, enganos, equívocos. Essas falhas proporcionam experiências de frustração, pois o bebê perde a ilusão de completude. O bebê passa a perceber uma mãe frustrante que, até então, era poderosa e onipotente.

Diante dessa construção a mãe vai se apresentando ao filho como autônoma em seus desejos, ou seja, responde a seu critério. Essa é uma condição inexorável, uma vez que o bebê deseja algo que está para sempre perdido (Lacan, 1956).

Esse sentimento de falta provoca no bebê a questão sobre o desejo materno: “se a mãe pode dar ou recusar os objetos de satisfação é porque ela tem desejos!”.

Essa questão sobre o desejo do Outro exige uma resposta, que é pressionada pela angústiade castração, pois a criança sente que ela não basta para satisfazer a mãe, não a completa. Isso a leva a imaginar o pai como foco de atração para o desejo da mãe, pois se ela sai em busca de algo é porque exatamente algo lhe falta.

É fácil observar as crianças se dirigirem para onde a mãe olha, para onde e para o que se interessa, na tentativa de desvelar a pergunta sobre o desejo e percebe que o mundo tem uma existência real apesar dele. Esse enigma do bebê tem como principal protagonista a função paterna, melhor dizendo, a metáfora paterna. O pai é o agente da castração, ele convoca a mãe a ocupar outros lugares, à revelia da maternidade, ou seja, convidando-a para ser mulher, esposa, companheira.

O pai é sentido como um outro privador e onipotente, com o qual a criança pode rivalizar. Nesta rivalidade imaginária, a criança acredita que o pai possui algo (algum objeto importante) pelo qual a mãe possa se interessar, ocorre assim um deslocamento em que a criança não completa a mãe, sendo o pai(imaginário), nessa trama, o provedor da mãe.

Porém, a mãe não se completa, ora se dirige para a criança, ora para o pai e para outras coisas, referidas ao seu desejo. Esse movimento de idas e vindas apresenta à criança a condição faltante da mãe e do pai e possibilita também, criar um espaço de separação entre ambos.

Toda essa dialética é um construto teórico chamado de Complexo de Édipo, cuja resolução se dá ao impedir o incesto, castrando a mãe de manter o filho como objeto de seu desejo. Esta falta diz respeito ao que Lacan denomina como precursor do sujeito, a criança pode com isso desejar e inserir-se no meio social e cultural.

Mannoni (1971) define esta situação edípica como encruzilhada em que a criança deve deixar uma relação dual, imaginária, para então entrar no mundo simbólico. Coloca que a Lei da interdição do incesto ou função paterna não é uma lei editada, mas uma lei interna que, quando não respeitada, aniquila o sujeito. Aquele que não abdica de seu lugar como objeto fálico, não parte em busca de seu desejo.

É nesse cenário que ocorrem todos os movimentos identificatórios, de subjetivação e de socialização da criança. Sendo, portanto, a primeira sociedade do bebê. Através das intervenções do pai e do investimento materno o bebê deixa de ser objeto, para adquirir o estatuto de sujeito.

Demarcar lugares permite localizar onde cada membro se situa diante da estrutura familiar, seja este lugar de pais/filhos; menino/menina; homem/mulher. Essa operação privilegia à assimetria dos lugares estabelecidos pela diferença; e a democracia é posta em vigor, anunciando a existência de uma lei respeitada e compartilhada por todos : o Pacto Social, que é necessário ao processo do tornar-se humano (Lévi-Strauss, 1908).

Referências

Freud, S. (1905) – Três Ensaios sobre a sexualidade. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1962.
Lacan, J. (1956-1957)– O seminário 4: A relação de objeto; texto estabelecido por Jacques Allain-Miller; tradução Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.
Lévi-Strauss, C.(1908) – As estruturas elementares do parentesco. Petrópolis, Vozes, 1982.
Mannoni, M. - A primeira entrevista em Psicanálise, Rio de Janeiro: Campus, 1971.

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"Hospitalização da criança - há espaço para a subjetividade?"


A hospitalização diante de alguma doença grave traz à criança e sua família um momento crítico diante da preocupação colocada de imediato a respeito do risco de vida e com a integridade do corpo.

Quando a criança é internada, precisa lidar com procedimentos invasivos e de difícil compreensão (provocam dor, mas proporcionam a cura), cujos efeitos podem ser percebidos na forma como a criança passa a se comportar em suas relações, ficam mais sensíveis, choram com facilidade, gritam , sentem medo, não conseguem dormir. Manifestam muitas dificuldades e falam pouco a esse respeito.

Alguns fatores estão correlacionados com a dificuldade do processo de hospitalização: afastamento de casa, da escola, da convivência familiar, falta de estímulos (brincar, dificuldade de mobilidade, falta de liberdade, diminuição da convivência com crianças “saudáveis”).

Existe também o sofrimento gerado pela doença e o tratamento. A criança costuma imaginar sobre o “estado” em que se encontra, temendo não melhorar. Percebe a fragilidade do corpo, pode passar por mudanças visíveis como emagrecimento, inchaço, deformação, etc. Os pais concomitantemente se questionam sobre as razões que levaram a criança a adoecer.

Para o psicanalista que trabalha em instituição hospitalar é importante escutar os efeitos da internação hospitalar na subjetividade da criança, considerando a importância da participação dela sobre o que está acontecendo em sua vida e em seu corpo. É necessário que ela se comunique, fale de suas angústias e fantasias. Mesmo que não racionalize, tem a percepção de sua situação e sente quando não está bem. Quando isso acontece, não quer brincar, solicita mais atenção e, às vezes, silencia ao perceber que está excluída das comunicações referentes à situação.

Diversos autores observam a importância dos pais no processo como mediadores entre a criança, a equipe e com a experiência de internação. Essa função de mediar é necessária, já que o corpo da criança está tomado pelo real, por aquilo que a criança não sabe nomear. Os pais podem escutá-la e auxiliar, buscando nomear, considerando suas colocações, pois o mundo subjetivo influencia no processo de recuperação. A criança tem participação e responsabilidade em sua doença.

René Spitz trabalhou por muitos anos com crianças institucionalizadas, órfãos, vítimas da guerra e atribuiu extrema importância à proximidade do laço da criança com os pais, pois em suas pesquisas pode constatar que as crianças pequenas quando separadas de figuras significativas, com quem havia estabelecido relações afetivas, podem desenvolver quadro depressivo ou até mesmo melancólico. Alguns bebês quando abandonados chegavam a morrer devido à apatia e à perda de vontade de viver, e ainda havia aqueles que acabavam permanecendo longos períodos no hospital, já que não conseguiam se recuperar da doença, o que adiava a alta hospitalar.

É condição necessária à hospitalização que as demandas da criança, possam ser dirigidas alguém que não seja anônimo, que possa fazer uma leitura do que está expressando. Quando são bebês cabe à equipe pode oferecer suporte aos pais, cuidando para não excluí-los de seus papéis. Lembrando que o sintoma da criança, quando manifestado no corpo, por meio de doenças graves, pode remeter os pais às suas próprias questões e angústias, sobre sua história individual, em relação à parentalidade e conjugalidade.

Em decorrência desses conflitos, o narcisismo dos pais passa por um abalo importante, perguntam se a doença é hereditária, eles querem saber se há culpados. Quando a enfermidade é genética esse aspecto fica acentuado, podendo fragilizar o casal.

É importante salientar que a subjetividade é parte importante e está sempre presente no processo de adoecimento e de cura, devendo ser explicitada e acolhida pelos pais e pela equipe que trata da criança.

Afinal, o melhor prognóstico se encontra naqueles que podem esperar que algo diferente e melhor aconteça, e isso é percebido pela criança na medida em que escuta seus desejos e decide viver.

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"A criança, o adolescente e a violência"


A criança e o adolescente compartilham, como todos nós, de uma estrutura familiar que está colocada desde a origem. O sujeito que se constitui estabelece uma inter-relação com essa estrutura, cujo valor é inestimável, pois é, a partir dessa, que cada sujeito extrai elementos e se identifica aos traços que são “eleitos” por ele, servindo como referência ao narcisismo, à imagem do eu.

A família, por sua vez, não está isolada do contexto social, está entrelaçada por valores, normas e pactos ligados aos movimentos da cultura vigente. Nos tempos atuais, ela vem se configurando de modo distinto, os casais estão se separando, há muitas famílias monoparentais, casais homossexuais, percebe-se o declínio do lugar do pai. Assim, são incorporadas mudanças de uma sociedade que tem sido, cada vez mais, influenciada por valores capitalistas. Nessa lógica as “coisas” passam a ter valor de mercado; a ética e a moral tornaram-se subordinadas a essa nova forma de gozo, no qual o prazer é substituído pela satisfação a todo custo, de um gozar sem limites. O mais agravante na contemporaneidade é a oferta da sociedade de uma infinidade de objetos que estão disponíveis para essa função.

A família moderna, então, tem estabelecido suas bases nesse social, e percebe-se que o sagrado, o proibido, o imoral, o pudor, o inacessível não têm funcionado como barreiras. Por exemplo, a sexualidade que antes possuía leis reguladoras do que é ou não permitido,hoje vêm sendo banalizadas. O sexual tem retornado e operado hoje com mais intensidade, a censura não tem sido efetivada. O que antes era considerado tabu, tem alcançado possibilidades de realização, assim a pedofilia e o incesto, extremos de proibição, são fenômenos muito freqüentes, e encontram espaço de veiculação, assustadoramente, como a internet o faz. É desolador, para nós brasileiros, saber que o nosso país é famoso por esse tipo de violência.

Essa marca, sobre o lugar da sexualidade na criança e na juventude na sociedade e, portanto, na família, faz parte de uma rede simbólica que é responsável pela transmissão de leis, que controlam as manifestações e estabelecem a ordem social. A proibição do incesto funciona como a mais importante interdição à manifestação de uma sexualidade que não pode usufruir de todos os objetos. Aos filhos e aos pais coloca-se a grande limitação à realização de uma suposta satisfação possibilitada pela completude. Proibir a realização dos desejos incestuosos traz a mensagem de que não se pode fazer do outro objeto de gozo.

A violência, seja ela física, sexual, moral,  é um ato em que o outro é feito de objeto. Esses atos são repetições e se referem, possivelmente, às pendências da falta de elaboração de angústias. Na revivência dessas cenas, o real, mais uma vez, se faz presente. 

No meio psicanalítico há diferenças na leitura sobre o fenômeno da violência, se seria conseqüência de um evento traumático ou resultante de fantasias traumáticas. Qual é a origem exata não importa ao psicanalista, porém não podemos refutar o impacto do “trauma”, devido à emergência do real na vida do sujeito, quando o pai ou a mãe efetivam seus atos violentos na prole.

Esses eventos podem deixar marcas, pois existem atos que não são possíveis de serem significados, pois invadem a subjetividade com o excesso de dor e sofrimento e, porque não dizer, pela satisfação sádica da violência. Essas vivências podem reaparecer na criança e no adolescente na forma de atos, atuações, fenômenos psicossomáticos, alucinações, silêncio, que podem perpetuar na vida dos sujeitos que tiveram essas marcas e podem continuar por gerações, pois como se sabe, o real não cessa de se inscrever.

A possibilidade que existe para interromper esse ciclo vicioso, entre ser aquele que sofre a violência, perpetua ou provoca, encontra-se no sujeito, como posição desejante. Aqui falo do sujeito que escutamos na análise e se posiciona diante do ser "objeto da violência".


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"A escuta dos pais na análise de crianças"


A prematuridade do ser humano é muito importante em termos psicanalíticos. Sua constituição como sujeito se processa no ambiente cultural, na linguagem, o que o torna totalmente dependente do outro não só biologicamente como psiquicamente. Nesse sentido Lacan (1999) ressalta que a constituição do sujeito advém do campo do Outro.

O infans, para o autor, nesta dependência, se aliena na imagem de um Outro, no desejo da mãe: “O que a criança busca, como desejo de desejo, é poder satisfazer o desejo da mãe, isto é, to be or not to be o objeto do desejo da mãe”.

Segundo Dor (1991), o pai aparece como um terceiro que faz corte na relação fusional do filho com a mãe, introduzindo-o assim, na castração simbólica, o que possibilita a linguagem, permitindo o encontro do sujeito com a alteridade. Dessa forma, a operação da função paterna tira a criança do assujeitamento ao desejo materno (gozo mortífero), colocando-a num lugar ativo, de sujeito desejante. A criança sai assim do lugar de quem é falada para o lugar de quem fala (sujeito da linguagem).

Esta condição de dependência do infans marca a intervenção analítica: além de ser sempre trazida por um adulto que é quem faz a queixa, seu sintoma está entrelaçado às questões do par parental (cuidadores fundamentais), o que convoca o analista a escutar os pais ao receber uma criança. Como nos diz Rosenberg (2002): “No caso da infância existe uma sobreposição, ou uma superposição, na formação da subjetividade entre a dinâmica psíquica da criança e de seus progenitores” .

Freud (1909), ao relatar o caso do Pequeno Hans já coloca em evidência a importância dos pais nas questões psíquicas da criança. É por meio do pai e de sua transferência que se dá a análise de Hans, onde fica ressaltado a relação entre as questões edípicas do menino e a formação de sua fobia.

Para a Psicanálise, portanto, os pais têm um papel fundamental na formação dos sintomas da criança na medida em que esta é colocada num lugar determinado pelas fantasias e desejos do casal e irá tentar responder às questões do desejo materno. É neste sentido que Mannoni diz: “Naquele ponto em que a linguagem termina, é o comportamento que continua a falar, e quando se trata de crianças perturbadas, é a criança que, pelos seus sintomas, encarna e presentifica as conseqüências de um conflito vivo, familiar ou conjugal, camuflado e aceito por seus pais”.

É esta relação das fantasias parentais com o sintoma da criança que coloca o analista na função de um agente separador, onde sua escuta irá efetuar um corte entre a demanda dos pais e o sintoma do infans, retirando a criança de uma posição alienada. Nesse sentido, Rosenberg afirma: “Pensar o processo de análise não só como função rememoradora, estritamente regressiva, mas também como produtora, permitindo ao sujeito criação de nova subjetividade”.

Em “Duas Notas Sobre a Criança” (1969), Lacan distingue dois tipos de posicionamento que a criança pode assumir frente ao discurso parental. No primeiro, a criança responde ao que há de sintomático no casal, nesse sentido, seu sintoma é um representante da verdade do desejo dos pais. O autor afirma que este caso é mais permeável à intervenção analítica, uma vez que houve a operação da função paterna, existindo uma certa separação mãe-criança, sendo possível situar um sujeito.

No segundo tipo de posicionamento, encontramos o sintoma que diz respeito à subjetividade da mãe, onde a criança está fusionada à mãe, ficando sujeita às todas capturas fantasmáticas. Segundo Lacan, este caso é mais refratário à intervenção, já que a criança está assujeitada ao desejo materno, não havendo a intervenção de um terceiro. A criança é colocada no lugar de objeto que satura a falta materna, realiza a presença do objeto a: "Ela aliena em si todo o acesso possível da mãe à sua própria verdade, dando-lhe corpo, existência e, mesmo, exigência de ser protegida” .

Bibliografia
Dor, J. (1991). O pai e sua função em Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Freud, S. (1909) – Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1980.
Lacan, J. (1998) – O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. In: Escritos – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
______. (1969) - Duas Notas sobre a criança – in opção Lacaniana, no 21, abril, 1998.
______.(1999) - O seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Mannoni, M. (1981)– A primeira entrevista em psicanálise. Rio de Janeiro: Campus.
Rosenberg (2002) – O lugar dos pais na análise de crianças. São Paulo: Escuta.


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"Escuta Psicanalítica de pais e bebês"


 

Na jornada em busca de respostas sobre o alcance do trabalho com os bebês e seus pais, pude encontrar, para além de minha prática, uma autora que discutiu, de modo bastante original, a intervenção precoce. Elsa Coriat (1997) se referiu à intervenção, chamando-a de estimulação precoce, que é um campo que engloba a clínica da escuta dos bebês e de seus pais. Enfatizou as dificuldades encontradas na obtenção de uma definição universal para esse tipo de intervenção. Porém, um ponto importante destacado por ela foi a presença de diferentes profissionais que atuam nesse campo, cujo marco está na interdisciplinaridade.

Historicamente, é uma disciplina que surgiu por volta de três décadas e as nações que mereceram destaque no que se refere às influências na evolução desta clínica foram: Argentina, Estados Unidos, Uruguai e, posteriormente, Espanha.

A estimulação precoce teve, em sua trajetória, um denominador comum que foi o estudo da maturação do lactente, a psicologia evolutiva e genética e, também, o modelo neuropsicológico baseado nos estudos do reflexo e desenvolvimento motor.

Elsa Coriat (1997) menciona em seu livro[1] o Hospital de Niños, lugar onde sua mãe e precursora da intervenção precoce na Argentina - Dra. Lydia Coriat, teve sua formação como pediatra,tendo implantado o trabalho com bebês. Nessa instituição, Elsa Coriat desenvolveu também, seu trabalho de doutorado, cujo tema foi o desenvolvimento neurológico do lactante.

Na mesma época, no campo da genética, houve a descoberta da trissomia do 21, causa da Síndrome de Down. Mesmo com essa descoberta sobre o determinismo genético, pouco se produziu, naquele momento, a propósito do que fazer com esses pacientes em termos de tratamento.

Nesse período, a maioria dos pacientes chegava aos serviços com a idade entre dois e três anos e isso ocorria tanto em Buenos Aires como nos Estados Unidos. Essa idade já era considerada precoce naquela época, porém, para Dra. Lydia Coriat, era uma idade tardia, pois observava em seus pacientes uma “deterioração psíquica”, sem relação com o quadro orgânico.

Em decorrência da cultura científica da época, que revelava pouca expectativa de melhora dos casos genéticos, muitas crianças com o diagnóstico de Síndrome de Down tinham prognóstico pouco favorável, no sentido de que haviam tido pouco investimento. No entanto, por meio desses pacientes, o hospital se tornou o primeiro lugar no mundo a colocar em prática a estimulação precoce, diferente dos moldes do behaviorismo que já havia se difundido nos Estados Unidos.

Houve uma paciente atendida pela Dra. Lydia Coriat, Tchitchí, que a instigou, pois foi a primeira em anos de seu percurso clínico que, após a intervenção, aumentou o desempenho cognitivo, contrariando os dados anteriores que afirmavam uma queda (de desempenho) associada à Síndrome. A discussão que emergiu como conseqüência da melhora apontava o diferencial no atendimento do caso, que era o acompanhamento de uma psicanalista. Assim, ao invés de ter tido atendimento restrito à estimulação de funções (motor ou fonoaudiológico), a menina teve um espaço de escuta. Isso levou à hipótese de que a superação do prejuízo manifestada por Tchitchí estava relacionada a aspectos da intervenção, mediada pela leitura do sujeito (CORIAT, ib.id.)

Os atendimentos marcados pelo referencial psicanalítico foram decisivos para a construção de um saber sobre a estimulação precoce, evidenciando o valor da subjetividade como condição para as aquisições das funções, sendo um fator que colabora diretamente na diferenciação de cada quadro diagnóstico e em sua gravidade. Afinal, o corpo é estruturado pela subjetividade (CORIAT, ib. id.).

Desse modo, a estimulação precoce referenciada pela Dra. Lydia Coriat, trazia o registro de uma Psicanálise, resultante de sua própria experiência em sua análise e também da troca proporcionada pelo convívio com profissionais de importância nessa área, tais como: Barnabé Cantlon, Alfredo Nestor Jerusalinsky e José Waksman, entre outros.

Com o auxílio do Dr. Waksman, a Dra. Lydia Coriat sentiu que o saber médico não oferecia respostas às questões colocadas por sua descoberta como ela expressou em uma carta enviada à direção do hospital: “o tratamento ativo de processos não tratáveis, atingiu excelentes resultados através da estimulação precoce” (CORIAT, 1997, p.64).

Visando colocar sua descoberta em funcionamento, compôs uma equipe interdisciplinar, resultando na entrada de profissionais com referenciais que permitiram a obtenção de efeitos surpreendentes no tratamento das crianças bem pequenas com Síndrome de Down, que incidiram no campo da subjetividade. Crianças que, até então, tinham um futuro marcado pelo preconceito de um diagnóstico, na maioria das vezes ligado ao autismo, passaram a ter a marca de um futuro incerto.

A partir daí, as experiências obtidas com os lactantes com Síndrome de Down foram estendidas a outros pacientes com diferentes dificuldades no desenvolvimento. Durante toda a década de 70, a comunidade clínica viu com muita desconfiança tratamentos aplicados a bebês, que estava atrelada à procura de esclarecimentos sobre um campo ainda muito novo.

Somente em meados da década de 80, devido aos avanços incríveis apresentados pela medicina, principalmente com relação a neuroplasticidade. Desse modo, as crianças com patologias graves passaram a ter uma chance de sobrevivência maior, já que a infância foi considerada como um momento propício para as intervenções. Houve também o desenvolvimento do tratamento das seqüelas, levando os deficientes, antes abandonados, a pertencer a um lugar social: o de “merecer” tratamento.

Foi nesse contexto que o trabalho teve uma grande repercussão, passando a ocupar, de forma intensa, o interesse do público pediátrico, psicológico e psiquiátrico. Essa experiência do Hospital de Niños, do Centro de Neurologia Infantil, posteriormente, chamado de Centro Dra. Lydia Coriat[2], que ocupou grande parte do panorama por onde estimulação precoce travou suas origens. Sendo de extrema utilidade, além do necessário conhecimento sobre o desenvolvimento evolutivo, a Psicanálise e a Psicologia foram fundamentais como instrumentos nessa empreitada, conforme sua fundadora já havia enfatizado.

Essa história inicial abriu a possibilidade de um novo campo de estimulação precoce, distinto do comportamentalismo difundido nos Estados Unidos, que estava baseado em um programa diário de atividades. Na estimulação precoce, como foi definida pela equipe do Hospital de Niños, para se fazer um semblante humano, o treino diário não se resume ao exercício de ficar em pé, reforçado pelo treinador, mas o exercício do tornar-se humano como estando reportado ao passado “que lhe corresponde e para deste modo, deixar abertos os caminhos concretos do futuro” (CORIAT, 1997, p.75).

 Bibliografia

CORIAT, E. – Psicanálise e Clínica de bebês. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1997.

_________. – Os Flamantes bebês e a velha Psicanálise. In: Estilos da clínica: Revista sobre a infância com problemas, v.5, n.8, 11-17, 2000.

CORIAT, H. L.; Terzaghi, M.A. – Fundamentos e limites da estimulação precoce. Algumas reflexões. In: Estilos da clínica: Revista sobre a infância com problemas, v.5, n.8, 17-23, 2000.

 



[1] CORIAT, Elsa. Psicanálise e Clínica de bebês. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1997.

[2] Após a ditadura militar, a Dra. Lydia Coriat, renunciou ao Hospital de Niños, devido à expulsão de inúmeros profissionais qualificados. Então, em 1971, fundou o centro de neurologia infantil com enfoque interdisciplinar. Ao falecer em 1980 esse centro passou a levar seu nome como homenagem.

 

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"Reflexão sobre Subjetividade e Medicina"


Apesar de ser uma ciência fundada por um médico neurologista - Freud, a psicanálise tem encontrado pouco espaço nas instituições de saúde, ficando mais restrita aos consultórios. O espaço destinado à abordagem das “enfermidades da mente”, “doenças de fundo emocional”, “problemas de cabeça”, bem dizer, angústia e sofrimento, tem sido ocupado por médicos psiquiatras, principalmente em enfermarias e instituições psiquiátricas, mas pouco em hospitais gerais. Sabemos que o doente ou o sujeito com algum sintoma no corpo pede, em sua maioria, auxílio às instituições médicas. Mesmo assim, serviços instrumentalizados para atender a esse tipo demanda são escassos. O corpo do sujeito tem história, mas a doença é tratada de acordo com regras gerais do organismo e das doenças, pouco se aborda o dito “paciente”, aquele que tem a doença.

Vários cientistas têm discutido esse tema e devido à construção de minha prática profissional ter sido, em grande parte, desenvolvida em hospital geral, tive a oportunidade de me dedicar ao atendimento de pessoas com diferentes enfermidades, que vinham à instituição a procura de atendimento médico, mas que por algum encaminhamento chegavam ao Setor de saúde mental. Em geral, nos encaminhamentos estava escrito: “sem causas orgânicas”. Então, seria impossível não discutir os desafios que encontrei no trabalho de psicanalista no hospital.

Deparei-me com vários questionamentos, sendo um deles a prevalência do discurso médico nas instituições. Parece existir na instituição a promessa de que a tecnologia, juntamente à ciência médica, possa trazer a esperada cura, assim como preveniria a manifestação de outras enfermidades. Nessa dialética entre causa e cura, o sujeito enfocado pela Medicina fica desvinculado de sua implicação na doença e no tratamento, sendo o médico o responsável. As doenças são o centro da preocupação das equipes de saúde. Esse aspecto ficava mais evidente onde trabalhava, pois, além da assistência médica, a instituição tinha como finalidade a produção de conhecimento, sobre assuntos, muitas vezes, desconhecidos.

Desse modo, eram realizados pesquisas e investigações de doenças e de tratamentos de casos raros, às vezes, os únicos de alguma doença da literatura diagnosticados no país. Havia pouco investimento à prática profissional, no aspecto ligado a relação médico-paciente.

Nossa sociedade tem privilegiado a “cultura da pressa”, as respostas precisam ser rápidas e assertivas. O tratamento funciona de acordo com o imperativo “não há tempo a perder”. Outro dia estava na sala de espera de um consultório médico quando descobri que os pacientes eram agendados de um e um minuto. Perguntei à secretária, a razão disso ocorrer, ela justificou que é para não perder tempo, pois se alguém falta, tem outro na seqüência, assim o médico não fica esperando. Rapidamente ocorreu-me a idéia de linha de produção e do corpo metaforizado como máquina e a mente submetida ao orgânico.

As bases da medicina se fundam nesse paradigma cartesiano em que a doença é compreendida como um fenômeno natural, cujas leis não poderiam ser diferentes, o olhar e o empírico tornaram-se os instrumentos principais de acesso ao funcionamento das doenças.

Indignada perante essa situação, aqui pergunto se há tanto avanço na medicina, por que ainda existe esse sistema que coloca as pessoas nessas condições? Será que a Medicina abandonou o que é fundamental: por trás de toda doença há um sujeito?!


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“A psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher” (1920) – Resenha


Neste trabalho Freud aborda, por meio da descrição de um caso clínico, a questão da sexualidade nas mulheres.

Trata-se de uma paciente de dezoito anos que se encantara por uma “dama da sociedade”, dez anos mais velha, a ponto de abandonar todos seus outros interesses para admirá-la. Tal dama tinha relações promíscuas com vários homens e mantinha relações íntimas com uma mulher casada.

A paciente, segundo seus pais, nunca havia demonstrado interesse pelo sexo oposto. E, em anos anteriores, já havia apresentado sentimentos intensos por outras mulheres.

Freud destaca uma cena de fundamental importância. Certo dia, quando a jovem estava na presença da dama, seu pai apareceu e as olhou com raiva. Frente ao olhar do pai, a jovem tentara, imediatamente, o suicídio.

Após seis meses do ocorrido, os pais procuraram Freud.
O pai era um homem sério, rígido. Era tomado por uma profunda cólera frente ao homossexualismo da filha, tentando combatê-lo por meio de medidas enérgicas e até mesmo, agilizando um casamento para ela.

A mãe era uma pessoa jovem, vaidosa e que já havia apresentado sintomas neuróticos. Não se opunha à relação homossexual da filha (era até mesmo sua confidente) a não ser pelo fato desta se tornar pública. Chamava a atenção a diferença com que tratava os filhos: enquanto tratava os filhos com bastante mimo, era fria com a filha (a via como uma rival e por isso interferia na relação dela com o pai).
“A paciente era sempre reservada no que dizia sobre a mãe, ao passo que, em relação ao pai, nada disso acontecia” (p.161).

Freud salienta que o fato da jovem ter sido levada ao tratamento, ao invés de solicitá-lo por sua própria vontade, coloca dificuldades ao trabalho analítico. Um outro fator desfavorável à análise era o fato da paciente não estar doente (não apresentava sintomas histéricos ou queixas), sendo o objetivo do trabalho a remoção do homossexualismo.

Neste sentido, o autor afirma que a retirada da inversão sexual é, muitas vezes, fadada ao fracasso, já que o homossexual não se mostra disposto a abandonar seu objeto sexual, apesar das pressões sociais e familiares.

Freud divide a análise em duas partes. A primeira consiste na obtenção de informações necessárias e na familiarização do paciente com a técnica da psicanálise. A segunda fase é marcada pela recordação, repetição e elaboração do material inconsciente (superação das resistências). No caso descrito neste trabalho, a análise limitou-se à primeira fase (exploração analítica) em função de uma grande resistência .

No início do tratamento, Freud é informado pela paciente que ela nunca havia tido relações sexuais com a dama e que, apesar de desejar a mulher, estaria disposta ao tratamento por amor aos pais (fato que levaria à interrupção da análise).

O que chama a atenção é o fato da jovem ter assumido um papel masculino na relação com a dama, se portando como um amante (humildade, supervalorização do objeto sexual, renúncia à satisfação narcísica). “Havia, assim, não apenas escolhido um objeto amoroso feminino, mas desenvolvera também uma atitude masculina para com esse objeto” (p.166).

Com relação à história sexual, Freud constata que a paciente passara normalmente pelo Complexo de Édipo (posteriormente teria substituído o pai pelo irmão mais velho) e não apresentava nenhum trauma sexual. A constatação da diferença sexual (em torno dos 5 anos ao comparar seu corpo com o de seus irmãos) trouxe grandes conseqüências psíquicas.

Aos treze anos apegara-se a um menino de 3 anos, fato que faz Freud inferir a presença de um desejo de ser mãe. No entanto, tal afeição foi logo substituída por um intenso interesse por mulheres maduras (que foi repreendido pelo pai).

Aos dezesseis anos sua mãe engravidara. Acontecimento que o autor vai dar extrema importância, já que a partir daí a jovem passa a se interessar por mulheres que são mães. “A análise da jovem revelou, sem sombra de dúvida, que a amada era uma substituta da mãe” (p. 168). No entanto, em virtude da dificuldade de encontrar mães com tendências homossexuais, a maternidade como condição fundamental da escolha amorosa foi abandonada.

O impacto que causara a gravidez da mãe deve-se ao fato desta gravidez ter acontecido justamente na puberdade da paciente, momento em que estava revivendo seus sentimentos edípicos, apresentando o desejo de ter um filho do pai. Assim, sentiu-se desapontada, traída, pois quem engravidou foi sua mãe e não ela; por este motivo ficou magoada com o pai e com os homens, renunciando à sua feminilidade (procurou outro objeto sexual - regressão ao narcisismo). “Ela se transformou em homem e tomou a mãe, em lugar do pai, como objeto de seu amor” (p.170).

Além disso, a escolha homossexual oferecia um ganho secundário, que visava diminuir a hostilidade da mãe para com ela: ao desistir dos homens os deixava para a mãe e assim, não precisavam mais competir.

O fato de descaradamente sair com a dama mostrava o quanto queria que o pai soubesse de sua escolha, pois só assim poderia vingar-se dele, desafiá-lo.
“Era notável, também, que ambos os genitores se comportavam como se entendessem a psicologia secreta da filha. A mãe era tolerante, como se apreciasse a ‘retirada’ da filha como um favor feito a ela; o pai se enfurecia, como se compreendesse a vingança deliberada dirigida contra ele” (p.171).

A repulsa pelos homens também apareceu na transferência, em que a paciente adotava uma atitude de indiferença frente às colocações do analista. Foi nesse sentido que Freud aconselhou aos pais que o tratamento deveria ser continuado por um profissional do sexo feminino.

Freud salienta que a escolha pela dama, apontava para a existência da bissexualidade, já que, além de satisfazer os desejos homossexuais (ideal masculino), satisfazia também os heterossexuais (ideal feminino) - a amada apresentava características físicas que lembravam muito seu irmão mais velho.

Com relação à tentativa de suicídio em que caíra no trilho ferroviário e que antecedera a procura de tratamento, Freud a analisa como determinada por dois motivos: autopunição (culpa com relação aos sentimentos ambivalentes que tivera pelos pais) e realização de um desejo. Para explicar a realização do desejo (ter um filho do pai), o autor faz um jogo com o verbo niederkommen que tem um duplo sentido: dar à luz e cair. A autopunição também é interpretada aqui como a realização de um desejo, já que se matar estaria relacionado ao matar o objeto a que se identificou e que mantinha sentimentos hostis (genitores).

Freud finaliza seu texto retomando brevemente questões da sexualidade humana que aborda mais profundamente nos Três ensaios sobre a sexualidade (1905) - como a bissexualidade e a etiologia da inversão (que englobaria caracteres sexuais físicos, mentais e o tipo de escolha de objeto).

Bibliografia
Freud, S.(1920) A psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

"Mania e Melancolia: manifestações do Real"

No artigo Luto e Melancolia (1915), Freud compara o melancólico ao enlutado. Chega à teorização da melancolia ao afirmar que existe um trabalho de elaboração do luto que é normal em oposição a um patológico.

Freud pensa a mania e melancolia de um ponto de vista metapsicológico, onde os fenômenos clínicos são olhados do ponto de vista tópico (supõe uma diferenciação do aparelho psíquico em id, eu e supereu), dinâmico (os fenômenos psíquicos são resultantes de um conflito) e econômico (a energia pulsional é quantificável com relação à quantidade de excitação: o aumento das pulsões do eu estaria ligado a uma diminuição das pulsões objetais e vice-versa).

O autor descreve a melancolia como uma perda objetal, em que o indivíduo não sabe o que perdeu (a perda é de natureza mais ideal), ao contrário do luto, no qual o objeto perdido é conhecido.

Freud relata que tanto no luto quanto na melancolia podemos notar um estado de desânimo e falta de interesse pelo mundo externo. No entanto, afirma que a diminuição da auto-estima está presente apenas na melancolia, em que o ego torna-se pobre e vazio: é uma perda de si, do eu, há um profundo estado doloroso em que a pessoa se retrai.

Na melancolia a libido livre é deslocada do objeto perdido para o ego (regressão da libido), de forma que parte do ego assume o lugar do objeto abandonado, identificando-se com ele e tomando-o como o objeto a ser criticado (se recrimina como recriminaria aquele que foi perdido). Como conseqüência deste processo surgem as auto-recriminações: “... assim a sombra do objeto caiu sobre o ego (...) dessa forma, uma perda objetal se transformou numa perda do objeto”.

O autor explica que a regressão da libido só é possível porque toda escolha objetal possui uma base narcisista, de forma que frente a obstáculos, a catexia objetal pode retroceder para o ego (no desenvolvimento sexual humano existe uma fase intermediária entre o auto-erotismo e o amor objetal, narcisismo, em que, no início, as pulsões sexuais estão ligadas à satisfação das pulsões do ego – o próprio eu é tomado como objeto erótico – e só aos poucos são dirigidos para os objetos).

A partir da constatação da regressão da libido de forma muito intensa, Freud evidencia que a melancolia é uma “neurose narcísica” (inicialmente este conceito é sinônimo de psicose), ressaltando o predomínio do narcisismo que está presente no psiquismo desses pacientes. É importante pontuar que para ele as neuroses narcísicas não podiam ser tratadas em análise, já que acreditava que tais pacientes seriam incapazes de estabelecer uma transferência.

Para Freud a ambivalência (sentimentos de amor e ódio) está sempre presente na melancolia, em que a catexia da libido sofre uma dupla vicissitude: o ego sendo tomado como o objeto perdido permite a satisfação das pulsões sádicas relacionadas ao objeto e ao mesmo tempo, por meio da identificação, há a manutenção da relação amorosa.

Ele afirma que na mania o ego superou a perda do objeto o que faz com que toda a quota de anticatexia fixada no ego se torne novamente disponível para ser investida em outros objetos. No entanto, ao contrário do luto, isto não ocorre de uma forma gradual.

Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), Freud relaciona a melancolia com o ideal de eu, supereu e o eu ideal (na obra fica difícil distinguir o ideal de eu do supereu, ora descreve como conceitos distintos, ora como sinônimos).

É em Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914), que utiliza a expressão ideal de eu para descrever uma instância que tem uma origem narcísica, em que o homem projeta como seu ideal o substituto do estado de onipotência do narcisismo perdido da sua infância, no qual era seu próprio ideal (eu ideal).

O eu ideal corresponde aos ideais dos pais, em que a criança acredita na sua onipotência porque se acha amada incondicionalmente (inicialmente a criança se identifica como sendo o ideal dos pais, mas, com o tempo, vai percebendo que não é esse ideal; no entanto, este ideal resta como uma reminiscência de forma que o Eu tenta sempre se preservar como este ideal – que na verdade nunca foi).

Os traços do eu ideal ficam introjetados no eu e retornam na forma de uma consciência moral: é o ideal do eu que nos sinaliza o quanto estamos afastados do eu ideal. O supereu seria uma instância que tem a função de manter os ideais, de ser a consciência moral (é o representante dos valores parentais no eu).

Para o autor, na melancolia o ideal de eu se volta contra o eu e o culpa de forma que o eu fica esvaziado e o ideal de eu fica super potente, uma instância crítica feroz. Já na mania, o ideal de eu fica fundido com o próprio eu após tê-lo governado anteriormente com especial rigidez de forma que o eu fica soberano (é tudo aquilo que o criticavam antes).

Freud vai tratar a melancolia como uma psicose em geral, como uma afecção de defesa frente a algo intolerável, em que o eu tenta se preservar através de uma regressão da libido. Já Lacan, a partir de uma releitura de Freud, também a descreve como uma psicose, mas especifica a melancolia como uma patologia do desejo e por isso vai tratá-la sob a ótica do objeto a.

É Lacan quem descreve melhor a psicose ao tratá-la como uma manifestação que depende de algum problema na constituição do sujeito. Ele vai abordar a psicose na via do discurso, mostrando que há uma particularidade no discurso do psicótico.

Lacan afirma que na psicose não há a passagem para o segundo tempo do Édipo: a questão da castração não é colocada. O psicótico está desligado de toda identificação com a função paterna, há uma forclusão do significante Nome-do-Pai, o falo não se coloca como um ordenador simbólico.

No melancólico, a perda convoca a uma falta que não é processada no simbólico e que por isso comparece no real como uma perda do eu: quando a falta não se representa como falta o que se tem é perda no imaginário. Na melancolia a desorganização imaginária aparece num desinvestimento da realidade, do outro e do próprio corpo. Isso pode ser notado, por exemplo, quando alguns pacientes referem que lhe faltam órgãos ou que seu corpo está apodrecendo (a hipocondria é um dos traços da melancolia).

O afeto do melancólico é de nadificação, não é de conflito. A seqüência temporal fica atrapalhada (em suspensão ou lentificada na melancolia e na mania há fuga de idéias). Existe um empobrecimento das significações, todos os significantes remetem ao nada, não como vazio, falta, mas como objeto.

Lacan explica que o melancólico está identificado ao objeto a na condição de resto, de dejeto. Na mania ocorre o contrário, há uma metonímia incontrolável (fuga de idéias), em que há uma saída imaginária através da identificação com o ideal de eu. O objeto incorporado na melancolia resulta de uma escolha efetuada sobre bases narcísicas. Perder o objeto para o melancólico é um encontro marcado com o objeto perdido para sempre, é um encontro com o real.

A complexa relação identificatória entre o ego e o objeto na melancolia parece encobrir uma questão que não diz respeito apenas à escolha de um objeto de amor, mas à própria instauração do objeto de desejo. Não há a desilusão da possibilidade de retorno à mítica satisfação original, não há a aceitação da Coisa (das Ding) enquanto para sempre perdida, o que permitiria o deslizamento de objetos de desejo.

Nesse sentido, o que se tem é uma perda não elaborada a partir da qual instala-se um vazio que só pode ser recoberto pela eleição de um objeto que garanta imaginariamente a completude (busca da eternização da relação pela via da incorporação do objeto).

 

Bibliografia

Freud, S (1914). Sobre o Narcisismo. Obras Completas da Ed. Standard Brasileira. RJ: Imago editora.

________ (1915). Luto e Melancolia. Obras Completas da Ed. Standard Brasileira. RJ: Imago editora.

________ (1921). Psicologia das Massas e Análise do Eu. Obras Completas da Ed. Standard Brasileira. RJ: Imago editora.

Lacan, J (1985). O seminário. Livro 3: As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

 _______(1988). O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. In Escritos. RJ: Jorge Zahar Editor.

_______ (1999). O seminário. Livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.


*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

"A transmissão psíquica do trauma: contribuições para o estudo sobre violência familiar."


Inúmeros estudos acerca da dinâmica da violência conjugal têm constatado que testemunhar violência entre os pais ou ser vítima de violência quando criança são fatores que podem levar a pessoa a se envolver em situações de violência na vida conjugal adulta ou adolescente, seja como vítima, seja como agressor. O que se constata é que, com freqüência, a violência nas relações familiares e conjugais se reproduz de uma geração a outra, criando cadeias familiares de violência que se repetem entre as gerações como se respondessem a um destino inexorável. O que poderia explicar que um fenômeno tão sofrido e humilhante seja passado de pai para filho ou de mãe para filha e assim sucessivamente? Por que uma filha que viu sua mãe ser agredia pelo pai na sua infância, e repudiou intensamente esta cena, acaba, com freqüência, se envolvendo com parceiros violentos?

Alguns teóricos da psicanálise (Kaes, 2001; Granjon, 2000; Benghozi, 2000; Faimberg; 2001; Gomes; 2005) entendem que o sujeito é inscrito em uma ‘cadeia’ familiar da qual ele é o ‘elo’ e à qual se submete, estruturando-se e se desenvolvendo em relação àquilo que se constitui herdeiro e que lhe é transmitido pelo grupo a que pertence.

Uma primeira aproximação do tema da transmissão psíquica entre gerações de uma mesma família requer que se esclareça a noção do que se entende por família. Granjon (2000) define o grupo familiar como um grupo primário, com um tipo de organização particular em torno dos laços de aliança, de filiação e de fraternidade e que possui a função e finalidade de se perpetuar. Longe de ser uma soma de indivíduos, a família é um espaço psíquico complexo composto pelas instâncias psíquicas de cada um, mobilizadas pelas relações inter e transubjetivas. Fala-se em espaço psíquico familiar, no qual a existência de cada um está fundada no lugar oferecido e ocupado na cadeia das gerações, na relação com aqueles que o precederam e que não mais existem.

Uma das questões centrais do processo de transmissão psíquica, que pode levar a importantes disfunções no aparelho psíquico familiar é o modo como esta transmissão se dá, isto é, se a transmissão é ‘intergeracional’ ou se é ‘transgeracional’. A primeira modalidade de transmissão implica que as ligações com e entre diferentes níveis intrapsíquicos e intersubjetivos sejam intermediadas pelo grupo, pelos agenciamentos e pelas aparelhagens das formações psíquicas mobilizadas, favorecendo transformações do material transmitido e conduzindo a uma diferenciação, uma evolução entre o que é transmitido e o que é herdado. Já a transmissão transgeracional ocorre se o processo de transmissão não for intermediado pelo grupo, mas transmitido sem distanciamento, sem laços, sem transformações, atravessando as gerações e se impondo em estado bruto aos descentes. (Granjon, 2000; Benghozi,2000).

Esta última modalidade de transmissão ocorre quando o que é transmitido não pode ser metabolizado ou elaborado pelos sujeitos que transmitem e pelos que recebem a herança. É o caso dos eventos traumáticos, das mortes, dos delitos e dos eventos que carregam uma carga excessiva de culpa e vergonha, que são transmitidos junto com os mecanismos de defesa e interditos que eles suscitam para evitar que sejam conhecidos, sabidos ou ditos. Como diria Granjon, o que é transmitido transgeracionalmente são “acontecimentos que irromperam, em um dado momento da historia, por destruição das pára-excitações psíquicas individuais e grupais, fazendo fracassar as formações e os processos capazes de metabolizá-los, de torná-los pensáveis, de integrá-los em uma psique e em uma história”(Granjon, 2000).

Dentro deste quadro teórico, entendemos que a violência que ocorre no interior da família é, muitas vezes, vivida como evento traumático, que se inscreve na cadeia de transmissão do continente genealógico familiar como experiência indizível e inconfessável. Muitas vezes o pacto de silêncio estabelecido entre crianças abusadas sexualmente por familiares e o abusador faz com que o silêncio seja transmitido entre gerações, levando à reprodução da violência sexual nas gerações seguintes. A dor, a crueldade e a vergonha vividas pelas crianças que assistem a violência doméstica entre seus pais também são experiências muitas vezes impossíveis de serem metabolizadas e acabam por serem transmitidas em sua forma bruta para as outras gerações. Como nos mostra Benghozi “A gestão da herança traumática da vergonha está diante de um impasse. O risco constante, quando há um traumatismo psíquico não metabolizado, é a repetição da cena da violência, mesmo depois de várias gerações. A vítima se torna carrasco. Ele é encontrado nas terapias de família com relações incestuosas e com violência intrafamiliar” (Benghozi, 2000:97)

Para a interrupção da repetição da violência e a prevenção de transmissões transgeracionais, a psicanálise propõe intervenções clínicas familiares que, através da sustentação terapêutica, ajudem a reconstruir os continentes genealógicos familiares, garantindo uma condição de reestruturação do sujeito na cadeia. Por sustentação terapêutica entende-se a construção de uma posição continente do terapeuta que reconhece o caráter efetivo do trauma e garante a co-construção narrativa do afresco familiar genealógico e a confrontação e reatualização de fantasias inconscientes (Benghozi, 2000).

Referências bibliográficas
BENGHOZI, P. Traumatismos precoces da criança e transmissão genealógica em situações de crises e catástrofes humanitárias. Em Correa, O. (Org) Os avatares da transmissão psíquica geracional. SP: Escuta, 2000, pp 89-100.
GRANJON, E. A elaboração do tempo genealógico no Espaço do tratamento da terapia familiar psicanalítica. Em Correa, O. (Org) Os avatares da transmissão psíquica geracional. SP: Escuta, 2000, pp 17-44.


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“Totem e Tabu” (1913) - Resenha

Neste trabalho, Freud faz uma contribuição à antropologia social e constrói uma reflexão a respeito do Complexo de Édipo na origem da civilização. Aborda o mito da horda primeva e da morte do pai totêmico que levarão às hipóteses acerca da origem das instituições sociais e culturais, além da religião e da moralidade.

Segundo o autor, este artigo consiste numa tentativa de explicar questões da psicologia social, relacionando o totemismo aos vestígios da infância. Também procura compreender a passagem do clã totêmico para a família.

Escolhe como ilustração, principalmente, as tribos primitivas dos aborígines da Austrália. Nestas tribos, regia o sistema do totemismo (não existiam instituições sociais e religiosas), que teria como característica comum a exogamia (proibição de relações sexuais entre os membros do mesmo clã) conseqüente da proibição do incesto e fundamental para a preservação de toda a comunidade – “esses selvagens têm um horror excepcionalmente intenso ao incesto, ou são sensíveis ao assunto num grau fora do comum, e que aliam isso a uma peculiaridade que permanece obscura para nós: a de substituir o parentesco consangüíneo real pelo parentesco totêmico” (p.25).

O autor ressalta que a necessidade de proibição do incesto está intimamente ligada ao desejo de cometê-lo. “Os tabus, devemos supor, são proibições de antiguidade primeva que foram, em certa época, externamente impostas a uma geração de homens primitivos; devem ter sido calcadas sobre eles, sem a menor dúvida, de forma violenta pela geração anterior. Essas proibições devem ter estado relacionadas com atividades para as quais havia forte inclinação” (p.48).

Freud retoma sua teoria a respeito do Complexo de Édipo na qual afirma que a primeira escolha amorosa da criança é incestuosa, “assim, as fixações incestuosas da libido continuam (ou novamente começam) a desempenhar o papel principal em sua vida mental inconsciente” (p.35).

O autor ressalta a ambivalência presente nos tabus: proíbem algo que é desejado (desejo inconsciente nos membros da tribo, como nos neuróticos). Por este motivo, sua violação precisa ser vingada – os outros ficariam tentados a agir da mesma forma que o transgressor. “As mais antigas e importantes proibições ligadas aos tabus são as duas leis básicas do totemismo: não matar o animal totêmico e evitar relações sexuais com os membros do clã totêmico do sexo oposto. Estes devem ser, então, os mais antigos e poderosos dos desejos humanos” (p.49).

Freud define tabu como um termo que possui dois sentidos contraditórios: por um lado ‘sagrado’e por outro, ‘proibido’, ‘perigoso’. Uma característica comum dos tabus seria o temor de ter contato com ele (significado demoníaco).

O autor salienta que as restrições do tabu se impõem por conta própria, têm origem e fundamentos desconhecidos, não dependendo, por exemplo, de motivos divinos, como as proibições religiosas ou morais. “Wundt (1906,308) descreve o tabu como o código de leis não escrito mais antigo do homem. É suposição geral que o tabu é mais antigo que os deuses e remonta um período anterior à existência de qualquer espécie de religião” (p.37).

Ao analisar os tabus dos povos primitivos, Freud constata que estes não divergem de alguns costumes de nossa sociedade. O autor estabelece, ao longo do trabalho, uma comparação entre a psicologia dos povos primitivos e a psicologia dos neuróticos, apontando diversos pontos de concordância, principalmente, com a neurose obsessiva.

Entre as semelhanças dos tabus com a neurose obsessiva cita: proibições destituídas de motivos, misteriosas em suas origens; principal proibição é contra o tocar (entrar em contato com); restrições sujeitas ao deslocamento (substitutos) e transferência (risco de infecção, qualquer um que viola o tabu se torna ele próprio tabu); o fato de criarem atos cerimoniais e o desejo de violar a proibição persiste no inconsciente - já que existe uma atitude ambivalente frente ao proibido (temido e desejado).

Seleciona o que considera os principais tabus: aqueles que se vinculam aos inimigos (restrições sobre o assassino, punição e atos de purificação, cerimônias), aos chefes (proteger um governante e ser protegido dele; atitude de um selvagem para com seu governante provém da atitude infantil de uma criança para com seu pai) e aos mortos (conseqüência do contato com os mortos e de seu tratamento – analogia da infecção / hostilidade inconsciente é reprimida e projetada, transformando o morto em demônio e a necessidade de cerimoniais para se proteger).

Em todos estes tabus nota a presença de uma ambivalência emocional (dominância de tendências opostas) e afirma que as proibições seriam conseqüências desta ambivalência. “... a probabilidade de que os impulsos psíquicos dos povos primitivos fossem caracterizados por uma quantidade maior de ambivalência que a que se pode encontrar no homem moderno civilizado. É de supor-se que como essa ambivalência diminuiu, o tabu (sintoma da ambivalência e uma acordo entre os dois impulsos conflitantes) lentamente desapareceu” (p.79).

Freud, sem se aprofundar, também cita o que chama de senso de culpa tabu que surgiria toda vez que o tabu fosse violado e o relaciona à angústia e ao caráter do neurótico obsessivo.

Embora compare, em muitos momentos de seu texto, o tabu com a neurose, o autor salienta uma distinção entre eles, afirmando que o primeiro seria uma instituição social (cultural), enquanto que as neuroses teriam uma estrutura associal (as pulsões sexuais predominam sobre as sociais).

Freud destaca três características principais dos tabus: animismo (objetos inanimados são animados por espíritos e demônios – formação da idéia de alma que depois iria influenciar na origem das religiões), magia (decorrente da necessidade de controlar o mundo, como os rituais para produção de chuva e fertilidade – leis da natureza substituídas por leis psicológicas – compara com os atos obsessivos que têm um caráter mágico) e onipotência dos pensamentos (crença nos desejos – semelhante ao bebê que satisfaz seus desejos de uma maneira alucinatória).

 O autor associa estas características com o narcisismo (pulsões sexuais que catexizam o ego como objeto) e compara as diferentes concepções do homem em relação ao universo com as fases do desenvolvimento libidinal: a animista corresponderia à narcisista, a religiosa à escolha de objeto e a científica com a maturidade (renuncia ao princípio de prazer e volta-se para o mundo externo).

No capítulo IV, Freud volta a descrever o totemismo como um sistema que seria a base da organização social de todas as culturas. O totemismo seria assim, um sistema social marcado por relações de respeito e proteção entre os integrantes do clã e o totem a partir de normas de costume.

O autor ressalta a exigência de se respeitar severamente os tabus que protegem o totem, sendo qualquer violação punida por doença grave ou morte. Freud distingue o laço totêmico do familiar, afirmando que o primeiro é mais forte e é herdado pela linhagem feminina (a descendência paterna nem sempre é considerada). “‘Totem’ é, por uma lado, um nome de grupo e, por outro, um nome indicativo de ancestralidade. Sob o último aspecto, possui também uma significação mitológica” (p.114).

Freud retoma a questão da exogamia e a conseqüente proibição do incesto presentes no totemismo e os relaciona à teoria de Darwin, que afirma que a exogamia dos jovens do sexo masculino era a condição reinante da horda primeva (o ciúme do macho mais velho impedia a promiscuidade sexual - este ficaria com todas as fêmeas, expulsando os filhos à medida que cresciam).

O autor também salienta a semelhança entre as relações das crianças e dos homens primitivos para com os animais. Para exemplificar tal semelhança, retoma seu caso clínico, Hans, onde demonstra que os sentimentos ambivalentes para com o pai são deslocados para um animal - o mesmo ocorreria com o totem, que ocuparia o lugar de um ancestral, do pai primevo.

Afirma que tanto as psiconeuroses como o totemismo seriam os produtos das condições em jogo no Complexo de Édipo (ao longo do texto afirma que o início da religião, da moral, da sociedade e da arte também convergem para o Complexo de Édipo). “A psicanálise revelou que o animal totêmico é, na realidade, um substituto do pai (...) a atitude emocional ambivalente, que até hoje caracteriza o complexo-pai em nossos filhos e com tanta freqüência persiste na vida adulta, parece estender-se ao animal totêmico em sua capacidade de substituto do pai” (p.145).

A partir do mito da horda primeva, Freud descreve uma situação mítica em que os filhos expulsos matariam e devorariam o pai tirânico colocando fim à horda patriarcal - o fato de devorarem o pai fazia com que se identificassem com ele (adquiriam parte de sua força).

O autor destaca a presença de sentimentos ambivalentes dos irmãos perante o pai: ao mesmo tempo em que o odiavam (por representar um obstáculo aos seus desejos sexuais), o amavam e o admiravam. Esta ambivalência levaria a um sentimento de culpa: “o pai morto tornou-se mais forte do que o fora vivo... o que até então fora interdito por sua existência real foi doravante proibido pelos próprios filhos” (p.146).

Freud dá grande ênfase à proibição do incesto, afirmando que ela precisou ser instituída para preservar a vida em grupo, uma vez que os desejos sexuais dividiriam os homens, impedindo sua união (todos os irmãos desejavam todas as mulheres para si, desejavam assumir o lugar do pai).

Assim, a proibição do incesto obrigava os irmãos a renunciarem às mulheres que desejavam e que tinha sido o motivo principal para se livrarem do pai, a horda patriarcal era substituída pela horda fraterna (“Não matarás!”).

Baseado no mito, afirma que a religião totêmica teria surgido a partir deste sentimento filial de culpa, “num esforço para mitigar esse sentimento e apaziguar o pai por uma obediência a ele que fora adiada” (p.148) e teria como finalidade impedir a repetição do ato que causara a destruição do pai real.

O autor constata que a ambivalência também persiste nas religiões: remorso e expressões de triunfo sobre o pai (festival rememorativo da refeição totêmica: o sacrifício do animal totêmico repetia o parricídio sempre que os atributos paternos ameaçavam desaparecer – compara com a comunhão dos cristãos).

A morte do pai da horda fez surgir um “ideal que corporificava o poder ilimitado do pai primevo contra quem haviam lutado, assim como a disposição de submeter-se a ele” (p.151). Este ideal seria encontrado nas religiões, em que a idéia de Deus representaria a de um pai glorificado e também afetaria as organizações sociais, de forma que a sociedade voltaria a se organizar numa base patriarcal (famílias).

 

Bibliografia:

Freud, S.(1913) Totem e Tabu. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


*É proibida a reprodução do texto publicado nesta página, no todo ou em parte, sem autorização escrita da autora, sujeito às penalidades previstas na Lei 9.610/98 de direitos autorais.

“Inibições, Sintomas e Angústia” (1926) - Resenha

A questão da angústia constitui o tema central do texto. Freud aborda também as diferentes classes de resistência, a distinção entre repressão e defesa e as relações entre angústia, dor e luto.

Em seus primeiros textos era clara a tentativa de expressar a psicologia em termos fisiológicos. Inicialmente, infere que a neurose de angústia estaria relacionada com a descarga de tensão sexual, sendo a angústia um processo físico, resultado da excitação acumulada. Mais tarde, passa a atribuir ao fator psicológico (repressão) o motivo do acúmulo da libido, mas não abandona a teoria de que a angústia surge de uma transformação da energia acumulada. A princípio, o termo angústia é utilizado como sinal de desprazer.

No presente texto, abandona sua teoria da angústia como originada da libido e passa a considerá-la como uma reação a uma situação de perigo ou traumática. Abandona também a dicotomia entre angústia realística (em função de uma excitação exógena) e angústia neurótica (endógena). Afirma que as situações de perigo apesar de serem diversas, têm em comum o medo da perda do objeto amado (separação) ou de seu amor e sustenta que a experiência de nascimento seria o protótipo de todas as angústias.

O autor salienta a importância de distinguir os sintomas das inibições. Para ele, a inibição seria restrição de uma função do ego, não sendo, necessariamente, patológica. Entre as inibições das funções do ego, destaca: a sexual, de nutrição, de locomoção e de trabalho.

Freud relata que existe uma relação entre inibição e angústia, uma vez que as primeiras podem surgir como uma tentativa de evitar a angústia. Para ele as inibições têm diferentes origens: podem surgir em decorrência de uma tentativa do ego em evitar um conflito com o id, com o superego ou podem ocorrer em função de um empobrecimento da quantidade de energia.

A inibição específica de um órgão físico corresponde ao primeiro caso “o ego renuncia a essas funções (...) a fim de não ter de adotar novas medidas de repressão – a fim de evitar entrar em conflito com o id” (p.93). Isto acontece em função do significado sexual do órgão, decorrente de uma intensa erotização deste, em que seu funcionamento representaria a realização de um ato sexual reprimido (assim, por exemplo, escrever teria o significado da copulação).

Freud classifica as inibições que visam evitar um conflito do ego com o superego como tendo uma finalidade de autopunição e as exemplifica com as inibições de atividades profissionais, nas quais a pessoa não se permite ter êxito no trabalho. Entre aquelas que ocorrem em função de um empobrecimento da quantidade de energia, cita o luto, em que a pessoa perde energia com a perda do objeto amado e por isso precisa reduzir a energia gasta em outras coisas.

Para Freud, um sintoma, ao contrário de uma inibição, é um sinal de algo patológico e que não ocorre dentro do ego ou atua sobre este. O sintoma teria um caráter de extraterritorialidade na medida em que existiria fora e independentemente do ego.

Um sintoma é acarretado pela repressão, sendo um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional. Desse modo, afirma que o sintoma é uma formação substitutiva ou de compromisso na medida em que cria algo no lugar do processo pulsional ameaçador, suprime-o ou desvia-o de seus objetivos. O sintoma seria sinal de que a repressão falhou, de modo que a pulsão teria encontrado “um substituto muito mais reduzido, descolado e inibido, e que não é mais reconhecido como uma satisfação e (...) sua realização apresenta, ao contrário, a qualidade de uma compulsão” (p.98).

Freud destaca que o processo de repressão ocorre no ego, que é a sede da angústia. “A angústia é um estado afetivo e como tal, naturalmente, só pode ser sentida pelo ego” (p. 139). As primeiras repressões acontecem antes do estabelecimento do superego, sua origem estaria relacionada à quantidade de energia. Na repressão, o ego recusa a catexia provocada no id, transformando o que seria sentido como prazer (por meio da satisfação pulsional), em desprazer. A repressão atua sobre o impulso e sobre seu representante psíquico.

Freud ressalta que o ego é uma parte “organizada do id”, não se opondo a este. Diz também que ego e superego não são separados e que muitas vezes, acham-se fundidos.

No terceiro capítulo, aponta para a existência de um ganho secundário proveniente da doença, que ocorre em função do ego incorporar o sintoma (torna-o parte dele mesmo), de forma que o sintoma torna-se indispensável ao ego. O ego defende o sintoma na medida em que este se torna um substituto da pulsão reprimida - assume seu papel, exigindo assim, satisfação constante. “... esses laços conciliatórios entre o ego e o sintoma atuam do lado das resistências e não são fáceis de afrouxar” (p.102).

Retomando o caso do Pequeno Hans e do Homem dos Lobos, Freud observa a presença de sentimentos ambivalentes frente a figura paterna e afirma que nesses pacientes, o impulso hostil contra o pai sofreu repressão ("impulso assassino do Complexo de Édipo") por meio do processo de ser transformado em seu oposto (eles temiam os animais ao invés de agredi-los). Ele salienta que o sintoma, nesses casos, não seria o medo, mas sim, o deslocamento (substituição) da figura do pai pela de um animal (cavalos no primeiro caso e lobos, no segundo).

O autor também destaca a repressão pela qual passou a libido, regredindo da fase fálica para a oral. Para Freud, a força motriz da repressão nestes casos clínicos teria sido o temor de castração, o que confirma sua hipótese de que a origem da repressão estava na angústia, no medo de um perigo (castração). “Foi a angústia que produziu a repressão e não, como eu anteriormente acreditava, a repressão que produziu a angústia (...) É sempre a atitude de angústia do ego que é a coisa primária e que põe em movimento a repressão. A angústia jamais surge da libido reprimida” (p.111).

Freud afirma que existe uma grande relação entre angústia e sintoma, já que estes se formam com a finalidade de evitar a angústia: os sintomas “reúnem a energia psíquica que de outra forma seria descarregada como angústia. Assim este seria o fenômeno fundamental e o principal problema da neurose” (p.142). A angústia, diz ele, é condição necessária para o surgimento do sintoma, pois é ela que desperta o mecanismo prazer-desprazer, que paralisa os processos do id.

Freud afirma que a finalidade de destruição do complexo de Édipo e o temor de castração são aspectos em comum na formação dos sintomas dos três tipos de neurose (fobia, neurose obsessiva e histeria). No entanto, descreve sintomas peculiares a cada neurose.

 Com relação aos sintomas da neurose obsessiva, os classifica em dois grupos: os negativos (proibições, precauções e expiação) e as satisfações substitutivas (disfarce simbólico). Afirma que estes sintomas são, geralmente, bifásicos, ou seja, uma ação que impõe algo e outra que desfaz a primeira (“mágica negativa”). Essa tentativa de desfazer algo que foi feito aparece na obsessão de repetir. Freud também aponta para o isolamento, mecanismo de defesa utilizado pelos obsessivos e que difere das histéricas, que utilizam muito a amnésia (embora o efeito seja o mesmo). No isolamento a experiência, ao invés de esquecia, é cindida de seu afeto e de suas conexões associativas.

Freud diferencia a histeria da neurose obsessiva também ao dizer que, na segunda, o ego atua mais na formação dos sintomas e que o próprio processo de pensar se torna hipercatexizado e erotizado. O autor destaca o “tabu de tocar” (medo de contaminação, por exemplo), tão freqüentemente encontrado nestes pacientes e que visa impedir as catexias agressivas e amorosas.

O autor também afirma que nas neuroses obsessivas, além da repressão como defesa, o ego utiliza-se da regressão, em que a organização genital é lançada ao nível anal-sádico. Para ele, a neurose obsessiva é marcada por um grande conflito entre o id e o superego. Afirma que a severidade do superego destes pacientes é decorrente do fato deste comportar-se como se a repressão não tivesse ocorrido, como se conhecesse o caráter agressivo da pulsão. Nestas neuroses há um fracasso da defesa e o ego fica extremamente restringido, procurando satisfação nos sintomas. “Além da destruição do complexo de Édipo verifica-se uma degradação regressiva da libido, o superego torna-se excepcionalmente severo e rude, e o ego, em obediência ao superego, produz fortes formações reativas de consciência, piedade e anseio” (p.116).

Com relação ao temor de castração das mulheres, Freud oscila sua opinião, conforme o que considera castração: temor da perda do pênis ou medo de separação. Em alguns momentos, afirma que a angústia de castração não existiria, uma vez que estas já são castradas e em outros, diz que está presente e aparece pelo medo da perda de amor. “Afigura-se provável que, como um determinante da angústia, a perda do amor desempenha o mesmíssimo papel na histeria que a ameaça da castração nas fobias e o medo do superego na neurose obsessiva” (p.141).

Com relação à fobia, o autor salienta que há uma formação substitutiva (distorção com relação à localização da ameaça) que apresenta duas vantagens. Por um lado, evita um conflito com relação à ambivalência de sentimentos perante o pai (é amado e odiado) e, por outro, impede o ego de gerar angústia, já que o perigo interno é projetado para outro externo, de forma que passa a ser possível fugir do perigo - o que não ocorre quando este surge de dentro (ao preço de uma inibição do ego, como fez Hans, impondo uma restrição a este). “A angústia que pertence a uma fobia é condicional: ela só surge quando o objeto dela é percebido” (p.125)

Já na neurose obsessiva o perigo é localizado no superego, ficando internalizado. “Se criam sintomas a fim de evitar uma situação de perigo cuja presença foi assinalada pela geração de angústia” (p.128).

Freud amplia a descrição da angústia a concebendo como uma reação a um perigo específico para cada fase da vida: “Assim o perigo de desamparo psíquico é apropriado ao perigo de vida quando o ego do indivíduo é imaturo; o perigo da perda de objeto, até a primeira infância, quando ele ainda se acha na dependência de outros; o perigo de castração, até a fase fálica; e o medo do seu superego, até o período de latência. Não obstante, todas essas situações de perigo e determinantes de angústia podem resistir lado a lado e fazer com que o ego a elas reaja com angústia num período ulterior ao apropriado; ou, além disto, várias delas podem entrar em ação ao mesmo tempo” (p.140).

Freud salienta que desprazer e angústia não são sinônimos. Apesar da angústia ter características de desprazer, ela não possui apenas esta qualidade. Apresenta também atos de descarga (sensações físicas presentes e ligadas a órgãos específicos do corpo, como o respiratório) e as percepções desses atos. “Devemos estar inclinados a pensar que a angústia se acha baseada em um aumento de excitação que, por um lado, produz o caráter de desprazer e, por outro, encontra alívio através dos atos de descarga” (p.132).

“Finalmente, o ser adulto não oferece qualquer proteção absoluta contra um retorno da situação de angústia original. Todo indivíduo tem, com toda probabilidade, um limite além do qual seu aparelho mental falha em sua função de dominar as quantidades de excitação que precisam ser eliminadas” (p.146).

Freud relata que a repressão, ao mesmo tempo em que inibe os processos do id considerados ameaçadores, os deixam independentes, livres da soberania do ego. “Isto é inevitável pela natureza da repressão, que é, fundamentalmente, uma tentativa de fuga. O reprimido é agora, por assim dizer, um fora-da-lei; fica excluído da grande organização do ego e está sujeito somente às leis que regem o domínio do inconsciente”.(p.149). Frente a uma situação de perigo o id seguirá o curso de suas pulsões por meio da compulsão à repetição. “O fator de fixação na repressão, portanto, é a compulsão à repetição do id inconsciente” (p.150).

A análise teria como função levantar as repressões, tornando as resistências conscientes, de forma que o ego recupere seu poder sobre o id. No entanto, Freud observa que mesmo após tornarem-se conscientes, o ego não abandona a repressão que aparece no poder de compulsão à repetição. Esta compulsão é denominada por ele como a resistência do inconsciente.

O autor descreve cinco espécies de resistências, três que provém do ego (resistência da repressão, resistência da transferência, ganho proveniente da doença – oriundo da assimilação do sintoma ao ego), uma do id (repetição) e uma do superego (sentimento de culpa, necessidade de punição). Freud aponta para três fatores que desencadeiam uma neurose: o biológico (condição de desamparo e dependência da espécie humana), que cria a necessidade de ser amado; o filogenético (características do desenvolvimento da libido, exigências da sexualidade) e o psicológico (diferenciação do aparelho mental em um id e um ego).

Freud faz uma distinção entre angústia (Angst) e Medo (Furcht) afirmando que a primeira é sem objeto. Diz que na angústia o perigo é desconhecido (desamparo psíquico), diferentemente da angústia realística (desamparo físico), em que se conhece o perigo. “A angústia, por conseguinte, é, por um lado, uma expectativa de um trauma e, por outro, uma repetição dele em forma atenuada” (p.161)

O autor salienta o dispêndio permanente de energia efetuado pela repressão, uma vez que as pulsões têm uma natureza constante.

Freud denomina de resistência a ação que garante a repressão e a qualifica como uma anticatexia. Como uma das formas de resistência cita a formação reativa, onde o que aparece é o oposto da tendência pulsional. Na neurose obsessiva elas atingem a universalidade dos traços de caráter (alteração do ego, anticatexia interna), enquanto que na histeria e na fobia fica restrita a objetos específicos (anticatexia externa).

 

Bibliografia:

Freud, S.(1926) Inibições, sintomas e angústia. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


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"Droga "

“Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise” (1912) - Resenha


Neste artigo, Freud reúne algumas recomendações aos analistas que, na época, eram exclusivamente médicos, no exercício da psicanálise. Considero este texto como referência, por ser atual e de grande relevância para os profissionais da área. As regras técnicas que Freud apresenta foram alcançadas por meio de sua própria experiência, após o trabalho de alguns anos. Sua prática foi sofrendo algumas alterações com base no resultados. Afirma que este artigo servirá para poupar os médicos de esforços desnecessários e faz uma ressalva de que essas recomendações são pautadas em sua individualidade.

 A primeira recomendação é que não sejam feitas anotações durante o atendimento de cada paciente, mesmo que seja necessário atender vários durante o dia. Não deve ser dedicada atenção especial para qualquer informação trazida pelo paciente. Deve-se manter “atenção uniformemente suspensa, em face de tudo que se escuta”(p.125).

Assim, o analista é poupado de um esforço muito grande de atenção, selecionando o material apresentado. Sugere que o analista não fixe sua atenção em determinado ponto, pois desta maneira “estará arriscando a nunca descobrir além do que já sabe” (p.126).

Tudo deve ser guardado na memória e a maioria das coisas serão compreendidas em um tempo posterior. Esta regra, de prestar atenção flutuante a tudo o que o paciente lhe comunica, seria a contrapartida à exigência feita ao paciente, que comunique tudo sem crítica ou seleção. A regra para o analista seria:“Ele deve conter todas as influências conscientes da sua capacidade de prestar atenção e abandonar-se inteiramente à memória inconsciente” (p.126). Ou: “Ele deve simplesmente escutar e não se preocupar se está se lembrando de alguma coisa”(p.126). Agindo assim, o analista estará preparado para as exigências do tratamento, pois as informações que se encontram desconexas, rapidamente, virão à lembrança quando algo novo for trazido pelo paciente.

Não se devem escrever notas durante as sessões, pois essas são fruto de uma seleção pessoal. A atividade mental do analista deve estar voltada a escuta e às interpretações deste material. Esses apontamentos devem ser feitos após o término do trabalho e se necessário, pedir para o paciente repetir algum dado ao longo das outras sessões.

Freud recomenda que trabalhos científicos só sejam realizados após a conclusão do tratamento. “Casos que são dedicados, desde o princípio, a propósitos científicos, e assim tratados, sofrem em seu resultado, enquanto os casos mais bem sucedidos são aqueles em que se avança, por assim dizer, sem qualquer intuito em vista, em que se permite ser tomado de surpresa por qualquer nova reviravolta neles” (p.128).

O ideal seria evitar especulações e meditações sobre os casos enquanto estão em análise, pois isso impediria a ampliação de hipóteses, conhecimentos. Outra recomendação é que os psicanalistas deixem de lado sua “ambição terapêutica de alcançar, (...) algo que produza efeito convincente em outras pessoas” (p.128). O analista deve manter certo “distanciamento emocional”, pois esta lhe dará melhores condições de trabalho podendo oferecer maior auxílio ao paciente.

O analista deve utilizar todo seu conhecimento para garantir que seu inconsciente esteja funcionando como um órgão receptor, na direção do inconsciente transmissor do paciente. Assim, sua auto-análise deve ser utilizada para impedir que suas próprias resistências interfiram no material trazido pelo paciente, sem ser crivado por sua crítica ou seleção consciente. Todos aqueles que queiram ser analistas devem se submeter à auto-análise, pois só assim terão acesso à impressões inacessíveis por meio dos livros e palestras. Mas apenas a auto-análise se mostrará insuficiente:

“Quem não se tiver dignado tomar precaução de ser analisado não só será punido por ser incapaz de aprender um pouco mais em relação a seus pacientes, mas correrá também perigo mais sério, que pode ser tornar perigo para os outros. Cairá facilmente na tentação de projetar algumas peculiaridades de sua personalidade (...); levará o método psicanalítico ao descrédito e desencaminhará os inexperientes”(p.131)

Sobre a troca de intimidades com o paciente, Freud recomenda que na psicanálise as coisas acontecem de modo diferente da psicologia da consciência e que experiências deste tipo não são favoráveis. Trocas de confidências não trazem progressos ao paciente, tornando este ainda mais resistente: “O médico deve ser opaco aos seus pacientes e, como um espelho, não mostrar-lhes nada, exceto o que lhe é mostrado” (p.131).

O analista também deve se controlar ao desejar manter com seu paciente uma atividade educativa. Deve ser tolerante e se contentar com o fato do paciente ter recuperado certa capacidade de trabalho e de divertimento moderado. Afirma: “A ambição educativa é de tão pouca utilidade quanto a ambição terapêutica”. (p.132) Freud aconselha cautela aos analistas em relação às recomendações destes para com seus pacientes.

É errado determinar tarefas como orientá-los a determinadas lembranças ou pensamentos em relação a fatos específicos de suas vidas. Esta pedagogia é desnecessária pois a solução de seus enigmas só se dará através da regra psicanalítica.

Bibliografia

Freud, S. (1912) - Recomendações aos médicos que exercem a Psicanálise. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


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